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Sunday, 11 March 2018

Nos Desertos, nas Montanhas (XXXVIII): Osh

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3/10/2012

O burocrata gordo e baixinho, com olhos puxados, óculos redondos de aros prateados, sem nenhum sorriso no rosto ou empatia no olhar, apenas desprezo por mim, frustração e raiva silenciosos, me pediu para entrar em sua sala. Senta-se à sua mesa, em seu trono. Usa uniforme militar, verde gasto. Nas paredes, vejo um retrato do presidente. O ambiente está meio escuro, lá fora está um Sol forte que ilumina um pouco o ambiente, entrando não sei por onde, já que não vejo janelas. A seu pedido, fecho a porta e me sento à sua frente.

O comandante a cargo do posto da fronteira. Estou tentando entrar no seu país, o Quirguistão, vindo do Tajiquistão, esse "ninho de radicais" (aspas minhas, imaginando o que o sujeito pensa).

Olha para mim. Olho para ele. Olhos nos olhos. Daqui, não passo. Nem mais um passo. Esta fronteira está fechada. Fechada para mim.


Retrocedo rapidamente no tempo até o início desta enrascada. Subindo do vale do Panj para o lago Bulunkul, na estrada de terra, nosso carro encontrou mais um posto de controle militar tajique, como o que encontramos quando estávamos chegando ao Pamir vindos de Khorog e onde tivemos aquele longo jogo de paciência que custou ao nosso motorista US$ 15 em propina para os militares. Neste caso, novamente, uma cancela, novamente o cenário remoto - só a guarita, nenhuma cidade por perto, muita poeira, Sol -, mas desta vez, havia apenas um soldado. Um pobre coitado, entediado até a ponta dos cabelos. Minha primeira reação foi de pena ao vê-lo. Foi um sentimento que mudou quando ele pegou os passaportes de todos no carro, levou-os à sua cabine e lá ficou com eles por quase uma hora. "Checando" os documentos.

Nesse trabalho minucioso de "checagem", saiu em duas ocasiões da cabine para falar conosco e nos dar a oportunidade de lhe dar presentes. Primeiro, queria um cigarro. Falamos que não tínhamos nenhum cigarro. Foi para a guarita contrariado. Ficou lá mais tempo. Saiu, voltou a falar conosco. Insistiu que queria um "cigarro". Insistimos que não, que não tínhamos nenhum cigarro nem nenhum "cigarro". Voltou para sua cabine novamente, frustrado. A estratégia dele não estava funcionando.

A nossa, funcionou. Ou achamos que funcionou. O sujeito se cansou de jogar, saiu da guarita, nos devolveu os documentos, abriu a cancela e saímos de lá o mais rapidamente que pudemos, suspirando aliviados. Tudo bem - até que eu olho dentro do meu passaporte. Diferentemente dos meus colegas, ganhei do guarda uma "lembrancinha" (já que não demos nada a ele, ele deu algo a mim). Meu passaporte me foi devolvido com a capa arrancada do miolo, arrancada de todas as páginas. Agora, eu tinha um documento dividido por dois, a capa e o interior. Claramente foi vandalizado pelo militar, que aliás fez um excelente trabalho, arrancou as páginas sem estragar em nada o miolo nem a capa. Os vistos estavam todos lá, as páginas estavam limpas, inteiras. Mas, evidentemente, aquele passaporte não era mais o mesmo. Mostrei para meus amigos e ficamos todos horrorizados com a maldade do sujeito. Entretanto, o consenso no carro era que, já que ele não tinha estragado as páginas e os vistos, nem a página com a minha identificação, eu não teria problemas, e era só o caso de no futuro visitar um consulado para pedir um novo, sem pressa.

E segui pensando assim até o encontro com o meu nêmesis, o burocrata gordo e baixinho no lado quirguiz do passo Kyzyl-Art, na saída do Pamir, na saída da região autônoma de Gorno-Badakhstan, na saída do Tajiquistão.

"Este passaporte é inaceitável", disse ele de forma enfática, inapelável, como um sargento dando ordens a um recruta rebelde. "Você tem que voltar a Dushanbe e pegar um novo. POR AQUI, VOCÊ NÃO PASSA." Ênfase na elevação ameaçadora do tom da voz. Em russo, o que é ainda mais ameaçador.

Evidentemente, fingi não estar entendendo nada. Mostrei a ele o visto de entrada no Quirguistão, impecável. A página com a foto e dados pessoais do passaporte. Tudo perfeito. Mas a capa estava separada do miolo.

"Isto é LIXO. Não aceito este passaporte. Volte para Dushanbe."

Tamanha falta de razão logo me fez perder a calma. Em uma situação assim, entender russo já é difícil e falar, ainda mais. Pois arrisquei lhe responder em inglês (imaginei que o digno senhor, sendo o manda-chuva em uma fronteira internacional visitada regularmente por estrangeiros, arranhasse um pouco a língua).

"Voltar para Dushanbe? Mas como vou fazer isso? Isso é impossível! Eu NÃO TENHO VISTO para voltar para o Tajiquistão!". Ênfase no tom de súplica por empatia.

A questão era simples. Para chegar ao posto de fronteira onde eu me encontrava, eu e meus companheiros de viagem tivemos primeiro que passar pelo posto de fronteira tajique, onde carimbaram a saída no meu visto, que, então, deixou de ser válido. Depois disso, até chegar até o posto de fronteira quirguiz, tivemos que atravessar de carro um trecho de uns dez quilômetros de terra de ninguém, nem Quirguistão nem Tajiquistão, no meio das montanhas, na companhia apenas de vacas (que não sei de que nacionalidade eram). Aí, chegamos ao posto quirguiz. Ou seja, naquele momento, pelo que o militar me dizia. eu não poderia entrar no Quirguistão nem voltar para o Tajiquistão. Eu teria que ficar na terra de ninguém. Eu e as vaquinhas. Expliquei isso, em inglês, bem devagar.

Ele entendeu. E respondeu, em russo: "Isso não é um problema meu".

Cruzou os braços. Silêncio.

Após 10 segundos de silêncio, o jogo psicológico do sujeito estava me dominando, me fazendo ficar desesperado. Expliquei o outro detalhe que fazia aquela "solução" do militar ainda mais impraticável. Disse a ele, misturando russo e inglês: "Imagine que eu consiga entrar no Tajiquistão e ir para Dushanbe. Chegando em Dushanbe, o que vou fazer? Procurar a embaixada do meu país para tirar um novo passaporte, certo? Mas NÃO EXISTE embaixada do meu país em Dushanbe! A mais próxima é no Cazaquistão!"

Depois da explicação, segui para a última cartada, me humilhar, pedir "por favor, me deixe passar, desculpe pelo meu documento". Seus braços então se cruzaram, indicando o verdadeiro final da conversa. O guarda não quis mais escutar meus argumentos ou súplicas. Se levantou, abriu a porta, pediu para eu sair. E fui para o Sol.

Até então, não havia pensado na possibilidade de oferecer dinheiro a ele. Agora, do lado de fora, confuso, sem saber até onde o drama poderia chegar, pela primeira vez pensava em jogar a toalha - que eu poderia ter jogado na salinha, perguntando se havia "alguma taxa" que eu deveria pagar. Teria sido um problema de qualquer jeito, pois nem sabia falar a palavra "taxa" em russo. Um erro qualquer na escolha de palavras inclusive poderia piorar as coisas.

Não obstante, agora, os problemas de comunicação e ética eram irrelevantes. O guarda sequer queria falar comigo. Saí de sua salinha, saí da casa onde ela ficava, ao lado da cancela da fronteira. Eu suava. Não sabia o que fazer. Caminhei em direção a meus amigos, que estavam ao lado do carro, com as mochilas todas a seus pés, abertas, desmontadas, a pedido de outros "simpáticos" guardas de fronteira. Expliquei o caso a eles. Kim e Iker foram categóricos - sem mim, de lá, eles não sairiam. O que me deu algum ânimo e esperança.

Foi então que o nosso motorista, que até então tinha desaparecido em uma outra casa, ao lado da casa do manda-chuva que me aterrorizou, reapareceu. Veio falar comigo, perguntou o que tinha ocorrido. Expliquei da forma que consegui. Era meio óbvio de entender. E o motorista deu risada. "Deixa comigo." Pediu para eu esperar perto do carro e foi para a casa onde estava o mandarim com quem conversei. Desapareceu lá dentro por um bom tempo - meia hora ou mais. Permaneci apreensivo, conversando com meus companheiros, tentando não pensar no que estava acontecendo.

Surge novamente nosso motorista. Jovial. "Vamos", disse, olhando para o grupo todo, não só para mim. Todos entraram no carro e ele logo revelou - teve que pagar 45 somonis (cerca de US$ 5) ao sujeito. Além disso, o motorista recebeu um pedaço de papel com o número de telefone do comandante. "Este é o telefone de um amigo dele que trabalha transportando turistas de Osh (próxima parada da viagem) a Bishkek. Prometi que você ia ligar e combinar a viagem com ele quando chegasse a Osh", explicou. Agradeci efusivamente. Dobrei o papel com cuidado e o guardei no bolso.

Evidentemente, eu não iria ligar nem se minha vida dependesse disso. Em Osh, aliás, eu só teria uma prioridade - comprar uma boa cola para arrumar meu passaporte.


* * *

À nossa frente, colinas baixas e verdejantes, esparsamente pontuadas com neve, abrem-se para permitir a visão do azul intenso do grande lago Karakul, uma névoa leve revelando pela metade o panorama, e o todo criando uma imagem de beleza notável que de alguma maneira nos lembra das highlands da Escócia.
- Through Deserts and Oases of Central Asia, Ella Sykes e Percy Sykes, 1920

Horas antes do episódio na fronteira, tivemos um último e mágico momento no Pamir ao passar pela estrada ao lado do lago Karakul, perto do vilarejo de mesmo nome. O lago é vasto, com margens a perder de vista, e circundado por montanhas nevadas - inclusive, entre eles, o Pico Lênin dos tempos soviéticos, hoje conhecido como Pico Avicena. Na fronteira com o Quirguistão, esse o segundo ponto mais alto do Tajiquistão e do país vizinho (7.134 metros), só ficando atrás, no Tajiquistão, do Pico Comunismo (7.495 metros), mais a sudoeste, e no Quirguistão, do Pico Vitória (7.439 metros), bem mais para o norte.

O lago Karakul é azul, mas um azul com um tom diferente de todos os lagos que vi na vida. Um azul claro, cintilante, só um pouco mais escuro do que o azul do céu. Parece uma grande pedra preciosa, brilhando no Sol, calmo, sem que o vento enrugue sua superfície.

Calmo, celestial. Sugerindo uma pureza infinita (veja o vídeo abaixo).



Encontramos à beira do lago um pobre iaque solitário, deitado, mascando algum pedaço de arbusto. Um chifre a menos, provavelmente arrancado em alguma briga com algum macho.

Nunca me aproximei tanto de um animal da espécie. A três, dois metros da intimidadora besta, que sequer tomou conhecimento da minha presença. Olhava para o pico Lênin ou para a água azul, ou para os dois ao mesmo tempo. Sonhava em ser uma ave ou sonhava em ser um peixe. Hipnotizado pelo azul.

O azul puro - do céu sem nuvens e do lago - e o ar fresco. Um bem estar gigante tomou conta de nós e pulamos de empolgação. Passamos a tirar fotos, dezenas, muito mais do que nossa cota regulamentar. E fizemos vídeos. E respiramos fundo e fomos caminhar, andando até o vilarejo, até o iaque, até a beira da água, até aqueles outros viajantes que estavam caminhando para lá. Um casal europeu, eram alemães. Viajavam no sentido contrário de nós, vinham do Quirguistão. Queriam usar transporte público para chegar a Khorog. Avisamos que teriam muitas dificuldades. Falaram que acampariam à beira do lago, nesta beleza azul, e depois pensariam no que fazer.

Fome. No vilarejo encontramos um velhinho quirguiz muito hospitaleiro. Ele nos ofereceu, por um preço camarada, um laghman simplesmente horroroso, o pior que comi na vida. Era um macarrão cozido pelo menos uma hora além do que deveria. Uma massa sem gosto e com textura horrível que custou para descer pela garganta. Agradeci muito o chá preto, que tomei, e muito, para fazer descer tudo aquilo até meu estômago.

Quantas refeições ruins nos celestiais picos, lagos e rios do Pamir.

E quantos sonhos azuis. Calmos. E eternos.


* * *

Após passar dez dias entre algumas das montanhas mais remotas do mundo, enfrentando estradas péssimas, nos surpreendemos com uma alegria tola: sentir o carro a milhão em um asfalto liso como um tapete.

Que diferença fazem alguns quilômetros - rapidamente, o carro desceu para menos de dois mil metros de altitude. As casas deprimentes de Murghab dão lugar a outras bem acabadas, com tetos robustos, os Vs invertidos. As montanhas voltam a ter árvores em vez de apenas rochas e arbustos com cor de rocha. O ar é mais quente, o vento, prazeroso, nunca cortante. As pessoas parecem mais gordinhas. A noite cai e, lá pelas 21h, após curvas e curvas, chegamos a Osh. Estou de volta ao vale de Fergana, dessa vez do lado quirguiz.

Osh é uma cidade. Uma cidade de verdade, com trânsito, com confusão. Outra alegria tola.

Comemoramos nossa volta à civilização e o fim da grande aventura do Pamir. Fomos a um restaurante incrível - incrível simplesmente por ser um restaurante de verdade, incrível por ter opções de refrigerantes, um cardápio inteiro de escolhas possíveis para o jantar, e, talvez, o mais maravilhoso, cerveja. Um Beshbarmak, talvez o mais conhecido prato quirguiz e cazaque, foi a escolha evidente para mim, nunca foi melhor escolhido. Trata-se de carne de carneiro, cozida até se desfazer em fiapos, descansando sobre um ninho de laghman.

Brindes, sorrisos. Osh, viva Osh. E viva também, claro, esse mundo que vivemos intensamente, o Pamir, onde cada refeição horrível foi também tão maravilhosamente bem-vinda.

Osh, 5/10, 18h

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Wednesday, 7 March 2018

Nos Desertos, nas Montanhas (XXXVII): Murghab

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2/10/2012

Perto de Murghab encontramos o que pareciam ser miragens arquitetônicas. Na paisagem de alta montanha, não longe do rio que leva o mesmo nome da cidade, há pequenas edificações de barro, bem rústicas, que parecem minimesquitas.

Seguíamos com o carro quando passamos ao lado de duas, a uns 20 metros uma da outra. Perguntei para o motorista o que eram. "Maguila", disse. Obviamente, achei engraçado, dada a associação automática com o pugilista brasileiro ou com personagem da Hanna Barbera. Mas se tratava da palavra em russo para "túmulo".

Paramos o carro para vê-los por dentro. Estávamos longe da cidade, em um lugar com aclives suaves e montanhas próximas, vegetação rasteira, vento frio, nenhum assentamento por perto.

Explorando os pequenos mausoléus, me parecia que eu estava ao lado de algo de grande valor histórico, algo vetusto, com possíveis tesouros escondidos.

Segundo o motorista, os túmulos foram construídos por povos de séculos atrás. Os maiores têm uns 4 metros de altura. São inteiramente cobertos de barro por fora, enquanto que por dentro é possível ver os tijolos que são a base de sua estrutura. As construções têm um formato chamativo, com pórtico e cúpula, e dentro há aparentes nichos para colocar oferendas. "Khans eram enterrados em lugares como este", disse o motorista, se referindo não aos sucessores de Genghis, mas a senhores locais. "São muito antigos. Alguns são do século III. Neles estão enterrados só quirguizes". Isso explicaria a ausência dessas estruturas ao sul, onde vivem os pamiris ismailitas. Ainda que os "quirguizes", no sentido moderno, só tenham surgido durante a URSS (quando foi criada a República Socialista Soviética do Quirguistão, embrião do atual país), durante muito tempo esse era o termo usado para designar os povos nômades que ocupavam desde estas terras até as estepes bem mais para o norte, perto da Sibéria. Ou seja, tanto os antepassados dos atuais cazaques como os dos atuais quirguizes. E certamente foi com esse sentido que o motorista usou a palavra.

Dentro dos maguilas, para nossa decepção, não encontramos nada, a não ser barro e tijolos. Tudo vazio. Teriam essas tumbas um dia sido violadas e todos os seus tesouros, levados? Ou nunca tiveram riquezas? Não há nenhuma lápide, nada escrito indicando quem encontrou aqui seu último descanso. Será que os cadáveres estão ainda ali, sob a terra, sem nenhuma indicação a não ser a própria construção? Será que um dia inscrições ou estátuas adornaram as tumbas? Ao redor do mausoléu há vários buracos profundos. Me pergunto se esses buracos são de caçadores de tesouros que foram procurar algo de valioso... ou se foram cavados para guardar restos de pessoas que nunca vieram a ser enterradas.

Tudo isso tento esclarecer fazendo perguntas para nosso motorista. Ele pouco sabe responder.

Fica o mistério, embalado pelo vento frio soprando por entre as frestas no barro, criando melodias arcanas, tristes, solitárias.


* * *

Kim usou uma palavra boa em inglês para descrever a cidade de Murghab - bleak, algo como sem vida, sem graça nenhuma. Aliás, não usou uma vez só, usou três vezes. Concordei em cada ocasião. Especialmente nesta manhã, com um lindo Sol e céu azul, fatores que aquecem o coração de qualquer um, mas que nesta cidade parecem só confirmar a descrição do meu companheiro de viagem e a minha primeira impressão, da noite anterior.

Circulamos com nosso motorista, conhecedor de todos os cantos da cidade. Por onde passamos, vimos inúmeras casas de concreto sem telhado, como se fossem contêineres, com apenas um andar. Muitos postes de eletricidade (apesar da eletricidade intermitente), ruas sem asfaltar (com exceção da Rodovia do Pamir, que cruza a cidade) e um "mercado" bem diferente dos que vi até agora. Em vez da algazarra de vendedores e vendedoras com suas roupas coloridas, encontramos mercadores quietos, taciturnos, em contêineres de verdade (usados em vez de barracas) vendendo infinitos produtos chineses, na certa trazidos pelos caminhoneiros que atravessam a fronteira. Em alguns cantos, vejo carcaças de carros depenados, provavelmente desfeitos para obter peças de reposição para outros.

A cidade inteira parece uma obra em andamento, incompleta, ou feita de forma displicente, do jeito que deu para fazer, dado o isolamento, dada a falta de recursos.

Outra coisa chamativa, mais uma vez, é a ausência quase completa, aos meus olhos, de qualquer coisa tajique. Vejo alguns militares e frases em tajique em cartazes, um deles com o inevitável retrato do presidente Emomali Rakhmon. Todavia, o pouco que encontrei parecia mais um lembrete de que estamos na saída do mundo de Rakhmon, com um pé para fora, do que um sinal de que estamos, realmente, completamente dentro do Tajiquistão. Eu esperaria uma maior presença do estado tajique impondo sua dominância cultural para tornar esta região menos "diferente". Aqui todos parecem quirguizes, todos usam o ak kalpak. O dono do lugar onde passamos a noite, a dona do restaurante onde jantamos, vendedores no mercado, pessoas na rua.

Talvez justamente essa dominância étnica quirguiz em Murghab e outras cidades do leste do Pamir explique o descaso de Dushanbe com elas. O descaso pode ser interpretado com o medo do governo central em mexer em um vespeiro. Se impor aqui poderia significar (no caso da adoção de uma estratégia truculenta, algo previsível em se tratando de Rakhmon) tentar tornar orgulhosos quirguizes menos quirguizes. Ou tomar suas terras, ou doá-las para assentamentos de tajiques. Claro que isso poderia acabar mal. O descaso também pode ser interpretado como um desprezo, uma arrogância de Rakhmon: "Se eles não estão do meu lado, não vou ajudá-los". Ou como o resultado da estratégia de Rakhmon de priorizar recursos para sua base eleitoral, em Kulob ou na capital. No sul, nas margens do rio Panj, onde o estado tajique parece também ausente, a população tem o Aga Khan para ajudá-la. Aqui, não. Não tem nada. Imagino que muitos tenham saudades dos tempos soviéticos ou acalentem regularmente sonhos de revolta, com a paciência se esgotando com tanta falta de envolvimento do governo central. Essa raiva retroalimenta o descaso do governo, e surge uma bola de neve.

Mais um legado negativo dos mapas soviéticos, outro trauma eternamente varrido para debaixo do tapete, sem solução à vista.


* * *

Nosso sonho de passar uma noite em uma iurta foi adiado.

À tarde, paramos no escritório de uma agência local de turismo comunitário (mais um eco do Quirguistão - lembro de minha experiência com turismo comunitário em Tamchy). Decidimos perguntar se havia algum acampamento de iurtas ainda montado para passar a noite nos arredores da Murghab, nas lindas montanhas. Novamente, no escritório, todos quirguizes. Lá dentro, encontramos à venda diversos livros sobre artesanato quirguiz (tapetes, chapéus, bolsas); um visitante, um velhinho, com o ak kalpak, e duas funcionárias quirguizes muito simpáticas, uma delas com uma fluência incrível em inglês.

Ela nos explicou que os acampamentos com as iurtas são montados pelos seminômades quirguizes para lá passarem o verão e, como estávamos no final da estação, muitos já tinham voltado a suas casas para passar o inverno nas cidades. Ela também disse que achava improvável que nós encontrássemos qualquer acampamento de iurtas ainda de pé no próprio Quirguistão, para onde vamos. De fato, nos nossos passeios de carro nos campos próximos a Murghab, como quando fomos ver os maguilas, não vimos nenhuma iurta. Só dentro das cidades, colocadas em alguns terrenos - como, por exemplo, a usada pelo dono da hospedagem onde passamos a noite em Murghab, que aluga a própria casa para os turistas e dorme na iurta quando a casa está tomada.

Depois de visitar o centro de turismo comunitário, voltamos a explorar a região. Seguimos por uma estrada de terra que tomava o caminho de um sereno vale rumo oeste, por onde passa um rio verde, um verde límpido, quase surreal. Novamente, cruzamos com iaques, mas, desta vez, não à distância. Um rebanho inteiro cruzou a estrada, quase atropelou nosso carro.

Depois que os gigantes peludos se foram em direção ao rio, continuamos com o carro até um povoado e de lá pegamos outra estrada menor até um ponto em que essa estrada se estreitou de tal forma que não dava mais para seguir. Havia virado uma trilha à beira de um riacho que descia das montanhas em direção ao rio maior que vimos antes.

O motorista nos disse que, seguindo a trilha, que subia de forma leve até onde eu podia ver, havia uma antiga fonte termal onde dava para se tomar banho. "Só uma hora de caminhada", disse. Também até onde eu podia ver, a trilha logo se transformava em um desafio de pular de pedra em pedra.

A aventura não me atraiu e, pela segunda vez, tomei uma decisão à revelia do grupo. Eles seguiram para a suposta fonte (não sabia se o "uma hora" realmente era ou não uma estimativa realista do motorista, péssimo de estimativas, como já ficara provado anteriormente). Eu, sozinho, decidi seguir no sentido contrário, para baixo, à beira do riozinho até o povoado que passamos no caminho, tirando fotos da flora e parando para ver com mais calma a beleza ao redor, com tempo para gastar, tranquilo, sem conversa, sem pedras para se equilibrar.

À beira do regato, muitas flores e folhas já tinham secado e outras estavam secando, anunciando a chegada iminente do outono. Flores ainda coloridas ao lado de outras douradas e marrons, quebradiças de tão secas. Empolguei-me com as fotografias, explorando detalhes intrincados dos miniuniversos castigados pelo Sol, as pétalas agora condenadas, suas curvas e formas misteriosas. Em particular, me encantei com uma flor, com pétalas que mais pareciam agulhas de algodão. Leve, delicada, com formas misteriosas, diferente de tudo que já tinha visto no Brasil.

Cheguei à cidadezinha em meia hora. Encontrei uma madrassa pintada de branco, modesta, nenhuma arquitetura esplendorosa, nada mais que concreto no teto e nas paredes. Um lugar, para variar, perdido, flutuando no limbo, em um povoado onde não viviam mais que 40 almas, quase invisíveis. Só vi uma criança, brincando de pescar à beira do rio, e uns homens tentando arrumar um carro enguiçado. Quiçá a primeira leva de moradores a abandonar as iurtas de verão nas montanhas, voltando para cá para passar o inverno.

A madrassa parecia abandonada. Pela janela, tremendo com rajadas de vento, vi uma lousa com caracteres em árabe. De resto, sinais de que estava em obras: latas de tinta, pinceis. Nesta miséria, a comunidade se mobiliza para arrumar o que considera o seu bem mais precioso, uma escola.

Ao lado, o rio verde, que seguia para Murghab paralelamente à estrada que nos trouxe até aqui, e montanhas baixas se fazendo de moldura.

Tudo parado.

Novamente, imaginei como estes povoados, Murghab e Alichur, ficam durante o inverno, com um metro de neve pelas ruas. Como sobreviver? Como não morrer de tédio, de fome, de isolamento? Como não morrer de tristeza, engolidos pela escuridão e brancura?

A resposta óbvia é que todos aqui vivem para o verão, para os breves meses gloriosos de Sol e calor. E, mesmo nesses meses, a vida não está nas cidades ou povoados, está nas montanhas, nos rebanhos de iaques e nas iurtas onde vivem há séculos e séculos. Não nas cidades, que são uma invenção distante, estranhamente desconfortável neste universo.

No verão, esbaldam-se na beleza e na liberdade, para se recolherem numa hibernação espiritual durante todo o inverno. Acho muito difícil entender isso. Acho que nenhuma pessoa que não foi criada nesta cultura poderia entender. E, mesmo se entender, não poderia se adaptar.

Voltam meus companheiros de viagem. A fonte termal, aparentemente, não estava longe, e tomar banho nela foi divino. Estão os três com sorrisos deliciados nos rostos.

Chegamos de volta a Murghab no anoitecer. No hotel, macarrão. Minha saúde está ótima, estou inteiramente recuperado, finalmente, nesta minha última noite no Tajiquistão.

Osh, 4/10, 11h02

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Sunday, 4 March 2018

Nos Desertos, Nas Montanhas (XXXVI): Murghab

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1/10/2012

Me preparei mal para o Pamir.

Nos pés, tênis de corrida - o único calçado que eu trouxe nesta viagem. Neste momento, caminho na neve. À minha frente, prossegue a subida, uns 20 graus de aclive. O caminho é ou completamente branco ou sobre rochas descobertas, rochas às vezes do tamanho do meu pé, às vezes maiores, às vezes soltas, às vezes firmes, sempre tortas, sempre complicadas de pisar e ganhar equilíbrio.

O Sol é forte, no rosto. E o óculos funciona muito bem, escurece demais. Eu o fico tirando para ver melhor as pedras, mas não aguento muito tempo e tenho que colocá-lo de novo, e o processo se repete, e se repete, e se repete.

Estou derretendo de suor sob a jaqueta, usando dois casacos por baixo, enquanto sinto muito frio nas partes descobertas. Deveria parar e tirar um dos casacos, mas não quero atrasar mais o grupo.

As plantas estão todas congeladas neste palco a mais de 4.500 metros de altitude. Meus pés também estão encharcados de neve derretida. O pobre tênis foi feito para deixar o pé respirar e não para isolá-lo. Kim e Iker vão à frente de mim e, bem mais à frente deles, vai o nosso motorista-guia, gordinho e fumante, mas perfeitamente adaptado a este ambiente.

Paramos, ofegamos. Nosso guia garante: lá adiante, daqui a uns 500 metros, começa a subida final. E do outro lado, ainda totalmente invisível, na fronteira tajique-afegã, ele diz que iremos encontrar o lago Zorkul, apelidado de "Lago Vitória" pelos imperialistas britânicos do fim do século XIX, quando se divertiam no Grande Jogo no Pamir.

Não obstante, tudo leva a crer que não foram os britânicos os primeiros ocidentais a vê-lo. Seis séculos antes, Marco Polo teria passado por aqui. Provavelmente ninguém nunca conseguirá provar, mas os indícios geográficos colocam este lago em uma das descrições do grande diário, associando-o com o planalto:

E quanto (...) você cavalga três dias para o nordeste, sempre entre montanhas, você chega a tamanha altitude que dizem que é o lugar mais alto do mundo! E quando você chega a essa altura, você encontra um grande lago entre duas montanhas, e dele sai um lindo rio cruzando uma planície tomada pela melhor pastagem do mundo (...)
- The Travels of Marco Polo

Me atrai muito a ideia de vê-lo, compará-lo com a descrição histórica. Por isso, arrasto meus pés pelas pedras, afundo-os na neve.

Até aqui, andamos duas horas desde o ponto onde deixamos o carro, no planalto, quando já estávamos a uns 4.100 metros de altitude. Logo no início, a subida nos enganou. Ficamos pensando o tempo todo que ela ia acabar logo, naquela próxima montanha, naquela próxima colina. Parecia tão perto. Parece tão fácil! Que a verdade seja dita, até que a subida não é íngreme. Mas uma série de fatores tornam tudo progressivamente terrível. A neve é mais perversa inimiga - pise e reze para que, embaixo, não esteja escondido um buraco oculto, desses que afundam sua perna até o joelho. Tantas vezes isso me acontece.

E as rochas soltas, torcendo constantemente os pés. E o Sol no rosto, com o irritante óculos-não-óculos. E o tênis encharcado, criando lentamente bolhas por fricção. E os pulmões, que não enchem, não importa quão fundo se respire. E a sensação de estarmos perdidos, de que o motorista, como ocorreu nas altas montanhas perto de Jelondi, se enganou de rota no meio do nada, levando horas para se encontrar.

Paramos de novo. As montanhas são lindas, o céu, azul. Nos reclinamos nas pedras, relaxamos um pouco. São duas da tarde, aproximadamente. Ao redor, o cenário, como de costume, sem árvore alguma. Só com a neve-chantili, de um branco irreal. Acreditamos que estamos agora a 4.600 metros, mas é uma avaliação conservadora se considerarmos que o início do passeio foi a 4.100 metros (medidos no altímetro do carro) e estamos há tanto tempo caminhando. Talvez, então, 5.000 metros. Meu coração bate forte e rápido, mesmo relaxado. Parece estar repetindo o mantra de que sou um ser que vem das praias do Brasil. Que sou um ser que tem uma adaptação natural ao calor, à cerveja. Não a esta aventura. Isso passa rápido pela cabeça ao mesmo tempo em que converso com Iker e Kim. Tudo me parece tão, tão irreal. Irreal a ideia de uma pessoa como eu estar aqui, tão longe de tudo do que é familiar.

Pergunto novamente em russo ao motorista - quanto tempo ainda de caminhada até o lago? Diz que levaríamos pelo menos uma hora mais, isso com um bom ritmo (nas pedras e na neve). Insiste que tinha avisado que não seria tão perto assim. Fico em dúvida se ele falou mesmo isso. Realmente eu entendi algo bem diferente.

Conversamos entre nós, discutindo o que fazer. Explico que ou eu entendi errado o que o motorista disse em primeiro lugar, ou novamente ele mostrou ter uma ideia bem equivocada de suas próprias habilidades como guia. Explico que entendi que a jornada seria bem mais curta, em condições mais fáceis. Que entendi que teríamos que caminhar em uma estrada ou trilha, íngreme e difícil, mas que seria, sim, uma trilha, não uma caminhada por pedras soltas e neve escondendo buracos profundos. Assim, considerando tudo isso, apresento aos meus amigos meu voto, triste, mas veemente: sugeri encerrar mais cedo aquele rali de sofrimento. Disse a Iker e a Kim que, se não aceitassem seguir daquele ponto da caminhada de volta para o carro, os esperaria lá mesmo onde estávamos e que não ficaria chateado se eles continuassem sem mim até o lago. Mas os adverti que não me parecia uma boa ideia prosseguir.

Meus colegas ficaram divididos, mas, por fim, igualmente ressabiados com o guia, acabam concordando comigo, decidindo me acompanhar na volta.

Frustração.

A decida é mais rápida, apenas uma hora e meia de tropeços infinitos. Entramos na 4x4 e voltamos a enfrentar as rochas, areias e regatos, complemente fora de qualquer estrada, para chegar a nossa próxima parada, a cidade de Murghab.


* * *

O motorista está tenso. Pela terceira vez nesta viagem, a segunda vez no mesmo dia, tem que lutar pela nossa confiança.

Encontramos um motociclista com um passageiro. O motorista pede informações sobre como chegar à Rodovia do Pamir. Indicam uma direção. Parecem caubóis no deserto. Desaparecem sem se despedir, cavalgando em altas cilindradas pelo planalto.

Seguimos por essa direção que recomendaram. Lá longe, vemos uma casinha simples, no meio de uma planície de arbustos espinhosos e rasteiros. Uma casinha pintada de branco, teto de barro, no meio do nada, onde só perambulam iaques.

O carro para ao lado da porta. De dentro, sai uma solitária senhora, médio porte, dois casacos de lã grossos, cabeça coberta com seu véu branco, com seu solitário cão de pelos arrepiados, ambos meio atordoados pela visita de surpresa. O motorista a saúda e conversa com ela em quirguiz. Ela fala algo, algo mais e desaparece dentro da casinha. Volta com uma travessa de pão, iogurte e manteiga. Não há vacas por perto, só iaques, e estes são provavelmente a origem das delícias. Uma manteiga estranhamente leve, quase sem sal. Como de costume nesta região, ficamos comovidos com a hospitalidade de estranhos tão pobres e afastados de qualquer conforto.

O povo desta região do Pamir não parece, à primeira vista, vulnerável à morte. As preocupações nutricionais do Ocidente com o excesso de gordura na dieta, ou com a falta de vegetais, aqui parecem tão distantes quando um congestionamento ou um shopping center. As condições climáticas parecem ter reforçado essa resistência, ou, talvez justamente por causa das condições climáticas, uma dieta com muita gordura seja condição de sobrevivência. Há quase 100 anos, dois viajantes escreveram algumas reflexões sobre isso. Permanecem perfeitamente relevantes:

(...) Embora a saúde dos quirguiz seja, geralmente, excelente, eles na verdade morrem muito facilmente se adoecem, já que não há médicos no Pamir (...) é aparentemente um caso em que os mais fortes resistem. Pois eu nunca vi um povo mais resistente, homens e mulheres mais robustos do que os que eu encontrei durante nossa viagem. Eles vivem quase que inteiramente de leite (...)
- Through Deserts and Oases of Central Asia, Ella Sykes e Percy Sykes, 1920

Terminamos o pão com manteiga, agradecemos efusivamente, com alegria. E recebemos mais um sorriso da doce senhora solitária de véu branco, da casa branca, que vive no meio do nada onde perambulam iaques.

O carro segue perseguindo as indicações dela. Mais quirguizes. Encontramos um vilarejo. À volta, uma visão que não visitava meus olhos desde o início de minha viagem - um grupo numeroso de homens usando vistosos chapéu ak kalpak, símbolo da nação quirguiz, brancos, altos, com bordados pretos. Sorrio. O meu circulo está se fechando.

Novamente, o motorista para, conversa com um, que aponta para outro, que nos vende um pouco de gasolina. Todos agora falam apenas em quirguiz. Vejo uma escola. A fachada traz o "bem-vindo" em tajique e quirguiz. Todos neste vilarejo têm rosto quirguiz, como chineses, olhos bem puxados, uma aparência diferente dos pamires de Khorog ou os tajiques de Dushanbe, que se parecem mais com persas, com turcos. Aliás, na vila, não há nenhum sinal de pessoas com essas feições, nenhum sinal de Ismail Samani, nenhum retrato à vista do Aga Khan ou de Emomali Rakhmon.

Novamente, é o triste efeito das fronteiras soviéticas. Este território é 100% quirguiz, não tajique. É o mesmo que Bukhara, historicamente tajique e hoje dentro do território do Uzbequistão, e Khojand, uzbeque, mas hoje nas mãos de tajiques. Esses são povos que viviam juntos, que não deveriam ter fronteiras. São todos moradores do maravilhoso Turquestão.

Mas a realidade é que estamos numa vila quirguiz no Tajiquistão. Isso já gerou nesta região, como não poderia deixar de ser, tensão entre os quirguizes e as autoridades tajiques. Contudo, diferentemente do que acontece mais ao norte nos enclaves uzbeques e tajiques no Quirguistão perto de Isfara, aqui a distância da divisa internacional e os transtornos que a fronteira causa (por exemplo, o fato de a comunidade não ter de enfrentar verificação de documentos toda vez que atravessar a divisa para visitar parentes que moram bem perto) faz com que tudo aqui seja mais quieto e, claro, desconhecido no exterior.


* * *

Poucas horas depois, com a ajuda da asfaltada rodovia do Pamir e já no lusco-fusco, chegamos a Murghab, a mais importante cidade do nordeste do Tajiquistão. Ela aparece tímida, surgem primeiro poucas casas à esquerda do carro, após um lindo rio que cruzamos, também chamado Murghab. As águas borboleteiam por uma planície, curvas suaves. À direita, à distância, sei que atrás das montanhas se esconde a China - é primeira vez na viagem que ela está perto a ponto de me fazer imaginar como seria. Lá estão outras cidades lendárias da rota da seda que não conheço, Kashgar, Tashkurgan, Yarkand, Hotan - tão perto, mas tão separadas pelas muralhas colossais de pedra, pelas fronteiras erradas.

Novamente, em Murghab, um domínio absoluto de quirguizes. Descobrimos que nosso motorista é desta cidade (é quirguiz e daí vem sua fluência na língua). Ele nos leva diretamente ao restaurante de sua família. Pouco vejo da cidade.

Ao chegar, mais do que já vimos em Alichur. Há um padrão de filme de terror nos restaurantes desta região. Mas este me assustou ainda mais do que o da noite passada. Novamente, não havia luz; as poucas mesas seguravam cadeiras de ponta-cabeça. A porta estava parcialmente aberta para entrar alguma claridade, mas, onde sentamos, com dificuldade conseguíamos enxergar minhas mãos. Uma menina de uns 14 anos nos trás um lampião a gás. Seu rosto assume feições monstruosas com as sombras.

"Que romântico", graceja Kim, se referindo à luz trêmula em nossa mesa. Fico esperando que tragam o champagne.

A mesa está coberta por uma capa de plástico pegajosa e, embaixo dela, há uma toalha de pano com padrões florais. A sala é pequena. Nossa mesa, uma das três, fica encostada em uma das paredes, e o teto é baixo. Do lado oposto do salão há um balcão que leva à cozinha e, lá, uma mulher preparando algo na quase completa escuridão.

Nos trazem manti, uma espécie de ravioli grande, típico de toda a região. São cinco deles para cada um de nós, todos encharcados de óleo. Iker pergunta à menina onde pode lavar as mãos. Ela pede um segundo e volta não com uma bacia com água ou para nos dizer onde está o lavabo, mas para nos dar um pano sujo e molhado. Meu colega espanhol lembra que tinha um pequeno frasco de álcool no bolso e compartilha conosco.

Enfim, atacamos o prato. O manti desce com dificuldade, apesar de todo o lubrificante de óleo e da água quente que tomo. Engulo apenas quatro, apesar de estar morrendo de fome. A carne dentro do manti é bem gordurosa, sei que durante horas vou sentir o gosto dela em minha boca, não importa o quanto capriche ao escovar os dentes. Rezo para não ter um revés digestivo, agora que estou me recuperando do episódio em Ishkashim.

Saímos de lá meia hora depois. A cidade inteira está às escuras - aparentemente, a eletricidade é intermitente por aqui. Do que consigo ver, novamente tenho uma sensação de Velho Oeste. Uma cidade na fronteira, nos limites, uma cidade de gente resiliente. Varrida pela poeira, com casas simples, feias, de concreto, sem nenhum glamour ou beleza. Em muitos casos, as casas são simples contêineres, provavelmente trazidos pelos caminhoneiros chineses. Eles têm um ponto de travessia de fronteira 80 km a leste da daqui e certamente devem usar Murghab como parada logística.

Um lugar desolado, frio, feio, deprimente - e não estamos no inverno, quando esta cidade deve ser a mais perfeita representação da tristeza. Apenas um lugar para os seminômades quirguizes passarem os meses gelados a espera do momento em que podem ir armar suas iurtas nas gloriosas montanhas, como faziam seus ancestrais.

Murghab, 2/10, 21h46

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Wednesday, 28 February 2018

Nos Desertos, nas Montanhas (XXXV): Alichur

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29-30/9/2012

Dezesseis bois e vacas caminham vagarosamente na planície bege. No horizonte, o Sol já se pôs, e sobe uma Lua quase cheia. O céu perto da Lua está em tons de rosa, vermelho, azul.

A Lua enfeitiça.

É um quadro de um mestre da pintura. As vacas, lentas, meus olhos, preguiçosos. O ar limpo demais, tênue demais.

Perto do lago Bulunkul, a pouca distância das vacas, mais beleza. O lago, a seus quase 3.700 metros de altitude, é de um azul profundo. Perto dele acompanhei a despedida do Sol dourado.

Ao redor dele, caminhei 30 minutos. Me agarrando a uma disposição que me surpreende após os acontecimentos das últimas horas, temendo por minha saúde. Parando e levantando os olhos, forçando-os a trabalhar, para apreciar o Teto do Mundo.

Logo após escrever meu diário ontem, fui dormir. Me sentia ótimo, havia jantado e estava com sono. Estranhamente, no momento em que encostei a cabeça no travesseiro, minha noite praticamente acabou. Meus olhos se abriram com o peso em minha barriga. A comida, sopa com pedaços de carne e pão, ficou parada no meu estômago. O sono não veio, o mal-estar cresceu e se transformou em tosse, febre, calafrios, tremores, náusea. A noite inteira foi um suplício de ir e voltar ao banheiro até que só bile me saía pela boca, e, ao voltar ao quarto, lutar para ficar quieto na cama e não tossir para não prejudicar ainda mais o sono dos meus colegas de viagem.

A manhã veio com um Sol lindo que me encontrou após um total de talvez uma hora de sono. Muito cansaço, dor no abdômen, dor de cabeça. E tudo sem entender o que poderia ter ocorrido, já que todos comeram no dia anterior o mesmo que eu.

Preocupado, Iker, que anteontem era o "doente" do grupo, descobre onde há um médico em Ishkashim. E vamos. Uma pequena clínica em uma casa cercada de grama amarelecida.

Lá dentro, dois enfermeiras, nenhum médico. As paredes brancas me parecem tão escuras. Uma enfermeira me deita em uma cama, passa a mão em meu abdômen. Senti um alívio. Diz que é simplesmente algo que eu comi e que não fez bem, que não há nada para fazer. Simplesmente o sorriso e as palavras de consolo já foram um tremendo tratamento. Agradeci, me agarrando à promessa de que, no dia seguinte, eu já estaria melhor.


* * *

Nos planos de hoje, deixar Ishkashim - mas antes, fazer uma breve visita ao mercado afegão. Minha primeira tentativa de vencer a letargia.

Ishkashim existe em dois países. Há a Ishkashim tajique e, do outro lado da fronteira, a sua irmã afegã, com o mesmo nome. Entre elas, o rio Panj, e no meio do rio, uma ilha. Todos os sábados, as cidades-gêmeas se unem em um dos eventos mais surreais da Ásia Central. É quando se realiza um mercado com vendedores dos dois lados. Ele acontece em uma terra de ninguém na ilha, um limbo que não é controlado inteiramente nem pelo Afeganistão nem pelo Tajiquistão. Visitá-lo é uma oportunidade de ouro para ver mais de perto o mundo proibido do outro lado do Panj, o mundo que vem nos acompanhando pela janela do nosso carro desde que chegamos ao Pamir.

Imperdível esse mercado, pensei. E fui me arrastando para o veículo com os olhos semifechados, tonto, enfrentando o Sol fortíssimo.

Nosso motorista foi se aproximando e, da estrada, enxergamos a ilha, que havíamos visto rapidamente ontem, quando estávamos chegando à cidade. Antes, estava vazia, havia apenas um galpão deserto. Agora, já de longe se vê a multidão colorida.

Estacionamos. Para entrar na ilha, há uma ponte. Na entrada dela, guardas tajiques pedem nossos passaportes. Não pedem para ver vistos. Apenas avisam que vão ficar com os documentos. Colocam eles no bolso e nos autorizam a cruzar a ponte. Fiquei pensando na possibilidade de eles desaparecerem de repente e venderem nossos passaportes para qualquer larápio falsificador de documentos. E em como, se isso acontecesse, me tornaria um prisioneiro desta terra.

Uma gota de suor corre pela minha testa. Que tremendo mal-estar. As pernas com dificuldade a cada passo, a barriga pesada com não sei o quê.

Em alguns segundos, estou em um lugar completamente diferente. Um universo de homens de turbantes e chapéus pakol, olhares cansados e barbas escuras. A pele do rosto, quando não oculta pelos pelos, novamente escura e enrugada, curtida como couro, a aparência típica dos habitantes do coração do Pamir.

Os afegãos andam de lá para cá entre as mercadorias estendidas em toalhas no chão. Vão contando maços de dinheiro. Entre eles, não vejo nenhuma mulher vestindo burca (aliás, entre eles, não há nenhuma mulher). Além dos afegãos, há outros turistas como nós, há homens pamiris com o chapéu típico (circular e raso, verde ou vermelho, cobrindo apenas o alto da cabeça), mulheres pamiris com seus véus de seda coloridos cobrindo parte do cabelo e soldados tajiques, todos com o uniforme sujo e gasto. Ouço muita conversa exaltada que me parece ser em dari e tajique, alguns vendedores arranhando o inglês, e ninguém, em absoluto, falando uma palavra de russo.

À venda: panelas, tapetes e roupas, utensílios de plástico, provavelmente tudo vindo da China. Alimentos, vegetais, grãos. Pakols. Tiro meu celular do bolso e, a esmo, me ponho a tirar fotos, sem mirar direito meus alvos, sem mesmo verificar se o foco está bem. Meu cérebro está em festa, quer absorver cada milissegundo desta experiência. Meu corpo é totalmente o oposto, quer uma cama. Minhas pernas querem desabar, meus olhos pedem trégua ao Sol. Vou para o galpão, a parte coberta do mercado.

Encontrado, encostado num muro, um velhinho. Turbante branco, barba branca, sentado, olhando para baixo, fazendo nós em uma linha. À frente dele, uma pilha de roupas à venda. Encurralado, triste, esperando que a morte seque de vez seu corpo e o devolva ao pó do ar.

Mais dez minutos ou menos de caminhada pelo mercado e chego ao meu limite. O Sol está forte demais. Fico em um canto, encostado, esperando meus amigos terminarem o passeio. Não consigo abrir os olhos. Estou triste, sofrendo com o meu corpo.

Das 13h, quando deixamos Ishkashim, até umas 16h, permaneci no banco de passageiros da frente do carro, ao lado do motorista, sem falar uma palavra, sem abrir os olhos, meio dormindo, meio delirando, vendo memórias do Brasil e da Inglaterra, não vendo lugares interessantíssimos. Com medo de não melhorar logo e perder muito mais.

Nosso próximo hotel foi novamente perto de um balneário termal. Subimos por uma estrada para o meio das montanhas e, ao chegar, estava repentinamente bem mais frio - vi um termômetro no hotel marcando seis graus. Me enfiei na cama enquanto meus amigos saíram para explorar ruínas de um forte não longe dali.

Acordei depois de mais ou menos uma hora, um pouco melhor. Engoli sem nenhuma vontade uns pedaços de pão amanhecido com mel, meia maçã e cinco goles de água. Daí fui enfrentar o frio - encarar a caminhada de volta pela estrada até as ruínas onde esperava ver meus amigos.

Cobri o pescoço e as orelhas o melhor que pude. Continuava com uma sensação de fraqueza, mas tinha muita vontade de ver onde eu estava. Não poderia mais ficar parado.

Atravessei o portão do pequeno hotel com passos lentos. A estrada era de uma terra cinza, e tudo estava nublado, com ventania. Tudo parecia inteiramente cinza, com tons infinitos da mesma cor.

A caminhada rumo ao forte foi com o vento contrário a mim. A poeira castigava meu rosto, chicoteando, dava para sentir cada grão arranhando minha pele em minha testa, em meus lábios, em meu nariz. Puxei o cachecol para proteger o rosto. Puxei junto um pouco da camisa e deixei descoberta parte da minha barriga. Um arrepio. Sentia a poeira entrando em mim, tomando os meus pulmões. Um sofrimento a cada passo e a ruína nunca parecia se aproximar. 20 minutos, meia hora de cinza. Tropeços no cascalho do caminho (veja o vídeo abaixo).



Por fim, chego. A fortificação tinha uma localização perfeita. Em um penhasco altíssimo, com uma vista de tirar o fôlego das montanhas do lado afegão. Chama-se fortaleza de Yamshun. Nenhuma ideia de quão velha, certamente de séculos e século, dado o seu atual estado. Sentei-me à beira da estrada para esperar a meus amigos, os quais já conseguia ver, ziguezagueando por entre os muros deformados pelos elementos, com suas câmeras frenéticas. Sentado, senti mais que a poeira. Senti a altitude. É a sensação de respirar, respirar de novo, respirar fundo e seguidamente, e não sentir que se está respirando o suficiente.

Pouco depois, Iker e Kim voltaram, sorrindo, felizes de me ver, felizes pelo prêmio da fortificação, da exploração, do isolamento do Pamir. A volta ao hotel foi muito mais fácil. Eu ainda estava me sentido mal. Mas o vento estava a favor.

Mais tarde, meus colegas de viagem me convenceram a tomar um banho na fonte termal de Bibi Fatima, a uma distância curta pela estrada. A fonte é conhecida em toda a região pela lenda associada a ela. Fica dentro de uma caverna, e se toma banho em um poço natural em uma pequena sala criada pelos caprichos da natureza. É um útero natural, dizem. E por isso a fonte atrai mulheres interessadas em ter filhos. Acreditam que, ao se banharem na câmara, serão abençoadas pela fertilidade.

A impressão que se tem ao entrar na caverna é de mistério. Demora para se ver a água. Há uma escada descendo entre as pedras, no topo da qual encontramos um senhor coletando o dinheiro da entrada. A escada nos conduz a uma casinha construída lá dentro da própria caverna, com uma sala onde os visitantes podem se trocar. Então já é possível ouvir o barulho de cachoeira. Logo se desce mais um pouco e, finalmente, na penumbra, se encontra o tal útero natural: água quente caindo e embaixo, dentro da água, espaço para umas 15 pessoas ao mesmo tempo.

A água tem uma temperatura de uns 35 graus, extremamente agradável, bem diferente de Garm Chasma, que era quente demais. Entrar naquela banheira foi um prazer incrível. Imediatamente, como que por milagre, me senti totalmente recuperado. Pena que não pudemos ficar mais que dez minutos, pois a fonte estava fechando para a noite.

Na volta para o hotel, minha letargia foi voltando aos poucos. Dormi das 20h às 5h. Das 5h às 7h, fiquei me revirando na cama com uma dor de cabeça insuportável.

Água quente e pão no café da manhã. Minha barriga parou de doer, porém a dor de cabeça continuava. Tomei meu antibiótico para a infecção renal, o que o médico me receitou em Dushanbe, e um paracetamol. Eram 8h30 quando entramos no carro e começamos a descer a montanha, gradualmente saindo das nuvens e entrando no ensolarado vale do Panj.


* * *

Neste trecho, o rio passa por mudanças. Em vez de único, volumoso, com ilhotas e correntezas, ele cria curvas e vai serpenteando por uma planície de terra. Se abre em vários canais rasos que se separam e se unem. Com sua nova personalidade, o rio colabora para aumentar a poeira do ar. O pó de suas margens cobre todo o carro.

No vilarejo de Yamg encontramos um numeroso grupo de turistas. Eram espanhóis, todos aposentados. Seguiam com uma guia de uns 40 anos, quirguiz com espanhol fluente, ao mesmo tempo testemunha de um bom legado soviético (o bom acesso à educação que lhe permitiu aprender o espanhol) e das oportunidades do capitalismo. Claramente orgulhosa do que se tornou, Sofia me disse ter aprendido espanhol ainda na adolescência quando fez um período de intercâmbio em Cuba. Hoje, ela tem uma empresa de turismo em Bishkek, trabalha como guia para turistas endinheirados do mundo hispânico.

Encontramos a excursão espanhola em um lindo pequeno museu, uma pérola, mantido em memória a um iluminado mestre sufi ismailita que morou no século XIX neste canto remoto, Mubarak-i-Wakhani (1843-1903).

O sábio se tornou conhecido principalmente por seus poemas. Escrevia em língua persa como os grandes Saadi ou Hafez, assim mantendo uma longa tradição e trazendo-a para as margens do Panj. Não obstante, não era apenas um poeta. Wakhani era uma espécie de gênio no estilo dos gênios renascentistas, uma espécie de Leonardo da Vinci, um autêntico polímata. É celebrado também por ter criado um tipo de papel, por construir instrumentos musicais e por desenvolver uma espécie de calendário solar usando pedras colocadas em uma montanha próxima, as quais ele observava à distância a partir de outra colocada perto de sua casa, onde fica o museu.

O lugar, claramente reconstruído e redecorado, é, primeiramente, uma celebração da arquitetura pamir. Uma casa com um pórtico de madeira com colunas trabalhadas, esculpidas com doçura. Pinturas coloridas e abstratas decoram a fachada em azul e amarelo. O interior do museu tem a claraboia familiar, com seus quadrados concêntricos, deixando entrar a luz perfeita, e seus pilares e palcos. Tudo decorado com capricho, cores, padrões geométricos e madeiras com caracteres árabes e outros motivos. Do lado de fora, sobre o muro que cerca a casa, chifres - novamente o misterioso símbolo que vimos no "templo do bode" perto de Ishkashim.

Os instrumentos musicais estão em uma sala e eram usados por Wakhani para mostrar sua devoção e adorar a Deus, se aproximando do divino, como buscam todos os sufis. O administrador do hotel - um senhor de uns 50 anos, tataraneto de Wakhani - tocou dois dos instrumentos, um deles lembrando um alaúde de dois braços e muitas cordas. Trata-se de uma variação do rubab, considerado o instrumento nacional do Afeganistão, mas sem dúvida os dois braços o tornam especialmente exótico. Produz um som enigmático, grave, que evoca solene reflexão.

O mesmo sentido sufi aparece nos poemas de Wakhani: veneração, a busca pela aproximação ao divino. Wakhani teria escrito durante sua vida cerca de 60 mil versos. Eles reforçam os conceitos do ismailismo e enfatizam a tolerância com os outros. Talvez seja essa postura que o tenha tornado tão celebrado, enaltecendo uma postura que pode ter ajudado a salvar todos os ismailitas pamiris das sucessivas ondas de invasões de muçulmanos de outros ramos do Islã que os enxergavam como hereges: buscando não rechaçá-los com violência, mas apresentando a eles uma mensagem de bondade e sabedoria que deve estar no coração de todo muçulmano. Como diz Wakhani em um de seus manuscritos:

O significado da infidelidade e do Islã é este:
Um é escuridão, o outro, iluminação.
Tens o dom da visão para enxergar as falhas dos outros,
Mas o olho de seu coração é cego a tuas próprias falhas.
Você não deve, ó Mubarak, fazer o mal aos outros,
Mas ser capaz de matar seu próprio mal primeiro!

- Tarjamat al-Bayan ("Clareza de Sentido") em The Ismaili-Sufi Sage of Pamir, Mubarak-i-Wakhani, and the Exoteric Tradition of the Pamiri Muslims, Abdulmamad Iloliev


* * *

Adeus ao Panj - perto de mais um vilarejo, Zong, chegamos ao nascimento do rio, quando ele surge da junção de dois menores, o Wakhan (que segue pelo meio do Corredor de Wakhan, dentro do Afeganistão) e o Pamir, que a partir daqui marca a fronteira tajique-afegã. Estamos agora entrando no "Teto do Mundo", o planalto do leste do Pamir, onde o cenário é dominado por uma vasta área plana com mais de 3.500 metros, cercadas de montanhas ainda mais altas e lagos belíssimos.

Seguimos pela estrada à beira do rio Pamir, até que ela faz uma curva e finalmente se afasta do rio e da fronteira, rumo ao Planalto. Nessa transição, conheceremos a divisão étnica do Pamir, abandonando os povos ismailitas das margens do Panj e do Corredor de Wakhan e encontrando as comunidades de quirguizes que há séculos ocupam as terras altas, mais para o norte. Não seguiremos até a ponta do Corredor de Wakhan tajique - embora pudéssemos continuar mais um pouco por regiões ainda mais remotas e inacessíveis, ainda mais mágicas, até o fim da estrada. E então, ou caminhando, ou com cavalos ou iaques, seguir pelo nada até a fronteira chinesa.

Um dia, quem sabe. Por ora, seguimos para o norte.

Um dos maiores lagos da região do planalto é o Bulunkul. Após nos despedirmos do rio Pamir, a estrada sinuosa de terra nos levou a ele. E ao chegar, tive a impressão de que o tempo parou.

O azul escuro do corpo d'água acompanha o horizonte e as montanhas por 180 graus. O Sol das quatro e meia da tarde se choca contra ele, mas os raios de luz são completamente absorvidos, não há nenhum reflexo. Nem sequer vejo irregularidades na superfície da água que pudessem denunciar o vento, lento, fraco, ameaçando desaparecer.

Paramos o carro e decidimos ver o Bulunkul de perto. Iker e Kim somem atrás de uma colina à beira do lago e, de repente, no meu campo de visão não há uma alma viva. Nenhuma casa, nenhuma iurta, nenhum inseto, nenhum pássaro, nenhum iaque, nenhum camelo, nenhum carro. Tanto, tanto espaço. Um ar que não traz absolutamente nenhum som, tudo está absolutamente parado. Tanto, tanto espaço aqui e, nas grandes cidades que se tornam cada vez maiores e mais comuns, cada vez menos. Lembro-me brevemente de São Paulo na hora do rush, sete da noite no congestionamento infinito e o barulho dos motoboys na janela. Dou uma breve risada para abandonar esses pensamentos. Em um piscar de olhos, abandono qualquer pensamento. E também paro, e me torno vazio.

Após anoitecer no lago, encontramos um vilarejo não muito longe. É onde tentamos achar um restaurante e uma hospedagem.

Eis a vila de Alichur: um conjunto de casas simples, feitas de concreto, longamente separadas uma das outras pela poeira do planalto, circundada por colinas baixas. Um clima de velho oeste americano, de estar em uma região em que os habitantes são todos corajosos pioneiros, teimosos colonos em uma terra absolutamente inóspita. A desolação aumentou ao encontrarmos o vilarejo sem luz elétrica, enfrentando um apagão.

Passamos por três estabelecimentos que serviam comida (chamá-los de restaurante talvez seja muito - eram mais casas de família que tinham refeições). Apenas o terceiro estava aberto. Um frio incômodo, com um vento a soprar e parar constantemente, sensação próxima de zero grau. E estamos no fim do verão.

Ao entrarmos no "restaurante", apenas a luz do pós-anoitecer distante entra pela porta. Logo um gerador é ligado e algumas lâmpadas passam a iluminar nossos rostos. Quase congelado, peço simplesmente um copo de água quente (chá provavelmente me tiraria o sono depois). Em seguida, me trazem um espantosamente bom laghman, o talharim rústico comum em toda a Ásia Central. A massa esquentou minha alma.

Depois os donos do lugar nos conduziram a um quarto logo ao lado do salão onde comemos. Algo simples: tapetes no chão, edredons empilhados num canto, sem camas. Um forno-bujão a lenha já queimando, logo ao lado da porta, esquentando todo o ambiente.

Quase tudo ótimo. O lado ruim, é claro, era o banheiro. Como em quase todos os lugares em que ficamos no Pamir, ele ficava do lado de fora. Para chegar a ele, neste caso tínhamos que sair do quarto (e do calor), dar cinco passos em um corredor escuro e abrir a porta para o lado de fora, frio, gelado, congelante. E à vista, a uns 15 metros de distância, no meio do terreno do vento, iluminada só pela Lua, uma pequena cabine de madeira velha, com uma portinhola sem tranca. Dentro dela, sem teto, um buraco no chão.

Na verdade, a Lua dava à cabine um quê de poético ou mágico - algo como a sensação de que entrar nela conduziria a uma realidade paralela, completamente diferente à depressão de Alichur. Como se a cabine fosse um portal para outro lugar, mais aprazível.

Contudo, foi difícil me ater à poesia enfrentando os quilômetros entre meus edredons e o buraco no chão às duas da manhã, de pijama, ainda convalescente de uma infecção renal e do misterioso sobressalto digestivo de Ishkashim.

Murghab, 2/10, 10h31

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Sunday, 25 February 2018

Nos Desertos, nas Montanhas (XXXIV): Ishkashim

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28/9/2012

Deitamos à sombra numa cama de madeira, ao ar livre, eu, meus companheiros de viagem e nosso motorista. Ao nosso redor, um pequeno paraíso. Mais um, como o de Lutfollah em Shakhrisabz, como tantos outros. A Ásia Central é uma sucessão de pequenos paraísos secretos.

A sombra é de macieiras completamente carregadas, com frutos tão vermelhos que pareciam ter sidos pintados à mão. Nosso anfitrião preparou bem o nosso cantinho. Cobriu a cama com cobertores e edredons macios, encomendou o horizonte aberto, o Sol amistoso, a vista para um pico nevado quilômetros à frente, além do vale e da plantação de batatas. Na plantação, logo embaixo de onde deitamos, uma mulher com seu lenço colorido na cabeça labuta, sua profusamente, cava com força o chão duro. Mais perto de nossa cama, vejo vários sacos de pano surrados com pelo menos dez quilos de batatas.

"Temos que nos preparar agora para o inverno", diz nosso anfitrião, um policial que trabalha em Dushanbe e está de folga, visitando familiares. Em seu olhar, algo de culpa, culpa talvez de ter que ser tão duro em seu trabalho no dia a dia, duro com os servos do ditador na capital. E, ao mesmo tempo, algo de doçura, a doçura que aflora com naturalidade ao reencontrar este paraíso, o sítio que agora compartilha conosco.

Bigode bonachão, sorriso permanente. Disse que só visitava sua família no Pamir uma vez por ano. Tivemos muita sorte de encontrá-lo na saída de Garm Chasma, pedindo carona. Nós aceitamos fazer um pequeno desvio e levá-lo de lá até o sítio, onde mora de forma permanente um de seus irmão. A propriedade fica perto da estrada principal, a que segue à beira do rio Panj, já quase chegando ao nosso destino de hoje, Ishkashim. Como é tradição por aqui, como pagamento pela carona, ele ofereceu sua hospitalidade. Aceitamos, curiosos.

A hospitalidade no Pamir é lendária.

Antes que a comida chegasse à cama - ele insistiu que almoçássemos com ele -, o policial bonachão nos levou para conhecer a propriedade. Reforçou que o paraíso era igualmente dele e de seu irmão. Falador, detalhou seu planos para o futuro. "Aqui, nesta área do terreno, quero construir mais uma casa, mas essa nova, só para relaxar." Contudo, ressaltou que não tem planos de voltar de vez para o Pamir. "Minha mulher, meus filhos estão todos em Dushanbe. Minha vida é lá." Nisso, sorri com nostalgia. "Mas, quando me aposentar, em dois anos, vou vir mais vezes para cá." Senti seu coração dividido. Se tivesse a liberdade da juventude, poderia seguir seu coração.

Nos levou para o interior das casas da propriedade, onde moram, além do irmão, os filhos do irmão e suas esposas, a extensa família toda dividindo o mesmo vasto terreno. Em uma das casas, na parte alta, encontramos uma sala coberta com edredons coloridos com cores absolutamente berrantes, lindas, com muito vermelho vivo, exalando um calor que deve ser um consolo nos meses de frio. Que vontade de deitar e rolar nesse macio colorido e fazer bagunça, como um filhotinho de cachorro.

Na casa principal, numa parte inferior do terreno, um exemplo da arquitetura interna típica pamir. A sala tem um palco, ou seja, dois níveis. O mais baixo, quadrado e com uma ligação com a cozinha, guarda um sofá. Ao redor desse quadrado, um segundo nível, mais alto, tem carpetes onde as pessoas se sentam para comer. No centro da sala, logo acima do sofá, a fonte de luz natural: uma claraboia singular. Toda casa por aqui parece ter uma claraboia assim. São quatro quadrados concêntricos - um grande, dentro um menor, dentro outro menor e por fim um último, que dá acesso à luz exterior. Os quadrados se interpõe com os seus vértices coincidindo com o ponto médio de cada lado do quadrado maior anterior, criando assim uma mandala de triângulos retos. Explicam-me que os quatro quadrados representam os elementos - terra, água, ar e fogo.

Nas paredes, um grande calendário islâmico, fotos da família, uma foto do Aga Khan e sua esposa. Na estante, o detalhe mais interessante - um pequeno busto de Lênin. Perguntei ao bonachão por que ainda tinha aquilo, 20 anos depois do fim do sonho. Abriu um sorriso largo. "Lênin é nosso amigo", afirmou. "Lênin, Stálin, Marx e Engels são como quatro irmãos para nós." Perguntei se ele achava que nos tempos da URSS ele e sua família viviam melhor que agora. "Eram tempos diferentes. Era bom, como agora também é bom. Agora podemos viajar, conhecer outros países, mas trabalhamos muito também."

O irmão, morador da casa principal, logo apareceu para tomar vodka conosco. Me falou com grande orgulho do que, disse, foi um dos maiores momentos de sua vida. "Sou professor de russo. E, em 1980, o governo me deu uma passagem para ir a Moscou, ver a Olimpíada. Naquela época, os trabalhadores mais esforçados recebiam recompensas. Fui a Moscou só para passear."

A conversa é interrompida pelo bonachão, que nos chama para testemunhar um ritual de milênios - a degola da cabra que será usada para fazer nosso almoço. Um sacrifício especialmente para a ocasião, para alimentar os visitantes. Me desculpei por preferir não assistir o espetáculo de sangue. Optei por ficar na sala, conversando, tirando fotos da decoração.

Hora depois, estamos de volta à cama no jardim, agora tomada por todo tipo de delícia - maçãs, frutas secas, salgadinhos industrializados, suco, vinho, vodka, cerveja, refrigerante, kumiz, geleia, manteiga, queijo, pão (muito, muito pão), enfim, tudo o que eles tinham em casa. Não demora muito e chega o prato principal - batatas e cebolas, cebolinha e carne em cubos, tudo junto, cozido, um grande ensopado. A carne é a mesma que estava pouco antes berrando no terreno. Nunca antes isso ficara na minha cabeça, mas desta vez, não saía. Mesmo enquanto mordia com fome a carne, dura, mas muito saborosa.

Mais uma hora se passou e começamos a insistir que precisávamos seguir viagem. Após pelo menos dez tentativas de partir - às quais o anfitrião respondia sempre com pedidos de mais brindes com chá, kumiz, cerveja e vodka -, finalmente conseguimos convencê-lo a nos deixar ir. Mas, antes, as últimas fotos: desta vez, reunimos a numerosa família do bonachão na sala de estar, sob o olhar do pequeno amigo Lênin. Todos, incluindo até as sapecas crianças, que surgiram sei lá de onde, estavam escondidas até então.

Mais fotos de nós com os irmãos e as macieiras carregadas. Fotos de mim juntamente com o bonachão e Iker.

Sem foto, agarro uma maçã para a viagem.

Na despedida derradeira e definitiva, quase beijei o rosto do meu anfitrião. Deveria ter beijado.


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Nos arredores de Ishkashim há um pequeno e misterioso santuário.

Perguntamos a agricultores locais que passavam pela estrada onde ele ficava (estava indicado em nosso livro-guia) e um deles apontou o lugar, mais adiante. Paramos o carro e fomos a pé. Em um muro à beira do caminho, protegido por árvores, encontramos uma porta de madeira. Logo acima dela, alguém havia colocado vários chifres de bodes selvagens ou carneiros-de-Marco-Polo. Os chifres, como uma coroa. O que significa isto?

A porta estava aberta. Entramos.

Atrás da porta, encontramos um pátio e uma pequena edificação, uma casinha, com um portal. Um portal de madeira, com colunas sustentando o teto avançado do pequeno templo, colunas todas esculpidas em madeira.

Nenhuma inscrição, nenhuma placa. Em cima do portal, uma cabeça inteira de carneiro-de-Marco-Polo, uma cabeça escurecida, parecia mumificada.

Sua superfície escura, os olhos brancos, provavelmente pedras, lhe davam um ar soturno e sugeriam perigo a quem se atrevesse a atravessar o portal. Algo como o Egito antigo. A imagem de um deus-bode protegendo a tumba do faraó. Eu, Howard Carter.

Atravessando o portal do "templo do bode", por fim, encontrei uma segunda porta de madeira. Logo acima da porta, o retrato de um homem barbado. Novamente a porta estava aberta, apenas encostada. Entrei.

Encontro uma câmara pequena, talvez três metros quadrados de área. No teto de madeira, a claraboia típica do Pamir, os quadrados, um dentro do outro. Uma janela em uma parede. No chão, um estranho cubo de concreto, branco, com altura até cerca de minha cintura. Em cima dele, meias-esferas de pedra enterradas nos quatro vértices do cubo, duas grossas fendas na pedra para colocar velas ou incenso e, no meio, mais chifres de bode, empilhados de forma desordenada.

Apesar da associação ocidental imediata de chifres com Satã, não há nenhum demônio associado a este pequeno santuário. Reza a tradição que, neste local, neste cubo, estaria sepultado o primeiro Imã dos xiitas, Ali. Trata-se de uma lenda pouco conhecida entre as inúmeras lendas sobre o local de enterro do Imã. A mais conhecida diz que seu corpo está em Najaf, no Iraque. Há os que digam que está em Mazar-i-Sharif, no Afeganistão, perto da fronteira uzbeque, não muito longe daqui.

Mas poderia Ali estar, na verdade, sepultado na longínqua Ishkashim? Estariam os milhares de xiitas que fazem peregrinações a Najaf sendo enganados? Difícil vê-los fazendo a mesma peregrinação, que fazem hoje ao Iraque, a este canto do isolado Pamir, para expressar sua dor.

O local, em realidade, não parece em nada islâmico. Não há inscrições, por exemplo. O único sinal de Ali é o seu retrato (o do homem barbado, que vi em cima da segunda porta). Tudo é muito simples. Mas talvez fosse justamente isso, e não a reverência em Najaf, que um homem santo como Ali iria preferir.

O uso da cabeça de bode e dos chifres liga este pequeno santuário a ancestrais tradições da cultura local, muito anteriores à chegada do Islã. Fés que envolvem a adoração da natureza. Há os que digam que os chifres são para a proteção contra o mal, como carrancas. Outros, que é para atrair saúde (dado o vigor do animal). Associar estes símbolos a Ali é a manifestação clara do sincretismo centro-asiático, de como o Islã, ao chegar tarde a esta região, encontrou já desenvolvido todo um simbolismo e se adaptou a ele.

E, ainda assim, este santuário é sim islâmico, um representante de um Islã natural, o que se vê refletido nas tradições e na cultura dos fieis. Lembro de minha visita aos mazars de Sayram, no Cazaquistão, e as conversas com Rustem.

Com medo de perturbar o sono dos carneiros decapitados, tiramos nossas fotos em silêncio. Fizemos questão de verificar se as portas estavam bem fechadas ao sair. Não trancadas. Esperando o próximo visitante com seu mistério acolhedor.


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Ao lado do rio Panj e sob a guarda dos picos nevados e imponentes, uma fortaleza com 24 séculos de idade ainda resiste.

A fortaleza de Khaakha data dos tempos do império kuchano - o mesmo responsável pelo Buda deitado do museu em Dushanbe -, do século 3 depois de Cristo. Construída sobre uma elevação natural, ainda apresenta torres e muralhas impressionantemente preservadas em se tratando de algo tão velho. Evidente que devem ter sido reconstruídas e reformadas posteriormente.

Historiadores acreditam que a fortaleza certa vez foi ocupada por um obscuro grupo de guerreiros zoroastristas conhecido por se vestir inteiramente de negro e que atuavam a serviço de um líder local.

Lindo e imenso. Perdi-me no labirinto de pedras sem nenhuma inscrição, nenhum guarda ou supervisor, como em Sauran. Fiz uma longa caminhada nos altos e baixos da construção, altos e baixos ausentes nas cidades perdidas da Rota da Seda que visitei no deserto cazaque. Em cada parada para recuperar o fôlego, o ar frio castigava meu nariz e minha a boca. Na minha frente, o rio Panj, cinzento, no seu caminho para as montanhas nevadas no horizonte (veja o vídeo abaixo).



Seguindo uma trilha mal marcada nas pedras e na argila, cheguei finalmente à água do rio. Molhei minha mão e meu pé. Puro degelo marcando a fronteira tajique-afegã. Na outra margem, tão perto, quiçá 30 metros, só algumas braçadas, o país proibido, o país do perigo constante. Parei mais uma vez para olhá-lo. Sem vida, sem homens ou animais. Só vejo o movimento das corredeiras na sua fronteira, depois, morte. Um dia irei visitá-lo, descobrir sua vida.

Por ora, com a mão molhada, saio para reencontrar meus amigos e fazer mais fotos. Já os vejo na estrada. Ao lado deles, passa um pastor com cabras. São seis da tarde, a luz é incrível, uma luz dourada, intensa. As cores da paisagem parecem todas mais fortes.

Saudamos o pastor com sua boina e seu cajado. Saudamos seu sorriso, seu convite para tomar chá em sua casinha. O Sol em seus olhos quase fechados pelo brilho. O Sol em suas rugas, em todo seu rosto.

Ishkashim, 28/9, 21h30

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