Thursday, 16 March 2023

Novas Fronteiras (XII) - Karmana, Uzbequistão



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14/8/2018

Hoje foi um dia desafiador, mas não como eu esperava.

Adeus, Samarkand. Pegamos, eu e as senhoras portuguesas, um ônibus intermunicipal juntos. Elas, para Bukhara. Eu, para Navoi, uma cidade grande no caminho, onde teria minha segunda experiência de visitar uma cidade na Ásia Central sem ter absolutamente nenhuma referência sobre ela em meu livro-guia de viagem. Nada, nenhum parágrafo.

Eu sabia, há anos, que Navoi tinha coisas interessantes. Por exemplo: um mausoléu islâmico de grande importância, do século XI, sobrevivente de Gengis Khan. Mas só saber algo sobre a cidade que estaria visitando não me salvaria de ficar, talvez, em um hotel ainda pior do que o de minha visita a Isfara, no Tajiquistão, em 2012. Foi naquela vez que eu também não tinha nenhuma informação sobre a cidade em meu guia. Acabei dormindo em Isfara em um lugar tão horroroso que desenvolvi um infecção que me levaria a urinar sangue quando estava chegando, alguns dias depois, a Dushanbe. Estava um pouco nervoso com a possibilidade de, em Navoi, acabar passando a noite em um pulgueiro apodrecido novamente.

Pensando nisso, procurei, antes de vir para a Ásia desta vez, me preparar bem melhor do que me preparei em 2012 para a experiência desagradável em Isfara. Imprimi mapas da Navoi. Pesquisei um roteiro de passeios, vi onde ir, que locais visitar, em qual ordem. Separei algumas opções de possíveis hotéis, marquei o local onde eles ficavam no mapa. Mas algumas dúvidas perduravam. Onde, exatamente, o ônibus vindo de Samarkand iria me deixar? Mesmo olhando com lupa fontes de informação na internet encontrei informações desencontradas. Poderia ser na periferia da cidade, como ocorreu em Samarkand quando cheguei de Termez, ou em algum outro lugar distante de qualquer ponto de referência, longe dos locais mais conhecidos. Como, exatamente, eu me deslocaria dentro da cidade, como chegaria ao hotel, como chegaria aos locais que queria visitar?

Essas dúvidas me embriagavam como álcool barato, e o efeito da bebedeira eu senti quando saí do ônibus e coloquei nas costas a mochila à beira de uma avenida. Eu sabia, isso sim já era previsto, que estava desembarcando em Karmana, cidade na mesma mancha urbana de Navoi (ou quiçá melhor defini-la como a "velha Navoi", localizada ao norte do centro da cidade "nova"). O efeito da bebedeira era medo. E empolgação. A empolgação de ter uma aventura de exploração de verdade. Ainda à beira da avenida, saquei a bússola, o mapa e me pus a procurar referências para tentar descobrir, exatamente, onde em Karmana o ônibus me entregou.

Karmana teria surgido durante as invasões árabes na região, no século VIII, e uma prova disso seria seu nome. Diferentemente da esmagadora maioria das cidades do Uzbequistão, "Karmana" não teria raízes no sogdiano, ou no persa, ou nos dialetos túrquicos, estes últimos a raíz dos idiomas de todos os países da região com exceção do Tajiquistão. Diz a crença local que o nome veio do árabe e seria um elogio dos invasores à fertilidade das terras que encontraram por aqui, banhadas pelo rio Zerafshan. Tão prodigiosas eram as terras que fizeram os árabes se lembrarem de um local igualmente fértil onde haviam estado, a Armênia. Daí Ka Arminia, que quer dizer "como a Armênia". Com o tempo, Karmana ganharia importância por ser um ponto estratégico de parada das caravanas da Rota da Seda vindas de Samarkand e a caminho da não tão distante Bukhara ou vice-versa. Estalagens de caravanas prosperaram por aqui, testemunhas da riqueza dos moradores que exploravam o comércio de longa distância. A longa decadência da Rota da Seda se faria sentir especialmente a partir do século XVIII. Karmana passaria a integrar o Emirado de Bukhara, que seria um protetorado russo a partir do século XIX, sendo incorportado à URSS posteriormente. Navoi, a cidade maior, moderna e mais conhecida, foi uma invenção soviética, passando a existir apenas em 1958 e recebendo seu nome em homenagem a Alisher Navoi, poeta do século XV celebrado como um dos heróis nacionais no Uzbequistão.

Era meio-dia quando desembarquei. O sol estava forte e, no ônibus, sem ar condicionado, eu havia sentido calor, claro. No entanto, as janelas estavam escancaradas, cobertas pelas cortinas pelo lado interno, e no caminho inteiro o vento inflava como balões aqueles panos, que por sua vez amparavam as cabeças dos sentados ao lado como travesseiros de ar. O vento da estrada esfriava o interior, tornando a temperatura mais agradável. Com a bússola e o mapa na mão, atravessando avenidas de um lado para outro em busca de referências e pedindo ajuda para me localizar às pessoas nas ruas, eu logo perceberia que o vento da estrada havia sido um anjo da guarda inestimável na jornada desde Samarkand. As primeiras gotas começaram a se formar na minha testa quando concluí que teria que andar dois quilômetros, "apenas dois quilômetros", até um dos hotéis que havia cogitado usar como base, o mais próximo de onde eu estava e bem perto dos locais de interesse. Um alívio: esperava demorar mais para me localizar no mapa, mas foi uma questão de cinco minutos, que ótimo, era um imenso problema a menos. Bastava caminhar. "Apenas dois quilômetros, descendo esta avenida. Não há subidas, é uma reta, basta seguir, e o prédio do hotel vai aparecer do lado esquerdo da rua. É fácil", disse a voz em minha cabeça. Guardei o mapa em um bolso da calça, a bússola, no outro. Apertei o cinto da mochila cargueira, ajeitei o óculos escuro e o chapéu.

A caminhada com a mochila de 15 kg foi como um passeio no inferno. O calor seguramente chegava perto dos 50 graus. Não havia nenhum vento, apenas o criado pelos carros passando em velocidade pela avenida. Apesar de haver árvores pela calçada, a sombra estava quase perfeitamente na vertical em todas, pouco alívio cobria a calçada. Não havia pessoas na rua. As que vi em suas casas estavam muito bem protegidas dentro das sombras de seus pátios de entrada, dentro de seus portões, dentro de suas salas. Minha passagem levantava olhares curiosos — evidentemente pela minha aparência, um mochileiro branquelo de óculos e chapéu estilo Indiana Jones, mas também, certamente, pela minha loucura de fazer esforço físico em condições mas quais tal esforço é claramente um risco à saúde.

Dez minutos se passaram e eu estava inteiramente encharcado. Especialmente desconfortáveis estavam minhas pernas, dentro de uma calça feita de um tecido sintético perfeito para resistir à sujeira, a um pouco de frio, vento, espinhos, mas certamente não calor excessivo. Eu sentia gotas se acumulando nos pelos de meu peito como se eles fossem árvores pingantes durante um dilúvio na Amazônia. Sentia essas gotas virando rios que se precipitavam em direção a minha barriga, se acumulando na represa do cinto da mochila. Pela testa, pelas têmporas, mais riachos e corredeiras. O calor havia me transformado em uma floresta equatorial ambulante. Aos quinze minutos de caminhada, parei, arranquei a mochila, abracei uma árvore e tomei, em um único gole, um litro de água do meu cantil número um. O número dois já estava com água pela metade.

Recoloquei a mochila após cinco minutos. As alças dela já estavam bem lavadas e marcadas na minha camiseta. Concluí que provavelmente eu teria que jogar a camiseta fora, que tais manchas não iriam sair nunca mais. Nos passos cansados, ofuscado pela claridade mesmo de óculos escuro, eu me perguntava se alguma vez em minha vida havia sentido tanto calor. Sim. Dentro de uma sauna.

Fiquei meia hora enfrentando aquele alto-forno. Quando estava prestes a novamente quase desmaiar em outra sombra, ou talvez desabar no meio da rua, o Hotel Registon apareceu, como previsto, à minha frente. Um prédio de dois andares com um jeito de que um dia teve uma arquitetura de vanguarda, mas que, hoje, é datada. Certamente erguido nos tempos soviéticos, desgastado por dentro e por fora, mas vivo, com vários hóspedes perambulando pela recepção. Que bênção o saguão de entrada, escuro, bem protegido do sol insano por vidros com películas escuras, com a temperatura regulada pelo abençoado ar condicionado. Adentrar aquela sombra fresca me deu um alívio tão grande que a espera de dez minutos para falar com a única recepcionista (uma senhora de meia-idade que quando cheguei atendia um hóspede que parecia estar com muito sono) não me fez em nada reclamar. Fiquei distraído admirando o painel gigante instalado na parede atrás da recepcionista. Um mural vertical, curioso, mostrando a genealogia do dono do hotel: nomes e retratos dos tataravós, dos trisavós, dos bisavós, dos avós, dos pais, um exaustivo memorial. Aparentemente algum ancestral do empresário era alguém muito famoso, e ele fazia questão que todos soubessem disso.

A recepcionista confirmou que tinha quartos disponíveis e várias opções. A mais barata, que fiz questão de ver, era um quarto bem grande onde havia camas para umas dez pessoas, sem beliches. Algumas das pessoas lá dentro pareciam estar dormindo profundamente (se fosse a Espanha, imaginaria que seria a siesta da tarde). Descartei ocupar uma daquelas camas pois fiquei com medo de deixar minha mochila por lá enquanto estivesse passeando. Pedi para ver uma opção com mais privacidade e, por um pouco mais na diária, a senhora me ofereceu um quarto com cinco camas e banheiro, mas que estava vazio. Limpo, sem cheiros. Tinha uma janela que dava vista para um pátio interno coberto, sem iluminação, atrás de uma cortina cor-de-rosa. Por isso, era uma caverna; apagar a luz deixava o lugar totalmente mergulhado na escuridão. Mostrava-se bem judiado pelo tempo: os móveis de madeira eram gastos, as cobertas de cetim, cor burdô, desfiavam pelas bordas. O banheiro havia passado por reformas mal feitas, com partes da parede de cimento sem a cobertura de azulejos. O vaso sanitário e o chuveiro eram claramente relíquias dos tempos das URSS. O papel de parede bege, com flores, novamente remetia aos anos 80 ou 70. Mas nada disso me importava, já que o ar condicionado estava funcionando e muito bem; pelo quarto, circulava uma brisa fresca e massageante. Como não ficar com o quarto? Ainda mais porque o preço do pernoite, com café da manhã incluído, era uma piada, muito mais baixo do que pagaria por um lugar semelhante em Samarkand. Eis a bênção de visitar um local fora do circuito turístico.

Tudo resolvido, tranquei-me no quarto, torcendo para que nenhum outro hóspede aparecesse para ocupar uma das quatro camas além da minha (era, afinal, um quarto para dividir com outros hóspedes, se surgisse mais algum interessado). Tirei a roupa, tomei um banho e, lutando contra a tentação de tirar uma soneca, voltei às ruas, pelo menos desta vez sem a mochila cargueira. Passarei pouco tempo na cidade, pensei. Não tinha nem um minuto a perder.

O calor, que horror. Parecia pior. O vento agora surgia em alguns momentos, mas era uma lufada que parecia realmente ter saído de uma fornalha. Imediatamente tive que colocar os óculos escuros (para evitar o ar fervente nos olhos, não apenas a luz). Fui devagar, bem devagar, procurando árvores pelas ruas, caminhando pelas sombras sempre que possível. Nem dez minutos se passaram e na minha testa, novamente, voltaram os meandros de um rio tropical, cada vez mais caudaloso. Na minha testa e pouco depois nas minhas axilas, nas minhas costas.

Desci uma avenida rumo ao que o mapa indicava ser o mercado da cidade e, do lado direito, tive uma visão impressionante. Um prédio islâmico. Tinha a familiar cobertura do salão principal, com a cúpula azul da cor do céu, como em Bukhara e Samarkand, mas com um formato que eu nunca havia visto antes.

Tratava-se da khanaka Kasim Sheikh. A khanaka é um prédio islâmico destinado a abrigar as cerimônias dos fiéis de uma ordem sufi, geralmente construída junto a um mausoléu de um santo sufi e com frequência incluindo alojamentos para o pernoite de peregrinos. Em Termez, já havia visitado uma, a Kokildor Ota. O impressionante conjunto arquitetônico da Kasim Sheikh tem suas origens no século XVI como o local de descanso final do xeque Kasim que lhe dá nome, reverenciado sábio e líder sufi. A khanaka foi erguida com o investimento do então emir de Bukhara, mostrando como o poder do monarca era fundamentado no apoio que oferecia às irmandades sufis e no que em troca recebia delas. Em 1910, o conjunto foi ampliado, e hoje a khanaka não mais apenas um reduto de sufis; funciona como uma importante mesquita, aberta a todos. Talvez pelo seu uso corrente e pela sua popularidade, além do potencial de atrair turistas, o conjunto foi todo restaurado e encontra-se resplandecente, primoroso.

A khanaka é um cubo com três fachadas, cada qual com seus portais de linhas retas, primorosos, feitos de tijolos, como nas demais gloriosas construções ancestrais uzbeques. Nada, porém, chama mais a atenção do que o cilindro sob a cúpula azulada. Estreito, alto, azul escuro, inteiramente trabalhado com azulejos com padrões florais separados por linhas formando estrelas de 16 lados, mandalas sublimes, obras de cálculo de precisão e arte, além de dizeres em árabe. Um pescoço místico, celestial, que desafia a imaginação: como sequer começar a descrever tamanha beleza? O interior da cúpula também é sublime, mas, neste caso, a cor dominante é branca: mais estrelas, mais linhas, outra mandala para aproximar os fiéis do criador. O centro do círculo, sugando os olhos, arrastando a alma, fazendo o tempo irrelevante para o observador. Ao redor desse salão principal, como no mausoléu de Mazor-i-Sharif no Tajiquistão, salas separadas, ou claustros, para oração ou reverência. Deviam ser locais onde, antigamente, os sufis faziam seus retiros místicos.

Que estonteante a khanaka de Karmana. Como este local não é mais conhecido fora do Uzbequistão?

Voltei à rua. Comprei imediatamente uma garrafa de 1,5 litro de água e sequei metade dela em um único gole. A rua estava praticamente deserta, as pessoas continuavam escondidas do sol. O sol, aliás, estava bem à minha frente. Um clarão tão forte que eu quase não conseguia abrir os olhos mesmo com óculos escuros e chapéu.

Passei ao lado da entrada do mercado de Karmana, que está bem vazio também.

De repente, me senti desnorteado. Confuso. Para onde estava indo, mesmo? Tontura. Não havia uma única árvore. Só via o sol me engolindo. Não cai no chão, não desmaei. Mas entrei numa espécie de transe.

Estava apenas andando, quase sem consciência, rumo àquela luz imensa.

Vi uma rua surgindo à esquerda. Nada de especial. Decidi, sem conseguir pensar, entrar nela. Estava sem nada dentro da cabeça. Havia me tornado apenas uma fonte de suor ambulante.

Para onde eu estava indo?

Do outro lado da rua, consegui ver algo fazendo sombra. Era algo claramente muito antigo. Um mausoléu. É para lá que eu estava indo. Atravessei a rua. Corri para a construção, um cubo com fachada com detalhes em terracota. Havia uma entrada e, no interior, uma tumba e bancos para se sentar ao redor dela, além de sombra, SOMBRA. Ninguém lá dentro. Me sentei em um dos bancos. Suspirei profundamente. Joguei o chapéu e os óculos de lado, joguei a cabeça para trás, retirei com as mãos o que pude do suor que estava na minha testa, todo meu rosto estava molhado.

SOMBRA.

Fiquei dois minutos paralisado, ainda sem nenhum pensamento. Então, voltei a me encontrar.

Eu estava na construção mais antiga de Karmana. E era bem familiar. Lembrava muito algumas construções kharakanidas que visitei no Quirguistão e no Cazaquistão anos atrás. Como essas, o mausoléu era inteiramente de tijolos e terracota, sem azulejos. Lembrava também mais uma construção ainda mais velha, o mausoléu de Ismail Samani, em Bukhara, que visitei em 2003 e 2012. Eram, afinal, praticamente contemporâneos. O mausoléu de Samani e este, o mausoléu Mir Said Bakhron, datam respectivamente dos séculos X e XI, ou seja, do período de domínio da dinastia persa samanida e de início do período kharakanida.

A raridade de encontrar um "irmão" do mausoléu de Samani, um dos monumentos mais importantes de Bukhara, já era motivo suficiente para fazer a viagem até Karmana. O mais interessante e incomum deste mausoléu, o mais surpreendente, é o que existe em sua fachada. Prédios islâmicos geralmente têm alguma inscrição em árabe na entrada. Na Ásia Central, essa inscrição frequentemente aparece, gravada ou pintada, em azulejos colocados no portal de entrada das mesquitas e madrassas. No caso do mausoléu de Ismail Samani, entretanto, a construção é tão antiga que a técnica de azulejos esmaltados, usada para compor os dizeres em árabe, ainda não havia se tornado comum na Ásia Central, o que ocorreria apenas a partir do período timurida (século XIV-XV). A fachada do mausoléu de Samani em Bukhara é sem nada escrito. Tem apenas um caleidoscópio de padrões geométricos feito com tijolos, terracota. Semelhante técnica se vê no mausoléu de Aisha Bibi, no sul do Cazaquistão, também construído antes que os azulejos esmaltados estivessem disseminados, mas construído depois (séculos XI-XII) que o mausoléu de Samani. Diferentemente desses monumentos, o mausoléu Mir Said Bakhron tem inscrições em árabe na fachada, mas as palavras são escritas em alto-relevo com pedaços de tijolos. Em nenhum outro que visitei vi isso. As inscrições estão em um arco sobre a porta. A construção, então, ganha uma importância fundamental no estudo da evolução das artes decorativas islâmicas na Ásia Central. Ela representa um elo perdido entre as construções sem inscrição alguma, apenas elementos em terracota e tijolos, como o mausoléu de Ismail Samani, e as construções com as requintadas citações do Corão na fachada, lindas, feitas com tijolos esmaltados, que viriam depois.

Fiquei uma boa meia hora relaxando dentro do mausoléu. Talvez por causa do calor torturante no seu exterior, a construção causou em mim uma sensação de conforto materno. De útero. Estava protegido do mundo, de tudo no mundo que pode machucar, queimar, magoar.

Quando finalmente me animei a sair, percebi que havia chegado ao fim da minha tolerância com aquele sol. Peguei um táxi. Pedi ao motorista para me levasse ao hotel, mas ele se perdeu. E esse imprevisto me levou para fora de Karmana e para dentro de Navoi, a cidade moderna. Largas avenidas, muitas árvores. Totalmente diferente de Karmana. Me lembrou Tashkent, um assentamento seguindo as regras soviéticas. Se não fosse Karmana, não sei onde estaria sua alma uzbeque profunda.

No hotel, dormi por uma hora, até o anoitecer. Ao sair, a luz mágica do sol se enfraquecendo, dourada, me empurrou para mais uma visita à khanaka Kasim Sheikh. Sentei em um degrau com vista para a entrada principal e seu fluxo de fiéis vindo para as rezas do fim de dia. Saquei da mochila meu diário e escrevi até a escuridão não me deixar mais enxergar.

Uma noite clara, nítida, com vento fresco. Jantei algo num restaurante do lado de fora do hotel e subi para o quarto umas oito da noite. A expectativa era de que novamente fosse desmaiar e só acordar de manhã bem cedo (assim evitando o sol implacável). Mas não foi isso que aconteceu. Logo percebi que tive sorte com o quarto, mas essa sorte veio acompanhada de um golpe de azar maior que claramente anulava essa boa fortuna e ameaçava estragar toda a minha noite de sono.



A sorte: ninguém mais apareceu para dividir o cômodo comigo. Fiquei sozinho, eu e cinco camas, o banheiro e a TV. Seria uma noite de privacidade total, sem a possibilidade de encontrar um falador voraz com insônia, ou um sujeito sem higiene e com muitos odores corporais, ou um roncador poderoso, ou quem sabe gatuno de olho na minha mochila.

O azar: da janela voltada para o pátio interno vinha um ruído forte. No andar de baixo ficava um salão de festas, e por coincidência naquela mesma noite o salão estava ocupado por uma animada festa de casamento para dezenas de convidados. Música e dança. Algazarra e crianças chorando. Pratos colidindo com talheres. O ruído passava pela minha janela e em alguns momentos as notas mais graves da música faziam tremer as paredes, ecoavam em meu peito, eram marteladas sônicas. Com a luz apagada, estava cansado, tonto de sono e com plugs de ouvido, mas mesmo assim não conseguia dormir.

Liguei a TV em um canal aleatório em russo e assisti um filme de crime que não fazia nenhum sentido.

Karmana, 7h, 15/8

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Novas Fronteiras é um diário de uma viagem feita em 2018 a três países da antiga URSS na Ásia Central — Uzbequistão, Tajiquistão e Turcomenistão. Novos capítulos são publicados neste blog duas vezes por semana, às quintas-feiras e domingos, e seguem ordem cronológica. Novas Fronteiras é parte de um projeto maior que inclui outros diários de viagem pela Ásia Central publicados neste blog pelo autor, que tem viajado regularmente à região desde 2001. O objetivo do projeto é apresentar um panorama detalhado e em profundidade das sociedades dos países da antiga URSS na Ásia Central, em um processo de busca e exploração em que o autor executa uma viagem simultânea, de autodescoberta e entendimento do universo centro-asiático como espelho de sua própria existência.

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Sunday, 12 March 2023

Novas Fronteiras (XI) - Samarkand, Uzbequistão



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13/8/2018

No fim da tarde, no coração de uma das áreas mais turísticas de Samarkand, um numeroso grupo de uzbeques subia vagarosamente uma escada luxuosa de pedra. Nenhuma pessoa parecia ser um turista. Não havia loiros alemães e suecos, não havia dezenas de chineses com óculos liderados por um guia com uma bandeirinha. Alguns, sim, pareciam vir de outras partes do próprio Uzbequistão, do Vale de Fergana, com as mulheres trajando seus lindos vestidos de seda, seus lenços cobrindo a cabeça. Subiam a escada com lerdeza reverente.

No alto dos degraus, ao lado de uma mesquita histórica, um cubo perfeito. Um mausoléu. Mármore branco. Com as paredes trabalhadas com motivos geométricos e escrita árabe com reverências a Alá. As quatro fachadas com detalhes geométricos azulados. E, no teto, uma cúpula-cebola branca.

O sol está radiante.

Passo a passo, a fila alcançava a entrada do cubo e chegava minha vez de olhar. As pessoas à minha frente focavam os olhos no que enxergavam lá dentro: um paralelepípedo de mármore maciço, como uma cama estreita, novamente esculpido com o árabe sagrado. Após o olhar fixo, cada pessoa unia as próprias mãos, lado a lado, com as palmas abertas e viradas para cima, depois as encostavam nos seus peitos. Nesse processo, mexiam os lábios sem emitir qualquer som. E depois traziam para si uma bênção imaginária, lavando o rosto com ambas as mãos, esfregando rapidamente o invisível sobre seus olhos fechados, as testas suadas, os lábios secos.

O andar lento depois as levava para trás do cubo. Ali foi construído um corredor coberto. O teto é lindo, seu interior é um bordado de madeira com detalhes coloridos, concêntricos, hipnóticos. As colunas sustentando o teto, de madeira, foram também trabalhadas pacientemente, cada centímetro é uma obra de arte em alto-relevo. Sob o teto havia bancos para os fieis se sentarem. Se acomodavam, lado a lado. Um mulá acompanhava a chegada de todos e, quando já havia um número razoável sentado, usou um sistema de alto-falantes para entoar uma prece. Todos os presentes colocaram novamente as mãos juntas, com as palmas viradas para o céu, e rezaram.

Tudo diz e repete que, aqui, está enterrado um santo muito querido. Mas quem?

Não é um homem abençoado dos séculos IX ou XII. Não é um descendente do Profeta. Trata-se do primeiro presidente do Uzbequistão independente, Islam Karimov, que morreu em 2016. Um temido líder que não poupava esforços para manter o controle absoluto sobre a população do país. Um líder responsabilizado por um massacre (na cidade de Andijan) em 2005 com dezenas de mortos. Um líder acusado de fechar os olhos para a tortura de seus críticos, para o trabalho forçado e o trabalho infantil na lavoura de algodão, para o desastre ambiental no Mar de Aral. Um líder que reprimia como criminosos os mais devotos ao Islã, que foi considerado um dos mais violentos do mundo, que isolou o país de seus vizinhos.

Tantas críticas, tantos defeitos. E, hoje, é um santo.

De fato, os sinais de que há um culto à memória de Karimov não estão presentes apenas neste mausoléu. Eu já havia visto, na praça ao lado do Registan, uma estátua do ex-presidente. Naquele caso, me pareceu previsível — afinal, Karimov era de Samarkand e sua importância para o país é inegável. Estátuas são erguidas para homens assim em suas cidades natais, homenagens póstumas são esperadas. Mas a adoração em seu mausoléu me espantou. É diferente, embora tenha semelhanças, com o que ocorreu com Lênin, que até hoje tem seu mausoléu em Moscou. Aqui, existe esse elemento muçulmano muito forte. Claramente, isso me pareceu um sinal de que um aceitação do grande legado negativo de Karimov, um ajuste de contas com esse passado infame, não apenas um reconhecimento de sua influência positiva (manter o país unido e estável após o fim da URSS, criando o Uzbequistão independente, por exemplo), ainda não está ocorrendo no país. Realmente surreal: nas vezes em que estive aqui com ele ainda vivo, o que mais senti em relação a Karimov e seu regime era medo. E, agora, esse temível santo é alvo de orações, de pedidos de bênçãos.

Como brasileiro me sinto especialmente intrigado pelo que vejo. Não consigo me imaginar reverenciando como um santo um atual ou ex-presidente. As mortes de Tancredo e Getúlio causaram imensa comoção, mas ocorreram em circunstâncias muito especiais, sendo completamente inesperadas e eliminando líderes importantes em um certo momento histórico, e nem por isso geraram algo tão messiânico. Além disso, há hoje em boa parte da população brasileira uma antipatia prevalente, um nojo, com a classe política em geral.

Entretanto, por aqui, o Islã, da forma como é observado tradicionalmente nos países da Ásia Central, ajuda a entender esse culto a Karimov. Por toda a região dos rios Amu Darya e Syr Darya há os mazars, os mausoléus de homens iluminados. Foram em geral sábios muçulmanos sufis associados à própria região, pregadores, professores, mestres. Mas, mais do que isso, são representantes de um passado glorioso e, ao mesmo tempo, misterioso. Poucos conhecem bem esse passado. Assim, esse culto ganha força, alimentado pela fé de quem não o conhece. Karimov se foi e ainda é lembrado claramente, mas sua morte o colocou no panteão desses santos, igualando-o a eles. Em seu governo, a verdade permanecia frequentemente totalmente oculta, então seu governo foi, para muitos, um período bom, de estabilidade, de confiança, mesmo que para muitos outros fosse um período de medo. Algo semelhante ocorreu no regime militar no Brasil. Nessas circunstâncias, agora, após sua morte, o governo deveria tomar para si o trabalho de trazer à torna essa verdade aterradora que ficou escondida e tentar curar as feridas. Se isso não é feito, perpetua-se o mito — o santo Karimov, absolvido de seus pecados, ganha força com o tempo já que quem testemunhou suas atrocidades, que conheceu a verdade diretamente, aos poucos vai morrendo também.

Além disso, o adeus do ditador deu um passado pela primeira vez para toda a nova geração no país. Afinal, Karimov foi o primeiro presidente do Uzbequistão, o único líder que os jovens uzbeques conheceram. Antes dele, o passado era o dos líderes da URSS, que cada vez menos gente testemunhou e certamente não os mais novos. A sensação repentina de que o país, também jovem, de repente ficou órfão virou mais um motivo para a força de seu culto. O fato de que a mão firme de Karimov, que para o bem e para o mal guiou o país desde antes de 1991, não mais está presente. Que a identidade criada pelo presidente para um território desenraizado pelo sonho do Homo sovieticus agora está sem sua referência, e tudo está aberto. O mundo entrou num momento de imensa incerteza, de completa insegurança, em que o espelho se estraçalhou. E a fé se impõe como inevitável remédio.


* * *

Muita preguiça.

Decidi me dar um dia de folga da viagem. De manhã, tenho levantado todos os dias às 6h ou 6h30, já que nesse horário o calor ainda é tolerável. Hoje, tomei café às 7h30 e só saí do hotel ao meio-dia. Fiquei conversando com minhas novas amigas portuguesas, escrevendo meu diário, voltando para o quarto para tirar mais uma soneca. Merecido descanso, mas chegou a hora de ir para outro hotel, reservado e pago previamente. Uma pena, este estava ótimo.

Depois da mudança de base, fui visitar mais alguns poucos locais turísticos de Samarkand que eu ainda não conhecia.

Samarkand é uma cidade antiquíssima, cuja data precisa de fundação sequer é conhecida. Quando Alexandre, o Grande, a conquistou em 329 a.C., batizando o assentamento como Maracanda, a cidade já tinha séculos de história como um dos centros da cultura sogdiana, ocupantes da sátrapa da dinastia persa aquemênida (séculos VI-IV a.C). Em 2007, Samarkand comemorou uma data impressionante, mas certamente arbitrária: seus 2750 anos de existência. O que os turistas não deixam de visitar hoje, o Registan ou o mausoléu de Tamerlão, são passos recentes nesta longa trajetória. Até hoje eu julgava que a cidade tinha, sim, surgido entre o Registan e a tumba de Tamerlão. Mas uma caminhada para o norte, seguindo por uma avenida que passa ao lado do mausoléu de Islam Karimov, me trouxe a uma área vasta de ruínas desfiguradas pelo sol, como as de Penjikent. O local das raízes mais antigas de Maracanda recebia o nome de Afrosiab e sobreviveu lá, nessa terra hoje fantasmagórica, desde aproximadamente 500 a.C. até o século XIII, quando os mongóis chegaram. Timuridas e dinastias posteriores ergueriam seu monumentos mais perto do centro histórico atual.

O terreno com as ruínas fica numa área mais alta do que aquela onde ficam os grandes monumentos turísticos atuais, o que indica sua importância defensiva. Samarkand recebeu, nos tempos sogdianos, um influxo considerável de viajantes que seguiam pela Rota da Seda, sempre tirando deles seu sustento. Foi uma cidade rica, imponente. Nas ruínas, de montes de terra e buracos sem placas de informação e qualquer sentido para os não familiarizados, é difícil imaginar isso, mas, novamente como em Penjikent, a simples dimensão do terreno por onde estão espalhados seus restos (uns dois quilômetros quadrados) e a riqueza arqueológica, revelada a partir do século XIX e em particular a partir de escavações na década de 1920, confirmam sua grandeza e orgulho subjugados por Gengis em 1220.

Ainda que obliterando sua face, nem sequer os mongóis foram capazes de destruir alguns de seus tesouros, como testemunha o museu que fica ao lado do sítio. Há muitos artefatos interessantes e enigmáticos, alguns com cruzes (mostrando a presença muito antiga de cristãos em uma terra tão distante), e a maior de todas as joias do passado sogdiano — um mural de afrescos, reconstruído em uma sala, que mostra, em cores vívidas, cenas de representantes de povos asiáticos prestando homenagens ao rei sogdiano de Samarkand. Nesse sentido, finalmente, surge uma diferença crucial em relação a Penjikent: em Afrosiab, o mural, sua lembrança mais celebrada, permanece no local da ruína ancestral, onde justamente deveria ficar. Inclusive, os dois, o mural de Penjikent levado para o Hermitage de São Petersburgo e este, se parecem muito, com seu tom azul dominante.

O mural de Afrosiab data do reinado do monarca sogdiano Varkhuman, que reinou na cidade-estado na metade do século VII. Nessa época, os sogdianos estavam ainda sob o domínio do primeiro império túrquico a dominar a Ásia Central, o dos "turcos celestiais" ou azuis (gökturks em túrquico), que teriam vindo da região no sul da Sibéria, Mongólia ou norte da China atual. Os gökturks (e por conseguinte os sogdianos), em decadência, ainda no século VII tornaram vassalos da dinastia Tang, da China. Independentemente disso, os sogdianos sempre tiveram uma grande autonomia que sem dúvida refletia sua habilidade diplomática e suas excelentes relações comerciais com os povos vizinhos. Varkhuman se vangloria disso no mural, que é dividido em quatro partes. A mais bem preservada é certamente uma grande peça de propaganda voltada a seus súditos, que poderiam bem acreditar que o monarca era um deus na terra. Mostra filas de dignatários estrangeiros, incluindo chineses, oferecendo presentes ao rei. O segundo mural, que chegou a nossos tempos em estado pior de conservação, mostra o que seria uma procissão funerária liderada por Varkhuman, possivelmente para a despedida de seu antecessor. Ainda são exibidos os restos de dois outros afrescos integrantes do mesmo conjunto, mas deles quase nada sobrou. Um mostraria uma cena de caça centrada em um imperador chinês, talvez uma homenagem aos susseranos, e o outro possivelmente uma cena na Índia, o rico vizinho de onde vinha boa parte da riqueza de Afrosiab.

O mural só foi descoberto em 1965 durante a construção da rua que dá hoje acesso às ruínas e ao museu. Foi restaurando com investimento francês em 2014 e é hoje, juntamente com o mural de Penjikent, um dos poucos exemplos da arte sogdiana que restam. Ele prova a importância regional de Samarkand como centro dessa misteriosa civilização, cuja influência perdura até hoje (há aldeias no Tajiquistão onde ainda se fala um dialeto do sogdiano). O que não fica claro ao admirar a obra é a importância relativa de Afrosiab em relação a outros centros sogdianos, especialmente Penjikent.


* * *

Depois do museu, visitei a tumba de Karimov e uma pequena mesquita ao lado, uma mesquita antiga que, embora no centro do afã turístico da cidade, me havia passado despercebida nas minhas visitas anteriores. Consta que a mesquita Hazrat Hizr foi originalmente erguida no século VIII, ou seja, pouco depois da chegada dos árabes e do Islã a Afrosiab. Teria sido, claro, demolida por Gengis no século XIII. Só em 1854 foi reconstruída. Nos anos 1990, graças ao financiamento de um rico fiel de Bukhara, foi toda restaurada e se transformou em uma das mais bonitas da cidade, mas cerca de 30 anos de turismo evidentemente têm seu impacto. Durante minha visita, estava sendo restaurada.

O interior, embora atraente, me trouxe de novo a nada bem-vinda impressão, frequente em Samarkand, de exagero no trabalho de restauro, a ponto de deixar o prédio histórico com uma cara de recém-construído, tirando-lhe todas suas valiosas rugas. O que mais me impressionou, na verdade, foi o preço que tive que pagar pelo ingresso, 17 mil soms — pouco com o câmbio, algo em torno de US$ 2, mais ainda assim muitíssimo levando em conta os preços em geral no país, e também considerando que a decoração da mesquita estava parcialmente encoberta por andaimes. Do lado de fora, um grupo de operários reformava o prédio e fazia um barulho infernal com uma serra de cortar azulejos. De diferente e memorável, apenas a sacada da mesquita, algo bastante incomum, descortinando uma linda vista para a mesquita Bibi Khanoum.

Minha quarta despedida de Samarkand. Mais uma vez, foi no Café Labigor. Hoje, ainda mais do que em noites anteriores, a cozinha estava um desastre. De todo o cardápio, apenas duas opções estavam sendo servidas: salada e o churrasquinho, shashlik. Sequer laghman, o macarrão em uma sopa, que sempre costumam ter. Peço dois espetos de carne bovina, que me surpreendeu por estar muito apetitosa e, claro, a cerveja, o real motivo de voltar e voltar e voltar.

Noite tranquila, observando o vaivém na rua. No andar de cima do restaurante, perto da sacada, hoje havia cantores, interpretando músicas típicas uzbeques. Fiquei embaixo, em silêncio. Escutando. Que bonito.

Como você é bonita, Samarkand. Foi e será bonita, não precisa de nenhuma maquiagem.

Karmana, 19h16, 14/8

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Novas Fronteiras é um diário de uma viagem feita em 2018 a três países da antiga URSS na Ásia Central — Uzbequistão, Tajiquistão e Turcomenistão. Novos capítulos são publicados neste blog duas vezes por semana, às quintas-feiras e domingos, e seguem ordem cronológica. Novas Fronteiras é parte de um projeto maior que inclui outros diários de viagem pela Ásia Central publicados neste blog pelo autor, que tem viajado regularmente à região desde 2001. O objetivo do projeto é apresentar um panorama detalhado e em profundidade das sociedades dos países da antiga URSS na Ásia Central, em um processo de busca e exploração em que o autor executa uma viagem simultânea, de autodescoberta e entendimento do universo centro-asiático como espelho de sua própria existência.

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Wednesday, 8 March 2023

Novas Fronteiras (X) - Samarkand, Uzbequistão



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12/8/2018

Montes infinitos de terra seca esturricada, geradores de poeira. Infinita poeira. Levantando com o sol, com a lua. Sendo levada para o rio Zerafshan, para os desertos, para as montanhas.

Em Penjikent, um arqueólogo pode perder sua sanidade. Há pelo menos dois lugares na cidade para planejar grandes escavações, apesar de muito neles já ter sido explorado e catalogado desde os tempos soviéticos. Sim, muito neles já foi desvendado, mas muito também parece ser ainda um completo mistério, ainda sepultado, esperando a curiosidade humana fazer o que está destinada a fazer.

O primeiro lugar fica a um pulinho do centro de Penjikent. Basta andar meia hora ou menos a partir do mercado da cidade. Trata-se da velha Penjikent, explorada pelos arqueólogos quase que de forma ininterrupta desde 1947 e chamada por alguns de "A Pompeia da Ásia Central". É um mar de montes de terra pelada com formas que sugerem tesouros e palácios. Um imenso ponto de interrogação com uma história igualmente imensa. Trata-se de quizá a principal cidade da civilização dos sogdianos, um povo antiquíssimo — o mesmo ao qual estudiosos atribuem, em uma de suas hipóteses, a construção do Kyrk Kyz de Termez. Antes mesmo de Alexandre, o Grande tomar a região para seus domínios, os persas aquemênidas já tinham por aqui a sua sátrapa (província) de Sogdiana. Mas não se sabe ao certo o que existia por aqui naquela época tão longínqua; o que se sabe é que esta Penjikent de barro foi fundada no século V no que era o extremo leste de Sogdiana e teve seu auge na primeira metade do século VIII, ou seja, imediatamente antes da chegada, no mesmo século, dos árabes à região. Antes da conquista dos muçulmanos, os sogdianos eram uma confederação de cidades onde ainda o zoroastrismo dos tempos dos persas Ciro e Xerxes era uma das religiões dominantes; na parte norte desta ruína foram erguidos dois grandes templos. No oeste, ficava a fortaleza da cidade, abrigando sua administração, e, no sul, estavam seu cemitério e seus subúrbios. Dentro das muralhas da cidade era possível encontrar casas de dois e até três andares, pertencentes aos mais ricos membros da aristocracia. Com os árabes, acredita-se que a cidade entrou em declínio, deixando de ser habitada em seu local original por volta do ano 780. Isso é muito, muito antes de Gengis Khan e Tamerlão, embora bem depois dos kushanos que ocuparam a atual Termez e criaram o Fayoz-Tepe.

As escavações soviéticas das ruínas sogdianas renderam tesouros irreais em se tratando de um sítio tão antigo. Baixo-relevos e murais com influência budista, grega e indiana foram encontrados ainda com as cores originais embaixo de toneladas de terra. O mais famoso mural que sobreviveu, o do chamado "salão azul", é um deslumbrante conjunto que foi inteiramente arrancado de Penjikent e transportado pelos soviéticos para a Rússia, e que hoje jaz escondido em alguns dos centenas de corredores do Hermitage de São Petersburgo. Foi encontrado no que era o palácio de um aristocrata e deve seu nome ao seu fundo azul, feito com um pigmento de lápiz lazúli, o mais caro e raro na Ásia Central. Traz cenas de batalha de Rustam, um herói épico dos povos iranianos, e inclui ilustrações de leopardos, dragões e demônios. A imagens, feitas entre os séculos VI e VIII (sua conclusão foi interrompiada pela invasão dos árabes trazendo o Islã), mostram os sogdianos como representantes de uma zona de transição entre a estética indiana e iraniana, entre a túrquica e a chinesa, talvez a mais pura definição da alma ancestral centro-asiática.

A ausência do mural do salão azul é como uma ferida que não irá se cicatrizar jamais nas ruínas de Penjikent. O pequeno museu ao lado do labirinto de barro apresenta alguns artefatos que escaparam à pilhagem soviética e fotos saudosas desse tesouro roubado. A esse museu se chega por uma avenida que vem da cidade nova e corta a área do vasto sítio arqueológico, separando sua fortaleza do resto. No entanto, passar pela estrada não permite se ter uma ideia clara do tamanho do lugar. Isso só é possível ao subir em um de seus montes de terra, seguindo a trilha a partir do museu. Sua imensidão meu deixou boquiaberto. Dez mil metros quadrados.

Fui viajar naquele mundo de barro e poeira. Em vários pontos, cravados no solo, encontrei bandeirolas vermelhas e áreas cercadas por cordas, indicando o trabalho ativo dos arqueólogos. E, diferentemente do que encontrei em sítios no Cazaquistão, no chão não há pedaços de porcelana vitrificados e coloridos. Há, sim, fragmentos de porcelana, mas provavelmente a ausência das cores se deve à antiguidade do sítio, já que o uso da vitrificação colorida na cerâmica se tornou mais comum na Ásia Central apenas a partir do século VIII, justamente quando a cidade encontrou seu fim. Além disso, os pedaços que encontrei, sem cor ou brilho, só aparecem ao lado dos locais sendo escavados profundamente pelos arqueólogos, como se os cientistas os tivessem deixado lá, jogados, por julgá-los desinteressantes. Procuram tesouros maiores. Talvez um novo salão azul para substituir o ausente.

Na caminhada, a sensação já familiar de estar sendo assombrado por lembranças desconhecidas, de séculos e séculos. Como em todas as ruínas que podem ser visitadas na Ásia Central: muito a dizer, mas, tanto, que faltam palavras, e o visitante se perde em sua ignorância, engolido pelos fantasmas.

Fui até a extremidade do sítio. Não havia placas. Não havia gente. Muito difícil fazer algum sentido vendo a terra disforme sendo lentamente dissolvida pelo tempo. Mas encontrei lá um lugar com uma vista perfeita. Me sentei para admirar de lá a cidade moderna de Penjikent e as montanhas, distantes, além do vale do rio Zerafshan, o rio que vou continuar seguindo nos próximos dias: primeiro, na volta a Samarkand, depois, por Navoi e Bukhara. Sinto que é hora de seguir seu curso de volta ao Uzbequistão.

Voltei novamente caminhando para o centro da cidade, deixando para trás as ruinas. Era por volta do meio dia. Fiz uma despedida com sorvete para aplacar tanto calor. Depois, procurei um taxista disposto a cobrir a curta distância até a fronteira uzbeque. "Vamos", disse ele, "mas estou com outros passageiros que vou deixar pelo caminho". Logo, a moderna Penjikent desapareceu no retrovisor e novamente eu estava em zona rural. Mas, à minha direita, logo notei algo estranho na paisagem, uma anomalia. Uma placa na estrada indicava, com uma seta, a entrada de Sarazm. Perguntei ao motorista se tinha ideia do que se tratava. Ele disse que só sabia que eram ruínas. Aceitou me deixar lá e me resgatar em meia hora. Parou o carro no meio do lugar, agarrei minha mochila e voltei para o sol. Lembrei que já havia lido algo no meu guia a respeito de Sarazm — uma menção minúscula, simplesmente um nome em alguma página. Nem sabia que ficava aqui.

Sarazm representa um período completamente diferente do coberto pelos restos da Penjikent ancestral, e isso só testemunha a formidável riqueza histórico-cultural desta região. Ele data originalmente da era do bronze, quarto milênio antes de Cristo, antes das primeiras pirâmides do Egito, o que coloca o sítio entre os mais antigos assentamentos da Ásia Central. Neste caso, uma placa lhe faz o justo tributo, indicando que Sarazm foi agraciado com a inclusão na lista de Patrimônios Culturais da Humanidade da Unesco em 2010.

Talvez pela honra, o sítio ganhou algumas regalias que não foram oferecidas à velha Penjikent. Aqui, as escavações estão cobertas por toldos e há inúmeras placas com explicações detalhadas em inglês. Por meio delas, descubri que se acredita que Sarazm era uma "protocidade" — um assentamento que se diferencia do que viria a ser depois uma cidade pela falta de governo central e qualquer planejamento urbano — de uma época da qual pouco se sabe ao certo. Nos buracos escavados na terra, surgiram o que parecem ser ricas casas, incluindo altares e sinais de sacrifício de animais.

Uma lástima que, como em Penjikent e tantos outros locais na Ásia Central, o sítio é apenas terra escavada. Seus principais tesouros sobreviventes estão longe. No caso de Sarazm, o grande tesouro está no Museu Nacional de Antiguidades da capital tajique, Dushanbe, que visitei em 2012 (pelo menos, mais perto que o Hermitage de São Petersburgo). Trata-se do que viria a ser conhecido como "Princesa de Sarazm", um esqueleto achado numa câmara mortuária de entre 3 mil e 3,5 mil antes de Cristo. No esqueleto foram achados os restos de uma extravagante vestimenta, ornamentada com lápis-lázuli, jaspe, azeviche e outras pedras ornamentais, além de um espelho de bronze. De acordo com os cientistas, a descoberta é importante porque mostra que, em uma época tão longínqua, a população local já tinha acesso a materiais vindos do Afeganistão (o lápis-lázuli das minas citadas por Marco Polo em suas crônicas) ou Índia, indicando que uma rota comercial, uma "Rota da Seda", ou já estava em gestação ou mesmo já existia naqueles tempos.


* * *

Bem-vindo de volta ao Uzbequistão.

Atravessei a fronteira sem problemas. Eram umas 16h. Conheci duas portuguesas, elas fizeram a travessia internacional comigo. Imagine a surpresa das duas quando o companheiro de fila começou a puxar conversa no idioma em que elas conversavam. Todos nós, imensos sorrisos. Apesar da diferença dos sotaques português e brasileiro, falar nosso idioma neste mundo distante é sempre um conforto, um abraço, um carinho. Eram duas aventureiras incomuns — não mochileiras adolescentes jogadas ao vento e esperando que o destino as levasse pelos desertas e estradas centro-asiáticas, ao léu; nem excursionistas luxuosas, atreladas a grandes grupos de passeio preguiçoso. Eram senhoras de meia idade, professoras escolares, aventurando-se por sua conta e risco, vendo o mundo. Estavam indo de Dushanbe a Samarkand e haviam pagado um motorista na capital tajique para transportá-las o caminho inteiro, até entregá-las na capital de Tamerlão. Tratava-se de mais um braço de uma ousada jornada que já as havia levado ao Pamir. Muito me admirei por elas estarem explorando locais tão incomuns, e ficamos amigos sem nenhum esforço. As convidei para dividir o preço do resto da jornada no táxi delas até Samarkand e aceitei ficar no mesmo hotel que elas na primeira noite, pois eu só tinha reserva em um hotel na segunda noite na cidade. Certamente seria uma boa oportunidade para conhecer mais uma opção de acomodação. Na longa espera pelo desembaraço do táxi tajique na fronteira, troquei dinheiro com os outros taxistas esperando seus clientes e ofereci a minhas novas amigas todas as informações que pude sobre Samarkand. Perguntaram e respondi: essa seria minha quarta passagem pela cidade, incluindo uma havia poucos dias, antes de vir para o Tajiquistão, e as das duas viagens anteriores.

— Mas por que você gosta tanto daqui? — perguntaram.
— Olha lá, aquele não é o nosso taxista? Está nos chamando — respondi, fugindo do assunto.

No carro, no caminho, pensei em dar uma resposta a essa pergunta sempre tão complicada de responder, mas o assunto mudou para a dificuldade imposta pelos guardas da fronteira ao nosso motorista, bastante irritado após mais de uma hora de suplício. Secretamente, me senti aliviado. Há poucas coisas mais difíceis do que explicar meu amor por Samarkand em poucas palavras e, em muitas, poucos têm paciência de ouvir. Melhor assim, pensei, poupando-as da digressão apaixonada.

O hotel, como o albergue que me recebera havia poucos dias, era ao lado do Registan. Um lugar bem mais caro, mas também muito tranquilo e mais confortável — uma bênção após a simplicidade dos quartos de GS nas montanhas Fan. Roupas de cama novas em folha, ar condicionado, um pátio com uma árvore e um tapchan. As portuguesas ficaram em um quarto separado, só delas. Larguei minha mochila e saí para aproveitar o fim da tarde e sua temperatura mais amena. Fui em direção à mesquita Bibi Khanoum, caminhando por uma rua que não via desde 2012 e que não visitara dias atrás quando estivera em Samarkand.

Voltei a me espantar com o "embelezamento" da cidade. A rua, basicamente, havia se transformado em um ponto de lojas de suvenires, com os estabelecimentos ocupando os dois lados da via. O bairro tradicional, palco da vida da região, sujo e feio, tinha sido escondido. Para vê-lo, o visitante agora precisa prestar atenção. Em dado momento, entre as lojas, aparece um barreira de metal, sem nenhuma indicação, com uma porta. Na verdade, alguém poderia até pensar que ela dá acesso a uma área particular e que atravessá-la seria proibido. Poucos turistas parecem cruzar a barreira. Talvez, imagino, para a maioria seja melhor assim, melhor que a verdadeira Samarkand seja escondida atrás de um biombo que a isole dos tesouros arquitetônicos da cidade, como se os dois não fizessem parte do mesmo todo e pudessem ser entendidos, e sentidos, isoladamente. Mas essa é a norma no Uzbequistão caça-níqueis. A segregação cria uma área "artificial" para os turistas, uma "Disneylândia", e outra completamente separada. E é nessa onde eu quis, precisei caminhar.

Esperava que os locais me olhassem com estranhamento, que pensassem que eu havia me perdido. Ou que fossem me incomodar — perguntar se queria comprar algo, se eu buscava um guia, se eu estava perdido. Nada disso. Senti uma imensa felicidade. Atravessar o portão me levou a uma rua iluminada pelo sol baixo, laranja, me ofuscando, diretamente à minha frente. Na rua, vi crianças jogando futebol, algazarra, algumas até me abordaram querendo falar em inglês comigo; o caminhar apressado de homens e mulheres jovens vindo do trabalho, alguns deles com roupa exatamente como a das pessoas no Brasil, mas algumas mulheres vestindo suas sedas tradicionais, coloridas. Vi idosos e idosas sentados em cadeiras nas portas de suas casas, conversando, medindo o movimento da via. Alguns me viram, sorriram. Perguntaram de onde eu era.

Vida. Vida urbana. Não entendo por que higienizar a vida.

No meio do labirinto de ruelas, havia pérolas salvas pela falta de "embelezamento". Pequenas mesquitas, velhas, esperando reforma, lindas por sua tinta gasta, testemunhas dos sovietes, dos czares, dos khans.

Avancei até o fundo de uma rua, até as tripas do bairro, e encontrei algo que, honestamente, não me lembrei de ter visto antes na Ásia Central: era uma hammam, ou banho turco, em atividade. Há ruínas de hammans em vários lugares que visitei, mas nunca vi uma que ainda fosse usada pela população. Esta, no caso, estava ativa desde o século XIX. Uma curiosa demonstração da incomensurável ligação cultural entre os uzbeques e os turcos. Do lado de fora, pouco se via; havia um portão e, logo em seguida, uma área coberta onde se viam cúpulas brotando diretamente do chão. Pareciam ser metálicas. Me aproximei para ver, bater nelas, para confirmar minha teoria. Adentrei a área coberta. Bati, eram bem sólidas, não eram de metal, pareciam ser de pedra. Nisso, um homem gordo e peludo, sem camisa, só de shorts, toalha no ombro, suado e relaxado, saiu de uma porta mais à frente e me abordou. Não parecia interessado em nada a não ser saciar minha curiosidade: "Entra, entra aqui, pode ver."

Uma ruína de hammam que visitei ficava em frente do mausoléu de Khoja Ahmed Yassawi, o monumental edifício construído por Tamerlão em Turkistan, no sul do Cazaquistão. Naquela, havia uma sucessão de câmaras subterrâneas, salas de pedra com locais para se sentar e outros para se deitar, mas o lugar era abstrato demais para mim. A hammam que eu descobri em Samarkand, chamada Hammomi Davudi, por fim me explicou o que aquela ruína significava. As cúpulas brotando do chão eram os tetos de uma sequência de saunas com paredes de pedra, cada uma com diferentes temperaturas. Em uma delas, havia um homem sendo massageado por um funcionário que parecia estar amassando uma massa de pão, tamanha a violência como se atirava no lombo do cliente, deitado de costas. O alvo do ataque parecia desacordado, com um sorriso lânguido, gemendo levemente. Fiquei um tanto constrangido, ainda mais porque o meu anfitrião, o senhor sem camisa, havia me seguido e parecia observar cada passo e olhar meu. Nada mais para se ver e logo tive uma sensação de sufocamento, com os vapores da sauna misturados ao cheiro de suor. Antes de sair, agradeci ao homem, que, para minha surpresa, não perguntou se eu queria uma massagem. Perguntei se as mulheres também frequentavam a hammam. Sim, em dias alternados, explicou. Agradeci novamente.

Perto da hamman, vestigios do que um dia foi o centro da comunidade judaica de Samarkand. Como em Bukhara, a cidade era o local de muitos que, após a queda da URSS, migraram para Israel. Os que ficaram são poucos e velhos. Há uma sinagoga, perdida entre as casinhas humildes. A encontrei de portões fechados. Aparentemente, pode ser visitada, mas apenas se o transeunte tiver muita sorte de estar passando em um dia e horário de culto ou se organizar a entrada com antecedência. Aos não sortudos, ficam os pequenos detalhes, visíveis do lado de fora: uma calha de chuva ornamentada com a imagem de um menorá e a estrela de David, lindo trabalho em metal, certamente obra de um artesão.

A noite chegou.

Sai da cidade escondida, entrei na cidade dos turistas, segui em direção ao Registan e depois em direção ao Café Labigor. Meu local favorito de despedidas em Samarkand é onde eu havia combinado com Shackleton e o moleque de nos encontrarmos uma última vez. Para ser honesto, não os esperava ver — as referências que eu havia passado a eles sobre como encontrar o lugar eram um tanto vagas. O que faz dos viajantes viajantes é o fato de estarem à mercê do caminho, de sua curiosidade natural, de suas pernas e olhos; submeter o encanto da viagem a um jantar a mais com um semi desconhecido não me parecia algo especialmente atraente para os tchecos, que em breve estariam deixando a Ásia Central. Disse a eles: estarei lá às 20h, apareçam, podemos tomar uma cerveja no único lugar com boa cerveja que encontrei perto do Registan. Já estava me preparando para tomar a cerveja, ou mais de uma, sozinho, novamente com a visão da agitação noturna de Samarkand e acompanhado de alguma comida de qualidade duvidosa. Nada mal.

Mas eles apareceram! Eis que os viajantes não eram apenas exploradores, eram caçadores de companheirismo. Foi uma grande alegria dar um abraço no doce moleque, com quem eu só podia falar inglês, e no paradoxal, frio e amigável, amistoso e distante Shackleton, com quem eu só podia falar espanhol.

Sentamos em um tapchan, as mesas-camas típicas. Pedimos churrascos no espeto. Shackleton, sem pudores, pediu um frango inteiro, que veio empalado na haste de metal, com um cheiro maravilhoso de pele derretida e crocante. Em segundos veio o ruído das mordidas imensas do tcheco, que alternava a carne com pedaços de pão que enchiam toda sua boca e deixavam migalhas em sua barba. Após tanto tempo no Tajiquistão, era a primeira vez que os dois atravessavam a fronteira, a primeira vez que vinham ao Uzbequistão, a primeira vez que viam as glórias da capital de Tamerlão. "E então, o que acharam?", perguntei, com genuína curiosidade. Moleque: empolgadíssimo. Falou longamente das madrassas do Registan, da sutil geometria e das sutis cores, de suas sombras e do sol dourado do anoitecer sobre uma das fachadas. Queria mais tempo para explorar, entrar em todos os prédios, conhecer as ruas e ruelas, ver a luz da lua sobre as fachadas. "Os turistas, bem, são muitos, mas este lugar é lindo, que bom que viemos", resumiu o jovem. Shackleton: "É bonito". Só disse isso.

Entre um gole e outro da cerveja gelada, lembramos com nostalgia a viagem de meros dois dias atrás aos sete lagos das montanhas Fan. Só dois dias atrás! Isso não é nada! Mas já parecia fazer tanto tempo. Fomos aos poucos entrando no transe da bebida, rindo, rindo.

"É uma boa cerveja", avaliou Shackleton. "Mas você precisa conhecer melhor as cervejas tchecas. Ah! Que maravilha. Você precisa vir a Praga, vou te levar em um bar bom que conheço!" Eu disse que queria, sim, voltar a Praga, já fazia tempo desde minha visita. E afirmei que, quando voltasse, além de beber, queria certamente ouvi-lo tocar violino.

Já sentia, e sinto, saudade, mesmo sabendo que dificilmente vamos nos ver de novo. Se de fato não nos vermos, que fique essa lembrança maravilhosa de viajantes, das risadas e das cervejas no café das despedidas de Samarkand.

Samarkand, 13/8, 21h28

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