Thursday, 13 April 2023

Novas Fronteiras (XIX) - Nukus, Uzbequistão



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Este capítulo descreve uma visita à República do Caracalpaquistão (pertencente ao Uzbequistão) antes dos protestos de julho de 2022, nos quais pelo menos 18 pessoas morreram. Os confrontos foram motivados por uma proposta de emenda à constituição do Uzbequistão, apresentada pelo governo uzbeque, que previa o fim do status autônomo da república e de seu direito legal de reivindicar sua independência por meio da realização de um plebiscito. Após os protestos, o governo uzbeque retirou a proposta. Clique aqui para ler um resumo dos acontecimentos.

20/8/2018

No fim da tarde, sol e vento agradável. Temperatura perfeita, uns 22 graus. Em um passeio à beira-rio.

Jamais esperava ver isto nesta cidade.

A promenade estava sendo bem aproveitada: havia ciclistas, pessoas correndo, famílias passeando com seus bebês. No rio em si, mais atividade: remadores, caiaqueiros. Aliás, de longe vinha se aproximando, passando por baixo de uma ponte, a toda velocidade, um barco a remo com dois tripulantes. Me perguntei se os atletas estavam treinando para a Olimpíada.

Esta é uma cidade europeia?

É Nukus, capital da remota República autônoma do Caracalpaquistão, a maior cidade na região do Uzbequistão onde fica o moribundo Mar de Aral. Uma visão pré-concebida foi forjada na minha cabeça pela tragédia ambiental no mar. Imaginava toda esta região torturada pela natureza desolada, com pouca gente e, esses poucos restantes, todos doentes, magros, tristes. Imaginava um lugar seco, com residências sendo destruídas implacavelmente pelos elementos, vento horroroso trazendo sal e poeira, solo infértil, poucos pássaros, árvores raquíticas... céu azul sempre visto com um filtro cinza, por todos os lados a sombra da morte, os presságios do apocalipse.

O que vejo é o oposto disso. Em primeiro lugar, há o mesmo que se vê em tantos outros lugares do Uzbequistão, desde o agora longínquo vale de Fergana, no extremo leste, a agora este, no extremo oeste: o governo destruindo construções antigas e construindo prédios novos, criando e reformando calçadas, reformando tudo. Eu não estive em Nukus antes, então não posso saber exatamente o que existia aqui antes. Certamente, muitas memórias. Mas o que encontro é uma calçada agradabilíssima, uma área de prazer e lazer, uma oportunidade de admirar o rio — na verdade um canal com água desviada do Amu Darya (o rio em si passa alguns quilômetros a oeste). O canal é grande, amplo. Não é um regatinho de líquido contaminado com pesticidas, uma fonte de vergonha. Os remadores que o digam. Impressionante o contraste com o que eu tinha na minha cabeça. Impressionante como o Amu Darya é ainda poderoso por aqui, tão poderoso a ponto de alimentar este grande canal. Não consigo imaginar como era antes dos soviéticos, que durante seus anos foram construindo canais e canais para desviar água do Amu Darya para suas plantações antes de chegar a Nukus. O rio deve ter sido colossal no passado.

Vi muita gente no passeio ao longo do canal. Uma menina passou com patins, atrás veio a mãe e o pai, de braços dados, ambos arrumados com capricho, ela com seu vestido colorido, ele, barbeado, com o cabeço penteado cuidadosamente. Caminhei um pouco mais e me sentei em um banco à frente de um chafariz de águas dançantes, com música. Ao redor da fonte, alguns camelôs arrumavam as mercadorias no chão — claramente esperando a freguesia que viria mais tarde. Uma menina de uns 12 anos era um desses camelôs; chegou para vender doces industrializados e brinquedos de plástico coloridos. Estava completamente sozinha. Encontrou seu canto e fez tudo com habilidade e velocidade: abriu uma grande sacola, com metade de seu próprio tamanho, tirou um cobertor, o estendeu no chão, foi removendo das caixas cada tipo de mercadoria, ajeitou-as em fileiras sobre o cobertor, guardou de volta as caixas na sacola, a colocou em um lado e, finalmente, se agachou em frente à sua vitrine improvisada, com os braços cruzados. Passou a se dedicar a olhar para o chafariz. Não para os lados, nunca, olhava apenas para a fonte.

A fonte. Os jatos d'água estavam desajustados, deveriam ir todos para o alto e em direção ao centro, mas uns iam para um lado, outros, para o lado oposto, criando poças ao redor. Do lugar onde eu e a menina camelô estávamos, o sol estava na posição oposta. A luz atravessava os jatos subindo e descendo, começando e recomeçando a dança. A música saia de algum lugar que eu não conseguia identificar, acho que da própria fonte. A luz atravessava a água voadora e a dissociava em cores infinitas.

De repente, o vento veio e meu rosto se molhou. Que sonho refrescante.

Havia algumas árvores ao redor. Verdes, vibrantes. E passarinhos. Cantoria de andorinhas em grupos, outras aves maiores que nem consegui identificar.

Onde está a desolação? Onde está a morte?

Uns dez minutos hipnotizado. Nesse tempo, uma única pessoa, uma garota, passou entre a fonte e mim, bloqueando o sol por um instante. Só vi seu perfil escurecido pelo contraste, cabelo puxado para trás num rabo de cavalo. Tirei uma foto. A imagem do seu perfil ficou marcada também na minha retina, a luz do sol ao redor de sua cabeça, criando uma aura.

Me levantei. A menina camelô estava muda, ainda agachada exatamente da mesma maneira. Olhando para o mesmo lugar. Nem notou minha existência. Fiquei com pena.

Ao lado do canal e do passeio fica o mercado central de Nukus. Naquele momento estava fervilhando, todos correndo para comprar comida após um dia de trabalho. Fartura de tudo, frutas, legumes, carne. Vi crianças sapecas, correndo e pulando entre as caixas, entre os sacos, entre os velhos com sacolas, entre os odores de endro e de gases de escapamento. Ao lado, um terminal de vans serve o mercado. Veículos partiam cheios. A gritaria caótica dos cobradores e motoristas, dos clientes correndo de lá para cá para apanhar a condução que já estava partindo.

A sensação era de arrebatamento dos sentidos, muita coisa acontecendo simultaneamente. Meus olhos flutuavam em cada rosto enrugado, murcho pelo sol forte. Meus olhos flutuavam em cada cor nas barracas do mercado. O nariz, em cada cheiro.

De repente, quase atropelei uma velhinha baixinha. Usava uma roupa suja, cores desbotadas, lenço puído na cabeça. Vinha com uma panela pequena na mão. Dentro dela, brasas e um maço de uma planta que estava queimando. Saia uma tremenda fumaça, e eu não sentia nenhum aroma agradável. Ela aproximou a panela do meu rosto, fez movimentos circulares verticais com ela no ar. A erva queimada é chama de ishrik; seu uso em bênçãos supostamente tem raízes anteriores à chegada dos muçulmanos à Ásia Central. Dizem que a erva tem propriedades medicinais, mas era impossível identificar naquele momento se essa era mesmo alguma erva boa para a saúde ou se era apenas um mato qualquer que a mulher pegou e botou fogo. Fiquei desconfortável. A velhinha insistiu em circular a fumaça em meu rosto. Parecia ser cigana, queria um trocado, mas eu não poderia tirar do bolso minha carteira no meio do mercado, alguém poderia facilmente pegá-la e sair correndo. Sorri, fiz um gesto para ela se afastar, e ela se distanciou sem reclamar.

Mirei o outro lado do terminal de vans, para onde saíam os veículos. Era uma avenida. Negociei passagem entre as buzinas, atravessei tudo. Da calçada à beira da via, enxerguei um lindo mural de visual soviético adornando um dos prédios antigos ao redor. Os edifícios pareciam ser sedes de escritórios do governo local. Nas fachadas, um estranhamento; vi grandes cartazes de propaganda. Estavam em uma língua estranhíssima, que não conhecia, nunca havia visto antes.

E lembrei, então. Nukus fica no Uzbequistão. E não fica. Isso não é uzbeque, é caracalpaque.

A primeira vez que ouvi falar dessa nacionalidade obscura foi também na minha primeira vinda ao Uzbequistão, em 2001. Naquela época, e até hoje, os caracalpaques respondiam por boa parte dos imigrantes pobres que iam tentar a vida em Tashkent. Fugiam da miséria causada pelo assassinato do Mar de Aral — inclusive o fim da indústria pesqueira. Certamente em 2001 as melhorias do governo que vejo criando hoje um pequeno paraíso em Nukus estavam longe de se tornar realidade. Caracalpaque era sinônimo em Tashkent de miserável, de pessoa sem perspectiva. Existia preconceito na capital contra eles. Como o que os nordestinos que imigram sofrem no sudeste e sul do Brasil.

Mas o preconceito ia, e vai, além do fato de que os caracalpaques vêm de uma região mais pobre. Há mais razões, baseadas em diferenças culturais.

Ainda os estudiosos não têm inteira certeza sobre a origem dos caracalpaques. Há uma crença de que a etnia tem sua origem em uma tribo túrquica conhecida por ser a origem de mercenários ativos na Rússia medieval, anterior à invasão dos mongóis (a chamada Rússia de Kiev). Eram então chamados pelos russos de "chapéus pretos". Essa é justamente a etimologia da palavra "caracalpaque" (em túrquico, kara é preto, kalpak, chapéu). Mas a teoria nunca foi provada. O mais possível é que os caracalpaques tenham sido um grupo que se separou dos cazaques em determinado momento do século XVII — sendo que os cazaques, da mesma forma, também teriam sido um dia parte de uma grande tribo que os unia com os uzbeques, dos quais teriam se separado no século XV e então seguido uma evolução paralela, criando sua própria cultura. Na sua suposta separação, os caracalpaques, assentados na região do Mar de Aral, levaram consigo a maior característica dos cazaques, o pastoralismo nômade, segundo o qual os cidadãos vivem nas estepes circulando com seus cavalos em busca das melhores pastagens e se fixando em algum lugar por mais tempo apenas para passar os rigores do inverno. Diferentemente dos uzbeques, que têm uma forte associação com o sedentarismo, os caracalpaques usam tradicionalmente a iurta, a barraca circular dos nômades da Ásia Central, tal qual os cazaques, os quirguizes e os turcomenos.

A língua, inevitavelmente levando em conta a provável origem dos caracalpaques, é outra diferença fundamental que eles têm em relação aos uzbeques, e, é claro, a mais chamativa ao visitante. Se parece tanto com o cazaque que há quem julgue que são a mesma língua, apenas escrita de forma diferente de cada lado da fronteira. Eu esperava, na prática, que ela não se fizesse sentir de forma clara em Nukus. Esperava que a língua local fosse reservada a alguns, deixada como uma peculiaridade semioculta em meio à dominância do uzbeque, essa sendo a língua nacional de um governo com forte orgulho nacionalista. Ou seja, eu previa que a língua caracalpaque nunca fosse visível em grandes cartazes em prédios. Que surpresa. Esses cartazes de propaganda que encontrei perto do mercado estavam apenas em caracalpaque, não eram sequer cartazes bilíngues, incluindo o uzbeque. Escrito com o alfabeto latino, o caracalpaque me lembrou visualmente o holandês (talvez pela presença constante da letra W, ausente no uzbeque).

Mais além da língua, eu julgava improvável que o Caracalpaquistão exercitasse de forma explícita e contundente qualquer coisa que pudesse enaltecer seu direito a uma hipotética independência. Contudo, não foi isso que vi. Alguns detalhes falam muito, reforçando a ideia de uma identidade distinta. Os homens caracalpaques, por exemplo, não costumam usar o chapéu típico uzbeque, o dope. Desde minha chegada, não vi absolutamente nenhum com ele nas ruas, no mercado, à beira do canal, no hotel onde fiz check-in. As iurtas são uma referência constante em Nukus. No hotel, construíram uma num pátio, o turista pode se hospedar nela se quiser. Há lembranças temáticas de iurtas em lojas de suvenires. Claramente os caracalpaques se orgulham da barraca e a usam para estressar sua diferença dos uzbeques. Também há a ausência das camas quadradas, colocadas em baixo de árvores ao ar livre, nas quais os uzbeques gostam tanto de se recostar para tomar chá, os tapchans. Em termos de religião, o Islã sempre teve uma penetração mais fraca entre os povos de origem nômade. Não vi madrassas por aqui e só encontrei até agora uma mesquita, algo impensável nos centros velhos de Samarkand, Khiva e Bukhara. Simplesmente não há no Caracalpaquistão tesouros arquitetônicos ancestrais como nessas joias da Rota da Seda a leste daqui, como também eles são raros no Cazaquistão, com exceção da região mais ao sul onde os cazaques disputam espaço com os uzbeques. Até mesmo no aspecto físico, uzbeques e caracalpaques parecem ter uma ligação mais distante que caracalpaques e cazaques, estes dois tendo olhos mais puxados, rosto mais redondo. Assim, estranhamente, me sinto muito mais próximo de Almaty do que de Tashkent em Nukus. Há até, segundo cartazes colados em paredes no mercado, um serviço de ônibus direto conectando Almaty e a capital caracalpaque. Imagino que seja um destino atraente para migrantes econômicos que falem melhor caracalpaque que uzbeque. Imagino que, se eu fosse caracalpaque e tivesse a escolha, sem problemas envolvendo vistos ou permissão oficial e se eu tivesse fluência na língua da república autônoma, certamente escolheria imigrar para Almaty em vez de Tashkent. Assim, evitaria o preconceito dos uzbeques. Aliás, os cazaques eram, até meados de 2010, aproximadamente um terço da população do Caracalpaquistão. Esses podem ser imigrantes cazaques que se fixaram no território, caracalpaques que têm passaporte cazaque e preferem se identificar assim ou mesmo caracalpaques que, questionados pelo censo, sequer identificaram qualquer diferença entre a sua própria identidade e a de seus irmãos ao norte da fronteira.

Quantas diferenças em relação aos uzbeques. Me pergunto se já houve alguma discussão séria sobre separatismo entre os caracalpaques.

De fato, sim e ela segue existindo. O debate se fundamenta no que ocorreu nos tempos da URSS. Um território para os caracalpaques surgiu na região pela primeira vez em 1925, inicialmente como uma região autônoma da República Soviética do Cazaquistão. Em 1932, passaria a ser uma república autônoma, ainda do Cazaquistão soviético, e, em 1936, passaria ser incluída no território da República Socialista Soviética do Uzbequistão. Durante os primeiros anos da URSS, outras duas repúblicas autônomas foram criadas por Moscou na Ásia Central, a dos tajiques e as dos quirguizes, mas ambas, alguns anos após criadas, seriam promovidas a repúblicas soviéticas, um grau acima. Que o Caracalpaquistão nunca tenha subido de status é algo um tanto misterioso, mas provavelmente reflete a significativa influência das elites políticas uzbeques ou a falta de influência das elites caracalpaques nos tempos da URSS. Após a queda do comunismo, todas as repúblicas soviéticas fizeram a transição para virar países independentes. O Caracalpaquistão, ainda como república autônoma, não. Tal figura jurídica, "república autônoma", existe, aliás, em outros países da ex-URSS. Na Rússia, por exemplo, há dezenas de repúblicas autônomas, cada qual com sua língua, governo, bandeira, estrutura burocrática. Mas, lá, essas repúblicas são parte integrante de uma federação, algo que não ocorre no Uzbequistão. Além disso, nenhuma república autônoma russa tem, isoladamente, a mesma importância geográfica dentro da Federação Russa que o Caracalpaquistão tem dentro do Uzbequistão. O território da república autônoma equivale a cerca de um terço do território uzbeque. Em caso de separação, o Uzbequistão ficaria seriamente desfigurado nos mapas.

Por via das dúvidas, é claro, o governo uzbeque investe em sua república autônoma, embeleza Nukus, e mostra sua tolerância com a identidade local.

Seguindo pela avenida ao lado do mercado, depois de tentar encontrar algum sentido nos Ws alienígenas nos cartazes nos velhos prédios, fui me afastando do bazar. E a verdade transpareceu clara. Se há prédios novos, se aqui e ali uma avenida parece recém-construída ou reconstruída, com sua calçada reluzente e lojas que parecem ter fachadas pré-fabricadas, nas quadras ocultas atrás dessas vias um retrato de miséria ainda existe. Encontrei velhos conjuntos habitacionais soviéticos, alguns em estado tão deplorável que pareciam cortiços. Esses conjuntos existem por toda a Ásia Central, mas nunca os vi no estado que estavam alguns que achei em Nukus. Imagino que, antes da sanha higienizante e modernizadora dos presidentes Karimov e Mirziyoyev, tudo por aqui fosse assim, caindo aos pedaços, triste, exatamente como eu esperava encontrar. Neste caso, sem ter conhecido a cidade antes, mas sabendo o quanto ela foi afetada pela tragédia do Aral, sabendo que ela nem tem tesouros arquitetônicos ou uma profundamente enraizada cultura urbana (visto que a tradição por aqui era ancestralmente o nomadismo), só consigo ver vantagens na febre de reconstrução imposta por Tashkent. Faz sentido. E espero que continue, respeitando as comunidades, permitindo que os moradores possam permanecer onde estão.

Dobrei uma esquina. Encontrei do outro lado da avenida, oposto a mim, o palácio do Parlamento local, moderno, lindo, perfeito, uns cem metros atrás de um portão que impede qualquer um de chegar perto. As duas bandeiras na cúpula do edifício baixo são do Uzbequistão e do Caracalpaquistão, esta quase idêntica à bandeira uzbeque, mas com a faixa central branca substituída por um amarelo alaranjado, cor que remete ao deserto. Observei à distância. Tive pouco interesse, a arquitetura do palácio não me chamou a atenção. Fui caminhando de volta para o hotel.

À direita do portão, vi dois turistas parados, olhando para a edificação. Dois homens, um alto, outro menor, vestindo roupas surradas e suadas. Pensei que algum policial ia chegar perto e dar uma bronca naqueles malucos por estarem perto demais do portão. Olhei melhor. Eles me pareceram familiares.

Shackleton e o moleque, vestidos da mesma forma que os encontrei pela última vez em Samarkand.

Esfreguei os olhos. Como assim? Inacreditável! O que estão fazendo aqui?

Gritei para chamar a atenção, eles não ouviram. Estavam, na verdade, longe: entre nós, havia uma avenida de várias faixas, movimentada, com ônibus, táxis, barulho. Para atravessar, só havia um ponto possível, também distante; eu teria que voltar umas duas quadras do meu lado da avenida até alcançar a faixa de pedestres. Mesmo assim, fui para lá, de olho nos meus dois amigos. Eles cobriam o rosto para proteger os olhos do sol e ver direito a fachada. Pouco depois seguiram caminhando bem devagar para o sentido oposto ao que eu seguia.

Me veio uma sensação de desespero, de repente. Uma vontade imensa de vê-los de perto, de conversar com eles. Um vácuo me puxava por dentro, ameaçando me engolir se eu não os abraçasse. Era um desespero, louco, agudo.

Gritei. Meus amigos! Aqui! Aqui! Olhem para cá!

Parei de gritar. Fechei os olhos uns segundos, ainda caminhando para a travessia de pedestres.

Abri os olhos. Olhei de novo. Eles não estavam mais lá. No lugar deles, estava lá, do nada, perfeitamente nítida, ML.

Ela estava com o mesmo vestido florido de ontem.

Que diabos estava acontecendo?

Gritei de novo. Nada, ela não me ouvia. Como antes estavam Shackleton e o moleque, estava imersa demais na arquitetura do palácio para perceber algo além disso.

Senti como se ML ou os meus dois companheiros das montanhas fossem uma boia no oceano e eu estivesse me afogando.

Corri com o máximo de velocidade. Finalmente cheguei à faixa de pedestres. Maldita dificuldade proposital para atravessar, pensei, com muita raiva, a faixa ficava longe demais, as autoridades simplesmente não querem que as pessoas se aproximem muito do Parlamento.

Olhei para os dois lados da via, não esperei o sinal verde para os pedestres. Atravessei as faixas negociando com os carros em alta velocidade.

Cheguei ao outro lado, enfim. Mas ML tinha desaparecido. Shackleton e o moleque não tinham voltado.

Não me passou pela cabeça nenhuma explicação racional, apenas que o que ocorrera não poderia ter ocorrido. A visão dos três foi extremamente real, tão real quanto a visão do prédio do governo caracalpaque do outro lado do portão agora à minha frente.

Olhei para o portão fixamente. Para o palácio.

Nada.

Meus amigos evaporaram.

O vácuo me engoliu.

Atravessei a rua de volta. Apesar de não fazer tanto calor, pois já estava anoitecendo, senti uma gosta de suor escorrendo em minha testa, entre as sobrancelhas.

Desapareceram.

Eu queria perguntar aos meus amigos das montanhas porque decidiram estender suas viagens para tão longe do Tajiquistão. Queria perguntar a ML de sua viagem de Khiva até aqui, ouvir novamente seus planos de total liberdade e fascinante imprudência, contar a ela da linda promenade em que passeei à beira do canal hoje, mais cedo.

Tudo ao redor parecia, de repente, repelir minha existência. Por que eu estou tão longe do mundo? Por que o mundo está tão longe de mim?

Entrei no quarto do hotel. Me joguei na cama e comecei a chorar.

Nukus, 23h20, 20/8

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Novas Fronteiras é um diário de uma viagem feita em 2018 a três países da antiga URSS na Ásia Central — Uzbequistão, Tajiquistão e Turcomenistão. Novos capítulos são publicados neste blog uma vez por semana, aos domingos, e seguem ordem cronológica. Novas Fronteiras é parte de um projeto maior que inclui outros diários de viagem pela Ásia Central publicados neste blog pelo autor, que tem viajado regularmente à região desde 2001. O objetivo do projeto é apresentar um panorama detalhado e em profundidade das sociedades dos países da antiga URSS na Ásia Central, em um processo de busca e exploração em que o autor executa uma viagem simultânea, de autodescoberta e entendimento do universo centro-asiático como espelho de sua própria existência.

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Saturday, 8 April 2023

Novas Fronteiras (XVIII) - Khiva, Uzbequistão



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19/8/2018

— Desculpe te incomodar, mas a gente tem uma pergunta que queremos te fazer.

A norueguesa me abordou completamente de surpresa. Estava na companhia de uma espanhola e de um português, todos mais ou menos nos 40 anos. A nórdica destoava muito dos outros. A pele destes era daquele típico tom mediterrâneo, um branco eternamente puxado para o bronzeado. O tom de pele da norueguesa era de um branco naquele momento muito mais vermelho que branco, violentado pelo sol, um rubro que nenhum bloqueador solar poderia evitar. Claro, claro, parei para escutar, fiz meu melhor sorriso, alimentado por grande curiosidade.

— Estamos indo para o Mar de Aral. Vamos dormir no deserto. Vamos alugar um carro com motorista, temos vaga para mais um. Você não quer vir?

Minha visita ao Mar de Aral estava se aproximando, e o lugar já estava me assombrando. Minha viagem de 2003 ao Uzbequistão continuava constantemente comigo, e uma não-lembrança que me atormentava era o Mar. Isso porque, nessa viagem, eu decidi não visitá-lo. Vários motivos: um pouco devido ao desânimo com o que eu imaginava ser um cenário de infinita tristeza; um pouco, pela falta de tempo; mais um pouco, pela falta de dinheiro, e muito devido à minha curiosidade maior em conhecer o Vale de Fergana, do outro lado do Uzbequistão, o que consumiria o tempo que me restava na viagem. Essa lacuna finalmente iria ser preenchida agora, eu iria acertar, de novo, as contas com o passado, como fiz ao visitar Penjikent.

— Quanto custaria para ir com vocês?
— US$ 100.

Era um bom preço. Meu passeio pela região do mar já estava reservado e pago, estava planejado há meses. Eu também iria dormir no deserto, também tinha arranjado transporte. Mas tudo tinha ficado mais de US$ 200. Teria economizado uma boa bagatela se não tivesse me adiantado e tivesse deixando a sorte me juntar ao simpático grupo. Mas o problema não era apenas o valor da viagem. Eles pretendiam ir direto ao Aral desde Khiva e depois voltar para Khiva. Minha viagem me levaria primeiro a duas noites em Nukus, a capital da república autônoma uzbeque do Caracalpaquistão, a cidade de médio porte mais próxima do moribundo mar. Havia reservado hotel e, na minha cabeça, era agradável a ideia de ir se aproximando devagar do maior desastre ambiental artificial da história. Além disso, eu tinha legítima curiosidade em conhecer Nukus. Por fim, o passeio pelo Aral seria com um guia experiente, incluía dormir pela primeira vez em uma iurta, a barraca típica dos povos nômades da Ásia Central. E sabe-se lá a companhia que eu teria nesse passeio que reservei, quiçá ainda melhor do que a daquele trio.

Não obstante, lamentei. Puxei a norueguesa, a espanhola e o português para um canto, para deixar passar a excursão de coreanos pela ruela ao lado do minarete mais alto de Ichon-Qala. Agradeci. Disse a eles que haviam me lembrado de uma lição valiosa, que eu já deveria ter aprendido — em viagens, planejar tudo com antecedência tem suas vantagens e desvantagens.

Circulei com eles pela cidade-museu. A beleza de Khiva permanecia estonteante, como em 2003. Os tijolos ocres, os azulejos azuis, a sensação de estar longe no espaço e no tempo. Mas a praga do excesso de turismo me empurrava constantemente para outros cantos de Ichon-Qala. Cansei de me esfregar na multidão e logo me despedi. Foi ótimo ouvir o adeus do português na minha língua.

Os labirintos de Ichon-Qala me levaram a encontrar os australianos com quem compartilhei o táxi de Bukhara até Khiva. Esperava que pudessem lançar um pouco de luz sobre o mistério do taxista que não me cobrou nada por uma jornada de 5h pelo deserto. Não ajudaram muito. "Como? O quê? Como assim você não pagou? O taxista não disse nada. Parecia apressado. Depois que você se separou da gente, ele nos levou para outro lugar, arranjou outro taxista para nos levar para Khiva e desapareceu. Não falou nada de você. Não parecia com raiva", disseram. Me senti aliviado. Tudo indicava que ele simplesmente havia esquecido mesmo de mim em meio a uma emergência. Minha culpa se dissipou um pouco, mas continuei com a doída impressão de que havia roubado o dinheiro da corrida.

Decidi caminhar um pouco com meus companheiros de viagem, como fizera antes com a norueguesa e seus amigos. O australiano, agora bem acordado, parecia empolgadíssimo com o tesouro ao seu redor. Falava bem mais que a mulher, que parecia estar mais preocupada em ajeitar seu chapéu para se proteger do sol. Conversamos um pouco sobre a história de Khiva, e o homem parecia conhecer tão bem a maldição deste lugar quanto eu.

A cidade tem uma pegada história relativamente humilde em relação às outras pérolas da Rota da Seda no Uzbequistão. Não que não seja antiga, mas sua importância, além de como um obscuro oásis à beira dos desertos da Corásmia (como se chama historicamente esta região do Uzbequistão), vem do século XVI apenas. A lenda de sua criação remonta aos tempos bíblicos: diz-se que Sem, filho de Noé, após perambular pelo deserto, fundou o assentamento. Pertenceu ao império dos Khoresmshahs, devastado por Gengis no século XIII. Na chegada do mongol, os khoresmshahs tinham sua capital em Konye Urgench, hoje um conjunto de ruínas que espero visitar em breve do outro lado da fronteira, no Turcomenistão. Uma vez que Konye Urgench foi destruída, Khiva ganhou projeção. A partir de 1511 se tornou a capital do khanato com o nome da própria cidade. Daí vieram as maravilhas arquitetônicas de Ichon-Qala, até hoje de pé para tirar o fôlego dos viajantes. Distante de tudo, Khiva se beneficiou do isolamento. As areias dos desertos ao redor ajudaram a preservá-la, embora boa parte de seus monumentos já tenha sido pesadamente restaurada.

Paramos no portão leste de Ichon-Qala, na saída diametralmente oposta à principal, monumental, usada por quase todos os turistas que chegam com os ônibus de excursão.

O portão é um túnel, na verdade, um túnel de uns 30 metros de comprimento; e, dentro dele, há abóbadas e nichos nas paredes. Isso já indica que ele tinha uma função comercial, como os pequenos mercados com abóbodas perto da Labi-Haus em Bukhara. Estranhamente, porém, neste caso os nichos não estavam ocupados por vendedores de bugigangas. Talvez por um sinal de respeito. Era aqui que, até o início do século XX, se realizada talvez o mais famoso mercado de escravos da Ásia Central, a face de uma atividade bastante lucrativa para os nômades do deserto, especialmente de tribos turcomenas, predadoras de quem se atrevesse a cruzar suas areias. Além de simplesmente ser difícil de se alcançar por causa dos desertos ao seu redor, Khiva teve por séculos e séculos a proteção involuntária desses caçadores de seres humanos que alimentavam um temor que ia muito além das fronteiras da Ásia Central e que, diz a história, foram a desculpa usada pelos russos para começar a cravar suas garras de urso sobre esta região, trazendo para o czar os domínios dos khanatos entre o Syr Darya e o Amu Darya.

Durante sua tumultuada história, o khanato de Khiva, que durou até 1920, sempre teve uma relação muito difícil com seus temíveis vizinhos mercadores de gente, que ocupavam não apenas os desertos (do Karakum, ao sul, do Kyzylkum, ao norte), mas também montavam acampamento às margens do Amu Darya e ocupavam os oásis. Periodicamente, o rei de Khiva conseguia trazer para si a lealdade deles. Exigindo pagamento de impostos por parte dos nômades, o monarca lhes oferecia proteção e garantia seus direitos. Mas os arranjos nunca duravam muito tempo, os nômades não aceitavam se submeter e acabavam atacando Khiva. Tendo em vista a ameaça que representavam, e também a rivalidade com o vizinho khanato e depois emirato de Bukhara, no século XVIII o monarca de Khiva teve a ideia de convidar o czar a adentrar a região, oferecendo submissão à coroa em São Petersburgo em troca de proteção.

A chegada dos russos se deu em agosto de 1717. A infame história é uma das primeiras do agora clássico livro The Great Game ("O Grande Jogo"), do britânico Peter Hopkirk, a obra que se propôs a ser o guia definitivo da disputa geopolítica pela Ásia Central até o fim do século XIX. Segundo conta Hopkirk no livro, Pedro, o Grande, recebeu o pedido do rei, mas demorou para responder, ocupado com outras coisas que julgava mais importantes (como, por exemplo, a construção de sua capital, São Petersburgo, fundada em 1703), mas, enfim atraído pela possibilidade de ter um posto avançado perto das riquezas da Índia, em uma região por si só com lendárias riquezas, despachou um grupamento de 4 mil homens para a extremamente perigosa viagem até o distante oásis. O grupo seria liderado por um nobre, Alexander Bekovich. Lá chegando, foi recebido pelo monarca do lado de fora das muralhas. O rei, mostrando-se simpático, disse a Bekovich que infelizmente não seria possível acomodar todos os russos dentro das muralhas de Ichon-Qala; pediu que os visitantes se dividissem em grupos menores para que pudessem ser acolhidos nas moradas dos locais ao redor da cidadela. Bekovich aceitou.

Então, veio a traição sanguinária, uma violência inimaginável e difícil de compreender:

Entre os primeiros a morrer esteve o próprio Bekovich. Ele foi detido, despido se seu uniforme e, sob o olhar do Khan, brutalmente golpeado até morrer. Finalmente, sua cabeça foi separada do corpo, preenchida com palha, e exibida (...) à multidão jubilante. Enquanto isso, as tropas russas, separadas de seus oficiais, estavam sendo sistematicamente chacinadas. (...)
- Peter Hopkirk, The Great Game (1994)

Aparentemente, a decisão de massacrar os russos se deu por uma mistura de ingenuidade em relação aos russos (considerados, talvez, fracos e inofensivos pelo rei) e de desejo do monarca de intimidar o rival khan de Bukhara. A cabeça de Bekovich foi enviada a Bukhara como um recado, uma prova de sua extrema violência. Entretanto, o emir fez questão de devolver ao inimigo o presente macabro. Não queria fazer parte de tal maldade, talvez já previsse a ira que recairia sobre o soberano de Khiva (quem sabe, conhecesse a história de Otyrar e da chegada de Gengis Khan à Ásia Central após emissários seus serem cruelmente assassinados). Devia saber que era questão de tempo até que os russos buscassem vingança.

Lembrando dessa história, o australiano tirou seus óculos escuros, afastou o chapéu de abas longas da testa e esfregou o suor. Então, foi para o lado do outro império do Grande Jogo. Iniciou uma interessante digressão sobre o papel dos britânicos na eliminação do comércio de escravos em Khiva. Em particular, lembrou de James Abbott e Richmond Shakespear, dois brilhantes atores do Grande Jogo com um legado que poderia, em primeira análise, ser considerado paradoxal. Representando os interesses da coroa em Londres, eles salvaram os russos que estavam acorrentados no mercado em Khiva. Ou seja, ajudaram o império rival.

Em 1840, a coroa havia enviado a Khiva o capitão Abbott com o intuito de estabelecer relações amistosas com o Khan e, assim, evitar que os russos pudessem criar no khanato justamente o que almejavam na fracassada missão de 1717, um protetorado. A ideia era simples — reiterar ao khan o perigo representado pelo vizinho do norte, revelar que ele preparava uma invasão e eliminar a principal desculpa que os russos teriam para a ofensiva, a existência de russos entre os escravos à venda no mercado em Khiva. Os britânicos se apresentariam como neutros, confiáveis, excelentes aliados frente ao perigo russo. Entretanto, como nenhuma notícia sobre Abbott havia chegado aos ouvidos dos seus oficiais meses após o início de sua aventura em Khiva (o que despertou o temor de um novo massacre como o de 1717), foi decidido que Shakespear (uma vogal a menos que o famoso bardo) seria enviado ao oásis também. Depois ficaria claro: Abbott estava vivo, mas havia fracassado em sua missão. O khan não aceitara liberar todos os escravos russos; em vez disso, oferecera a Abbott alguns e o enviou na longa jornada até São Petersburgo com uma carta endereçada ao czar para propor a libertação de escravos em troca da libertação de prisioneiros de Khiva nas mãos dos russos e da desistência dos russos de lançar qualquer ofensiva contra o khanato. Em uma jornada de grandes perigos, em que quase morreram nas mãos de ladrões cazaques e não conseguiram mandar notícias de seu paradeiro, Abbott finalmente alcançou a corte do czar, mas não conseguiu a paz e o compromisso de que os russos ficariam longe de Khiva.

Quem conseguiria seria finalmente Shakespear, um ambicioso adido político da embaixada britânica em Herat (Afeganistão). Enquanto Abbott estava seguindo para a Rússia, Shakespear chegava ao khanato. Não se sabe ao certo o que ele fez, mas ele conseguiu convencer o monarca a liberar todos os cativos russos — 416 no total. Certamente tinha uma lábia fantástica, mas talvez o khan tivesse então dado ouvidos à razão em vista dos insistentes alertas britânicos. Novamente, enfrentando grandes perigos, como Abbott, Shakespear liderou depois uma caravana para levar todos os ex-cativos para Fort Alexandrovsk, uma base do império russo na costa do Mar Cáspio. Avançaram pelo deserto em uma região pouquíssima conhecida por qualquer ocidental, confiando, e muito, na sorte e no poder de intimidação de suas armas para afastar os saqueadores das areias.

Muito do que diz Hopkirk é significativamente exagerado para reforçar a glória daqueles oficiais do império britânico, talvez os originais James Bonds; nunca saberemos ao certo a verdadeira dimensão de seus feitos. Mas, independentemente da fantasia e do entretenimento que proporcionam os relatos, foram com certeza esses oficiais, do lado britânico e do lado russo, que criaram as fronteiras entre o que foi a Ásia Central soviética, as cinco repúblicas atuais, e o resto da Ásia.

Eu e os australianos nos despedimos voltando para dentro das muralhas. Foi de comum acordo, queriam ficar sozinhos e eu também, eu queria liberdade para perder meus pés entre os cantos da cidadela. Mas... pela terceira vez seguida, não era o momento. ML apareceu de uma ruela no momento exato em que os australianos e eu nos separávamos. Eu ia seguir justamente pela via da qual ela vinha. Ela me acenou e sorriu, um sorriso calmo. Usava chapéu azul escuro, um vestido florido e a bolsa a tiracolo. Havia chegado no mesmo dia, saindo de Bukhara bem de manhã. Disse a ela, gracejando, que só estava esperando que ela aparecesse. "Aqui estou. Para onde vamos?", me respondeu.

ML está viajando realmente com muito pouco dinheiro, tão pouco que me espantei. Disse que, como eu, havia decidido não pagar a cara entrada para Khiva. Embora seja gratuito passear pelas ruas e respirar o ar dos monumentos, a maioria dos prédios históricos de Ichon-Qala tem entrada paga. É possível comprar um passe único para ver todos, 60 mil sums (cerca de US$ 6), ou entradas individuais, o que pode sair bem mais caro. Vale a pena pagar o ingresso geral e fiz isso em 2003, mas, no meu caso, decidi não pagar de novo para me dedicar mais a passear pelas ruas e encontrar o que não tinha visto da primeira vez. ML, porém, não tinha essa escolha. Seu dinheiro contado, disse, permitia que ela visitasse quem sabe um ou outro monumento individualmente, pagando só por eles. Me perguntou onde lhe recomendava ir. Não titubeei. Era de graça, ainda por cima, e estava perto.

Novamente, o mausoléu de Pakhlavon Makhmud me deixou com o queixo no chão. Sem dúvida, o local mais bonito de Ichon-Qala, a joia da coroa de Khiva, um locais mais maravilhosos do Uzbequistão. Entrar no mausoléu voltou a me acelerar o coração a ponto de simplesmente ignorar ML, levando-me a pisar no decoro e no cavalheirismo, passando em sua frente na entrada do complexo. Sem problemas. Olhei para trás, ela também olhava para as paredes e para o teto, cada milímetro deles coberto de mandalas de azulejos azuis. Ela também nem percebia minha existência.

Pakhlavon Makhmud, tido como o "santo padroeiro" de Khiva, foi uma figura muito interessante, multifacetada. Nascido perto de Khiva, viveu nos séculos XIII e XIV e em sua jornada se tornou um lutador de renome, mas também era um poeta e um sufi. Interessante que seus poemas são classificados por alguns como "antirreligiosos", o que torna uma ironia que a ele tenha sido dedicado um mausoléu visitado por centenas de fiéis diariamente para preces e pedidos de bênção. A beleza da estrutura é atribuída a um dos khans de Khiva, Mohammed Rahim, que no século XIX decidiu investir no embelezamento da tumba, até então humilde, e também transformá-la em um jazigo familiar. Sobre o local de descanso de Makhmud, foi erguida a única cúpula azul estilo timurida de Ichon-Qala. A tumba do khan Mohammed Rahim, com todos os preciosos azulejos cobrindo as paredes, é a primeira que pode ser vista ao se entrar no complexo. A de Pakhlavon Makhmud, de propósito ou não, parece ter sido escondida por ele; é preciso entrar por uma saída da sala inicial e procurar. Como era costume na época (tanto em Bukhara como em Khiva) o sufismo era uma fonte de prestígio e apoio para os monarcas. Pakhlavon Makhmud era seguidor de uma irmandade e seu mausoléu também atraia os seguidores da mesma, assim que o investimento do monarca lhe rendeu um precioso apoio político. Com o passar do tempo, khans descendentes de Mohammed Rahim foram sendo enterrados no complexo e, do lado de fora dele, outras tumbas, de pessoas ricas interessadas em ter seu descanso final abençoado pelo santo, também foram sendo construídas.

O complexo é uma demonstração de riqueza dos reis de Khiva. Um exercício de opulência. Nas paredes, a sutileza das linhas, o jogo entre tijolos azuis e brancos esmaltados, as misteriosas palavras em alfabeto árabe. O tabuleiro decorativo subindo pelas superfícies das tumbas. O frescor reconfortante, como se o ambiente inteiro, com seu teto alto, fosse uma grande piscina de água fresca no meio deste deserto.

Pensando bem, o local todo, passado o transe inicial de revê-lo nesta segunda vez, causou-me uma sensação contraditória. Uma beleza imensa, mas, ao mesmo tempo, uma manifestação imensa de ostentação. Não é algo que senti tanto em outros monumentos arquitetônicos do país. O mausoléu deve ter representado um gasto absurdo, talvez, sobretudo para ser mais um recado do khan de Khiva ao khan de Bukhara, como fizera o monarca de Ichon-Qala ao enviar ao vizinho cabeça do russo Bekovich. O luxo também pode ser interpretado como um recado aos inimigos mais distantes, no sul, o Irã. A Ásia Central foi, a partir do século XVIII, alvo de invasões dos persas safávidas, xiitas, mas resistiu como bastião isolado do sunismo. Nos relatos de viajantes, chegavam à Corásmia as descrições dos divinos monumentos em Isfahã ou Shiraz. Além disso, curiosamente a Pérsia também clama para si o local de descanso final de Pakhlavon Makhmud; na cidade iraniana de Khoy, há outro mausoléu. Os khans de Khiva reforçaram sua narrativa paralela e investiram para transformar seu mausoléu do lutador-poeta em uma joia sem par, tentando ofuscar qualquer tesouro dos rivais persas. Vieram os soviéticos, e estes pos sua vez se esforçaram para tirar do local qualquer conotação religiosa. Em 1959, o mausoléu seria oficialmente fechado aos peregrinos, sendo transformado em local onde os cidadãos podiam ouvir palestras contra a religião (em consonância, ironicamente, com a interpretação que alguns fazem dos poemas de Makhmud). Em 1979, passaria a abrigar o Museu de História Revolucionária da Corásmia. Após a independência, com o renascimento do interesse pela religião em toda a Ásia Central, voltaria a sua função original, talvez mais forte do que nunca, recebendo quase tantos fiéis quanto turistas — algo raro no centro histórico de Khiva.

Perdi-me brevemente de ML quando me sentei para ouvir uma prece de um mulá do mausoléu, com sua voz ecoando pelo teto. A reencontrei do lado de fora. Ela apenas sorria. Nem lhe perguntei o que tinha achado.

Seguimos pelas ruelas. A alemã continuava com seu jeito tranquilo, como se a vida fosse cuidar de todos os detalhes de sua jornada pelo Turquestão. Paramos e sentamos num degrau ao lado de uma madrassa, em uma sombra, para tomar água. Tirou o chapéu azul suado, retirou uma garrafa plástica da bolsa e, embora estivesse "morrendo de sede", tomou apenas um gole e me ofereceu.

— Como você vai para o Aral? — perguntei.
— Não sei direito.
— Eu vou para Nukus primeiro.
— Eu também, é no caminho.
— Onde vai ficar?
— Sei lá, conhece um albergue?
— Não, vou ficar em um hotel... chamado Rota da Seda, se não me engano.
— Eu li sobre esse hotel. Caro demais. Deve ter alguma opção. Chegando lá eu vejo.
— E o Aral?
— Ah, isso eu já sei. Vou pegar um ônibus ou lotação. Para Moynaq.

Moynaq é a capital informal da região do Mar de Aral no Uzbequistão. Era o principal porto quando o mar ainda não tinha começado a encolher, mas é um lugar pequeno. Sugeri a ML que considerasse alguma outra forma de visitar a região para ver o que restava do Mar de Aral. Falei sobre os turistas que havia encontrado antes dos australianos e a proposta de viajar com eles.

— Isso seria o ideal para você... dividir a viagem com eles. Vamos ver se encontramos eles de novo.
— Mas quanto eles queriam? — perguntou, afastando a franja ruiva da testa com um movimento rápido da cabeça para a esquerda, para o lado oposto de onde eu estava sentado.
— Falaram de US$ 100.
— US$ 100? Eu não tenho US$ 100...

Não uma resposta em tom indignado pelo preço, mas, sim em tom de resignação. Lhe falei do meu passeio, reservado, a partir de Nukus. Mais, bem mais de US$ 100. Prometi a ela que iria conversar com os organizadores e tentar oferecer a ela um bom desconto se estivesse interessada. Seu sinal de obrigada com a cabeça, um obrigado em voz baixa, mas firme, seu olhar desviado para a esquerda, por fim me indicou tudo. Não era, afinal, o dinheiro o problema. Nem mesmo o problema era seu desejo de não ter minha companhia. Não, parecia não ter nenhum desprazer de passear comigo. Mas estava fazendo aquela viagem, sob aquelas condições espartanas, com um outro objetivo muito maior do que explorar a região ou fazer amigos. Para provar algo a si mesma. Provar que poderia viver cada dia, resolver os problemas sozinha, e viajar com o mínimo possível.

Secamos a garrafa com a ajuda de um vento forte e quente que soprava em rajadas empoeiradas a intervalos de dois ou três minutos. Impossível viver sem óculos escuros, para se proteger da luz e também da poeira. Vinham se acumulando algumas nuvens no alto, mas, com o sol ainda forte, decidimos caminhar para outro canto de Ichon-Qala.

Disse a ML sobre uma dívida que tinha desde a primeira visita a Khiva — eu queria subir o minarete mais alto do Uzbequistão, o Islom Khodja, com 57 metros, uma linda torre com um formato levemente cônico e sucessivas linhas de azulejos entremeadas com o tijolo aparente. Eu não tinha ideia, mas também era necessário pagar, e, no caso, o que me pareceu uma fortuna apenas para escalar as íngremes escadas internas e apreciar a vista na estreita câmara no alto. Certamente o preço teria sido o motivo que eu decidi não subir em 2003 (a visita ao minarete, pelo jeito, não estava incluída no ingresso geral de Ichon-Qala), mas, nesta vez, eu não deixaria a oportunidade passar. Convidei ML, argumentando que, apesar do preço, a ponta da torre era visível de toda Ichon-Qala e deveria ter uma vista linda. Ela não pareceu convencida. Me disse que subisse, que me esperaria e que, quando eu voltasse, se valesse realmente a pena, ela poderia mudar de ideia. A deixei acenando ao lado da guardiã do minarete, a senhora encarregada de vender as entradas.

A subida tradicionalmente claustrofóbica dos minaretes antigos. E, em cima, uma vista que não decepcionou, permitindo ver bem os limites de Ichon-Qala e da Khiva moderna. A vista mostrou claramente quão perto a cidade é do deserto ao redor. Em um dos lados, via-se só deserto, era o território onde um dia os nômades caçadores de escravos eram os senhores absolutos. Mas, naquele momento, nem parecia que eu estava num deserto. As nuvens no alto continuavam se acumulando, trazendo vento cada vez mais forte. As rajadas tinham uma textura que me lembravam as dos ventos de beira-mar no Brasil, chicoteando repentinamente. Refrescante. Era como se o deserto ao redor fosse o mar, Khiva, uma ilha, e o minarete, um farol. No mar, o vento causava ondas assustadoras. Perto da muralha de Ichon-Qala, surgiam redemoinhos, línguas de poeira, vórtices que desapareciam tão repentinamente quanto surgiam. Levantava-se a areia no ar, um efeito cegante. Khiva deve enfrentar frequentemente o flagelo das tempestades de areia que espalham o sal trazido do leito seco do mar de Aral, tornando a terra infértil, castigando a pele, tornando os jovens, velhos, e os velhos, zumbis.

Quando desço, ML tinha desaparecido.

Sozinho de novo, por fim, aproveitei que a chuva ainda não era certa para caminhar nas muralhas de Ichon-Qala, lindas de se ver, reconstruídas e reformadas, mas geralmente negligenciadas pelos turistas com tempo restrito no oásis. Foram construídas a partir do século XVII, sendo reparadas e refeitas várias vezes desde então. Pensei que seria fácil subir e fazer a caminhada de todo o perímetro de Ichon-Qala por ela, mas logo percebi que não. Havia pontos de entrada, mas a muralha estava longe de permitir uma volta completa. Além disso, era imperfeita — havia trechos com buracos, vãos, momentos em que é estreita demais. E trechos onde simplesmente não era possível continuar.

Indo pelo alto da muralha, encontrei um dos vértices da velha Khiva. Neste ponto, não havia absolutamente ninguém. Ficava ao lado de uma das áreas residenciais de Ichon-Qala. Por lá, junto ao muro, havia dois mausoléus bem simples. O primeiro era uma casinha que estava fechada, de tijolos, nada de especial. O segundo estava marcado com mastros com bandeiras, nada mais que pedaços de pano comuns, coloridos. Provavelmente esse, pelos mastros, guardava os restos de algum santo sufi. Os dois estavam cercados de tumbas em diversos tamanhos, em seus formatos tradicionais, como baús feitos de tijolos, com a parte superior arqueada e sem nenhuma identificação. Era um cemitério que surgiu espontaneamente, erguido por fiéis que, ao longo dos anos, desejaram descansar ao lado do inspirador bem-aventurado. As tumbas começavam no chão e iam subindo, nível a nível, até chegar ao caminho por onde eu seguia, no alto da muralha. O efeito da geometria me enfeitiçou, a geometria das tumbas e, no meio delas, os mastros, indicando o centro do complexo. Parecia uma grande colmeia na qual cada tumba era um dos hexágonos feitos pelas abelhas e, no centro, ficava o local que abrigava abelha-rainha. Qual o nome do santo sufi aqui enterrado? Por que ele está aqui? Por que seu mausoléu é tão simples? Nada no meu guia. Ninguém para perguntar. Talvez ninguém saiba ao certo.

A caminhada pelo alto do muro acabou aí, em um ponto por onde não dava mais para passar. Sentei e fiquei contando os hexágonos da colmeia. Passei meia hora fazendo isso, completamente em paz.

A chuva por fim não veio, e o sol descoberto foi ficando doce.

Havia estado em Khiva 15 anos antes. Agora, havia visitado outra Khiva.

E, a partir de amanhã, só vou passar por lugares onde nunca, jamais estive antes.

Khiva, 20/8, 9h30

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Novas Fronteiras é um diário de uma viagem feita em 2018 a três países da antiga URSS na Ásia Central — Uzbequistão, Tajiquistão e Turcomenistão. Novos capítulos são publicados neste blog uma vez por semana, aos domingos, e seguem ordem cronológica. Novas Fronteiras é parte de um projeto maior que inclui outros diários de viagem pela Ásia Central publicados neste blog pelo autor, que tem viajado regularmente à região desde 2001. O objetivo do projeto é apresentar um panorama detalhado e em profundidade das sociedades dos países da antiga URSS na Ásia Central, em um processo de busca e exploração em que o autor executa uma viagem simultânea, de autodescoberta e entendimento do universo centro-asiático como espelho de sua própria existência.

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Saturday, 1 April 2023

Novas Fronteiras (XVII) - Khiva, Uzbequistão



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18/8/2018

De noite, na penumbra, as crianças se reuniam ao redor da bola. Era uma gritaria, uma confusão. Quase não dava para ver a bola sendo passada rapidamente de pé a pé. Um lado do pequeno quintal com chão de tijolos estava um pouco iluminado, o outro, completamente às escuras. Havia um moleque de uns sete ou oito anos e outros mais velhos, com uns 14.

De repente, o menor, empolgado, chutou forte a esfera. Ela pegou em cheio na cabeça de um dos maiores. A bola então subiu alto. O menino atingido ficou por uns segundos desnorteado, bambo, ameaçando desabar. Mas em seguida começou a rir, olhando para o franco-atirador. Todos os meninos riram. Eu também.

Bem ao lado do campinho, uma monumental muralha, a formidável proteção de uma cidade que, um dia, foi capital de um cruel reino, o cenário de um dos maiores e mais temidos mercados de escravos da Ásia Central. A cidade que, um dia, foi um lugar tão distante e impossível de se chegar, tão malfalado, que poucos do resto do mundo se aventuravam pelos desertos que a cercam para alcançá-la e vê-la com os próprios olhos.

De sanguinária e assustadora... a campinho de pelada.

O bate-bola ocorreu em Ichon-Qala, a cidade velha de Khiva. Lembro que, quando estive aqui na vez anterior, há 15 anos, meu livro-guia dizia que Ichon-Qala, uma cidade-museu a céu aberto, separada pela muralha do resto (moderno) de Khiva, era um lugar morto. O livro dizia que tamanho esforço de restauro e preservação do patrimônio arquitetônico e de atrair os turistas fez com que a vida fosse "espremida" das muralhas na cidade velha. O mesmo ecoava o escritor Colin Thubron em sua aventura em Khiva:

Quando eu cheguei à cidade, era como se o ar tivesse congelado o lugar. Ele fora restaurado pelos soviéticos sem dó, sua vida fora lavada, dentro de suas muralhas, senti eu, nada nunca aconteceu nem aconteceria. O lugar parecia ter sido criado em um instante, sem um passado (...) Tudo estava sob cuidados, higienizado. Sobre o absoluto tom cáqui da madrassa, os azulejos verde-azuis brilhavam, raros e repentinos. Ninguém estava rezando nos museus-mesquitas. Apenas os ladrilhos que faziam o piso das ruas, gastos como os de Pompeia pela passagem das rodas de ferro das antigas carroças, traía a percepção de que alguém, algum dia, vivera aqui.
- Colin Thubron, The Lost Heart of Asia (1994)

Hoje, 2018, o que vejo: isso não é totalmente verdade. Porque aqui não faltam moradores. Moleques peladeiros vivem aqui, com seus pais, tios, primos. Não falta vida em Ichon-Qala, e, certamente maravilhado na minha primeira vista em 2003 com as pérolas arquitetônicas do oásis, eu sequer percebi isso. Mas, como em Samarkand, para ver a vida é preciso se afastar da rua principal, à qual todos os turistas são guiados naturalmente ao atravessarem o portão principal. Nessa rua, o que se vê é uma sequência de barraquinhas e se fala mais inglês que russo ou uzbeque. Há bugigangas diversas para o turista comprar e dizer que esteve em Khiva. Tudo limpo e perfeito, como gosta de ver o governo uzbeque, para agradar o turista que eles consideram certo, o que tem uma volumosa carteira. Ao redor da rua, os mastodontes arquitetônicos, absolutamente deslumbrantes, são totalmente dedicados à exploração turística, apenas carapaças, testemunhas de um mundo muito diferente que não existe mais. Já era assim há 15 anos, e, de fato, como diz Thubron, tudo ficou congelado pelo ar. Nessa área turística, as crianças não jogam bola. No entanto, basta pegar uma rua lateral. Em Khiva, ainda não fizeram (e me aliviei em nem ver sinais de que se planeje fazer), como em Samarkand, um portão separando a área turística da área onde moram as pessoas, que olham curiosas da porta de suas casas quando algum forasteiro perambula fora do espaço esperado. Os moradores nesses casos às vezes nem conseguem controlar a tentação de dizer aos visitantes "você tem que ir para lá, lá é onde estão os monumentos!".

Preferi admirar o imenso minarete Kalta Minor à distância quando ele apareceu no meu campo de visão ao levantar o olhar procurando a bola que bateu na cabeça do moleque e subiu.

Estava em um bom mirante. Procurando um lugar para jantar, no limite entre a área turística e a bagunça adorável do setor vivo de Ichon-Qala, encontrei um restaurante. Subi em um terraço, e do terraço se vê o Kalta Minor, a muralha e o futebol que já estava acontecendo na praça ao lado quando cheguei. O sol ainda estava no céu, mas se despedindo. Tudo era dourado, depois tudo ficou vermelho, depois rosa, a luz se fez fugaz entre as pontas da muralha, se refletindo e se misturando ao azul dos azulejos do minarete. A algazarra da criançada jogando era a única trilha sonora.

Uma repentina sensação de existência humana que continua, que se reinventa e prossegue.


* * *

A viagem de 2003 está constantemente em minha cabeça e mais uma vez ressurgiu, vívida, quanto nesta tarde deixei Bukhara para trás a caminho de Khiva. Há 15 anos, visitei o deserto entre os dois oásis de madrugada e no sentido contrário, saindo de Urgench, ao lado de Khiva. Foi uma experiência verdadeiramente apavorante. O motorista parecia cansado, na estrada não havia iluminação e o asfalto estava mal conservado, uma tempestade se aproximava com raios e trovões. E o carro quebrou no meio do nada. Desta vez, para evitar encrencas, decidi fazer a jornada de Bukhara a Khiva durante o dia, com um motorista de táxi compartilhado bem descansado. Ele ficou feliz de me vez e nem se importou em negociar o preço. Comentou que, em breve, não esperava fazer mais regularmente a viagem para o oeste levando visitantes, como há anos fazia. O governo estava terminando a implantação do trem para turistas. Com a inauguração, será possível ir de trem de Tashkent até Khiva, como já se pode ir para Samarkand e Bukhara. Cada vez mais o Uzbequistão se torna um destino mais confortável para qualquer um que se atreva a conhecê-lo, o que tem lados negativos e positivos (sendo esse, do trem, muito positivo no meu entender). Senti uma autonostalgia da aventura arrepiante de 2003. Agora seria, provavelmente, minha última vez enfrentando a estrada entre Bukhara e Khiva.

Se a jornada de dia tinha boa visibilidade, tinha também, por outro lado, o calor horroroso do deserto. Se o asfalto fora arrumado e a estrada estava boa, havia o problema da tentação da velocidade excessiva em uma pista única para veículos nos dois sentidos. Comigo no carro estavam um casal de turistas australianos de meia-idade e uma moça praticamente muda, muito jovem, com aparência russa. O homem do casal de australianos ia na frente, sentado ao lado do motorista. Estava quieto, sossegado. A mulher dele, ao meu lado, no centro dos bancos de trás, estava permanentemente tensa, olhando para o velocímetro. Estava tentando se controlar, mas lá pelo centésimo quilômetro cortou com sua voz o barulho do vento entrando pela janela. "Estou vendo daqui, 120 km/h!", disse ela em inglês. O marido virou o rosto, olhou para trás, fez uma cara de quem estava sendo incomodado com tolices e voltou a seu estado semivegetativo. A moça que parecia russa não falou nada e não esboçou qualquer reação. Provavelmente nem sabia inglês.

Nisso, o motorista, após uma curva, ultrapassou sem pestanejar uma pequena van, enquanto que, não muito distante, vinha um ônibus no sentido oposto. Exímio piloto, terminou a ultrapassagem com precisão. Uns segundos e estaríamos mortos na colisão frontal com o coletivo. Foi de fato bem arriscado. "120 km/h. E vai na contramão!" esperneou a senhora com um tom de imensa incredulidade, com o coração saindo pela boca. O marido estava dormindo.

Eis que, então, o motorista, que continuava completamente alheio ao casal e a mim, tirou do bolso o celular. Teclou um número e começou a falar com alguém. E ficou contrariado com esse alguém, passou a falar alto, mexendo a cabeça, gritando, depois voltando a falar em tom normal, e depois gritando de novo. Foi falando, uma longa conversa. Uma mão no volante, outra, segurando o aparelho. De fato, era um piloto muito habilidoso. "120 km/h, vai na contramão... E FICA FALANDO NO CELULAR!", enlouqueceu a senhora, olhando agora para mim, como se pedindo que eu fizesse algo.

Sim, respondi. Isso era muito ruim, disse, quase tão ruim quanto o calor horroroso. Eu estava, aliás, completamente encharcado (de novo, como de costume nesta viagem, difícil me acostumar). "Por que ele não fecha a janela e coloca o ar condicionado?", questionou a mulher. Sim, o carro tinha ar condicionado, dava para ver no painel. Disse a ela que iria pedir ao motorista que pelo menos nos concedesse essa graça.

Porém, antes que eu pudesse pedir, o piloto, que finalmente havia desligado o celular, tirou do bolso da camisa um maço de cigarros, acendeu um, deu uma longa tragada e bufou a fumaça pela janela. Um pouco do cheiro azedo do tabaco chegou ao nariz da mulher. "Agora sabemos por que não coloca o ar condicionado, ele tem que deixar a janela aberta ou nós morremos asfixiados..."

A viagem foi longa, umas cinco horas. E nessa odisseia chegou um momento de tudo ao mesmo tempo: cigarro, celular com gritaria, 120 km/h, ultrapassagem pela contramão com ônibus vindo no sentido contrário. A mulher, coitada, já estava com os olhos fechados há um bom tempo, tentando se transportar para uma praia no Caribe. E eu, bem, só sorria e lembrava da noite em 2003. Ah! Aquela vez foi bem pior!

Nos momentos tranquilos, com todos em silêncio, eu mergulhava em divagações mais profundas sobre o passado, o presente e o futuro.

Em um desses momentos, vi caminhões estacionados e operários trabalhando, e em alguns trechos a estrada já estava duplicada. É questão de tempo até que as novas pistas estejam totalmente prontas. Não é só uma nova linha de trem que estão fazendo para unir Khiva ao resto do país. O boom de construção e reconstrução é um dos elementos que define o Uzbequistão atual, em sua busca da modernidade.

Outro elemento é a influência da China — frequentemente por trás também desse boom.

Os chineses, como os americanos e os russos, são os principais jogadores de um novo Grande Jogo, que tem semelhanças e muitas diferenças com o Grande Jogo original, a disputa geopolítica entre os impérios britânico e russo na segunda metade do século XIX pelo controle desta região. Se naquela época a sombra do colonialismo (britânico e russo) ditava o destino dos povos da região, hoje a dinâmica é diferente. Rússia, China e Estados Unidos buscam impor seu interesses oferecendo incentivos diferentes aos cinco países da região. O que ficou mais claro, desde as independências em 1991, é que esses países (ou, mais precisamente, suas elites políticas) têm, com uma incrível habilidade, sido capazes de jogar com esses interesses das grandes potências em benefício próprio. Isso foi ressaltado, por exemplo, durante a invasão americana do Afeganistão em 2001; o Uzbequistão e o Quirguistão ofereceram bases aéreas para uso dos militares a caminho do território controlado pelo Talebã, mas, com o tempo, o Uzbequistão, contrariado com as cobranças americanas em relação aos direitos humanos, e o Quirguistão, tentado pelo dinheiro oferecido pelos russos para que os EUA fossem colocados de lado, acabaram afastando os americanos de suas instalações aéreas. Grosso modo, os países centro-asiáticos, sabendo dos interesses das potências, jogam com esses interesses para obter o máximo ganho possível de quem quer que seja, algo que estava ausente na época do Grande Jogo original, quando eles eram um mero tabuleiro.

Mas a China é um jogador que tem se destacado desproporcionalmente nos últimos anos; enquanto os Estados Unidos desviaram seu foco para o interior de suas próprias fronteiras e a Rússia progressivamente enfrentou problemas econômicos e isolamento do Ocidente, a China têm prosperado economicamente e impõe suas vontades de uma forma muito mais discreta. A Ásia Central é foco de sua grande iniciativa chamada Nova Rota da Seda (Ou "Um Cinturão, Uma Rota" ou ainda "Iniciativa do Cinturão e Rota"), que pretende criar corredores para seus produtos chegarem mais rapidamente aos principais mercados consumidores do Ocidente. Como parte dessa visão, Pequim investe em imensos projetos de infraestrutura nesses países, o que por sua vez prende esses países aos chineses com dívidas cujo montante nem sequer é divulgado com transparência. Além disso, a China, interessada na estabilidade de suas fronteiras, preocupada com a possibilidade do extremismo em sua província mais a oeste (Xinjiang, que faz fronteira com Cazaquistão, Quirguistão e Tajiquistão), procura apoiar a estabilidade de regimes centro-asiáticos, decisivamente sem a preocupação em fomentar a democracia. Assim, a China é hoje um elemento importante no "congelamento" dos regimes, na continuidade das velhas elites políticas no poder dos países centro-asiáticos. Traz investimento, faz obras por todos os lados, empresta dinheiro e apoio a essas elites e em troca espera apoio geopolítico também, fortalecendo assim uma dependência cada vez mais clara.

O deserto passa pela janela do carro.

Ao sair de Bukhara, a mudança de cenário foi progressiva à medida que o carro se distanciava do vale do rio Zerafshan e se aproximava do mundo dominado pelo moribundo Mar de Aral. Primeiro, as plantações de algodão; depois, o deserto ocre, com arbustos, como os que vi ao redor de Nurata. Depois, finalmente, a explicação para o nome do deserto do Kyzylkum ("areias vermelhas"). A secura aparece aqui e ali em montes de solo fofo e avermelhado, entremeados por trechos planos onde persiste o mato rude, seco, espinhoso. A transição que ficou escondida na noite em 2003 se mostrou para mim claramente agora.

E de repente surgiu o poderoso Amu Darya, novamente o rio que encontrei há alguns dias em Termez. Aqui é igualmente amplo, mas raso; foi perdendo força e perderá ainda mais até o cemitério do Aral. Do outro lado do rio, lá longe, o Turcomenistão, que me atrai com um fortíssimo magnetismo. Onde estarei em breve. O último dos territórios da ex-URSS na Ásia Central onde jamais estive.

Chegamos a Urgench às 14h. É a maior cidade perto de Khiva e é quase certeza que qualquer ônibus ou táxi rumo a Ichon-Qala vindo de qualquer outro ponto no Uzbequistão passe por ela. Foi daqui que saiu o taxista de noite rumo a Bukhara em 2003, mas eu não reconheci absolutamente nada da cidade. O combinado com o taxista era que ele me deixaria em Urgench por 100 mil sums (aproximadamente US$ 10) enquanto que ele seguiria com os turistas australianos até Khiva por mais 20 mil sums. Cobrar 20 mil sums pela curta corrida de Urgench a Khiva me pareceu um abuso, visto que as cidades são bem próximas e bem conectadas. Eu tinha certeza de que conseguiria um ônibus ou táxi por bem menos que 20 mil para chegar a Khiva. Na negociação em Bukhara, o motorista pareceu um pouco contrariado comigo por eu ter me recusado a seguir juntamente com os australianos até Khiva, mas, após insistir um pouco, cedeu. Ao chegarmos em Urgench, ele parou o carro ao lado de uma grande avenida, em um estacionamento a céu aberto onde estavam outros taxistas e uns poucos clientes, e foi conversar com seus colegas de volante. O deixei à vontade, pois acreditei que, claro, ele viria falar comigo depois para acertarmos a conta da corrida.

Eu estava perdido. Não vi ao redor nenhuma placa de localização e não tinha comigo um mapa de Urgench. Enquanto tirava a mochila do bagageiro do carro, decidi pedir informações para a passageira com aparência russa do meu táxi, que estava de pé ao meu lado e iria também ficar em Urgench. Não, não era muda, e sim, não entendia uma palavra de inglês. Era na verdade búlgara de origem, mas havia casado com um homem que morava agora em Urgench. Ela estava esperando ele vir buscá-la.

Que tristeza aquela moça me passou. Eu não lhe dei mais que 16 anos. Era magra, branca, cabelos escuros, olhos arregalados, um jeito de cansada, com os ombros caídos, leves olheiras. Lenço violeta e branco na cabeça, vestido longo azul e preto, uma estrangeira assimilada pelo Uzbequistão. Falava bem baixo. Me compartilhou um pouco de sua odisseia da Bulgária para a Ásia Central, a sua vida resignada de servente de marido, sua nada empolgante espera para rever o seu senhor. Disse que não conhecia bem a cidade, para onde o marido havia se mudado recentemente, então não poderia me ajudar. Eu precisava saber onde pegar transporte para Khiva.

Nessa altura, estávamos numa sombra não longe do táxi que nos trouxe, lá fomos nos abrigar do sol forte. Deixei a mochila aos meus pés.

Completamente de surpresa, vejo o motorista entrar no táxi que nos trouxe e, sem sequer olhar na minha direção, sair dirigindo com os australianos. Pensei: deve estar indo estacionar o carro em uma sombra, pois os australianos estavam morrendo de calor lá dentro. Estava tão tranquilo e sem pressa que decidi que iria procurá-lo, se ele não me procurasse antes, só depois. Passaram-se cinco minutos e o marido da búlgara chegou freando seu carro com barulho à minha frente. Desceu do veículo e sem nenhum sorriso nem saudação endereçada a ela ou muito menos a mim, pegou a mala da moça, colocou no bagageiro, empurrou-a para dentro e entrou de novo no carro. Me despedi da pobrezinha, lhe desejei sorte. Ela acenou para mim.

Coloquei minha mochila nas costas e fui finalmente pela avenida procurar pelo taxista. Dobrando uma esquina, vi, bem perto, parado no meio-fio, embaixo do frescor de uma árvore, um carro idêntico ao táxi que eu procurava. Fui em direção a ele. Era outro carro.

O taxista havia desaparecido. Procurei ao redor, por toda parte. Voltei ao estacionamento. Nada. O sujeito pode ter sido um piloto suicida na estrada, um companheiro de estrada não muito agradável por seus cigarros e conversas gritadas no celular. Mas havia feito seu trabalho e me tratado bem. E eu não pagar pela viagem de cinco horas me pareceu muito injusto. Fiquei primeiro com raiva do motorista, depois triste por ele, depois tentei refletir racionalmente sobre o que poderia ter acontecido: E se eu entendi algo errado, que ele voltaria após meia hora para coletar meu pagamento? Não, não. Revisei com calma meu curto diálogo com ele em Bukhara. Só falamos sobre preço, sobre me levar a Khiva ou não. Nada de esperar meia hora. Mas, ainda assim, tirei a mochila e esperei. Mais meia hora. Os outros taxistas que lá estavam sumiram também, fiquei sozinho, engolido pelo ar fervente da tarde. E nada dele aparecer.

Estava me sentido um ovo cozido naquele sol. Paciência esgotada, coloquei de novo a mochila e simplesmente fui embora.

E veio o último sentimento: medo. O sujeito agora iria atrás de mim em Khiva, pensei. Iria me culpar, me dizer que eu o roubei, que eu não quis pagar pelo seu trabalho e esforço, que eu era um espertinho e um caloteiro desprezível, quem sabe iria insistir que eu paguasse muito mais do que o combinado. Iria me encurralar em um canto escuro de Ichon-Qala e enfiar um soco inglês em meu rosto acompanhado de dois brutamontes que odeiam estrangeiros para lhe dar apoio moral.

Despistei o medo. Me convenci que não havia o que fazer, que o motorista apenas e simplesmente havia esquecido de me cobrar. Coloquei a mão no bolso da calça, o dinheiro culpado estava lá, contado cédula a cédula, preparado para se separar de mim.

Cheguei em meia hora a Ichon-Qala (por 4 mil sums, que paguei por um táxi e uma lotação). Os cifrões que não eram meus pagaram o jantar maravilhoso no pôr-do-sol ao lado dos moleques jogando bola. Fiz um brinde ao motorista, desejando-lhe boa sorte e muito, muito dinheiro no futuro.

Khiva, 19/8, 16h05

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Novas Fronteiras é um diário de uma viagem feita em 2018 a três países da antiga URSS na Ásia Central — Uzbequistão, Tajiquistão e Turcomenistão. Novos capítulos são publicados neste blog uma vez por semana, aos domingos, e seguem ordem cronológica. Novas Fronteiras é parte de um projeto maior que inclui outros diários de viagem pela Ásia Central publicados neste blog pelo autor, que tem viajado regularmente à região desde 2001. O objetivo do projeto é apresentar um panorama detalhado e em profundidade das sociedades dos países da antiga URSS na Ásia Central, em um processo de busca e exploração em que o autor executa uma viagem simultânea, de autodescoberta e entendimento do universo centro-asiático como espelho de sua própria existência.

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Tuesday, 28 March 2023

Novas Fronteiras (XVI) - Bukhara, Uzbequistão



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O dia havia começado em busca de um tesouro perdido de Ulugh Bek, neto de Tamerlão.

Meu destino matutino era uma cidade perto de Bukhara, a cerca de 40 km dela, certamente não tão próxima quanto o local onde encontrei o Char Bakr. Para chegar, era necessário enfrentar estrada, novamente a estrada que eu tinha usado para vir de Navoi. A cidade se chamava Gidjuvon. De novo, absolutamente nenhuma palavra no meu guia sobre ela. A única coisa que eu sabia sobre Gidjuvon, a partir de pesquisas na internet, era que lá ficava a terceira madrassa construída por Ulugh Bek. Duas, quase todos os turistas que vêm ao Uzbequistão conhecem. A mais conhecida é uma das três do complexo do Registan, em Samarkand. A segunda, fica em Bukhara, entre a antiga fortaleza do emir e a Labi-Haus. Sobre esta terceira em Gidjuvon, eu nada havia lido a respeito, o que me estranhava bastante — como um importante resquício arquitetônico do período timurida pode não ser um local de visitação obrigatória para todos os turistas? Estaria o local destruído? Seria Gidjuvon um local perigoso, fora de alcance para estrangeiros?

Empolgante explorar. Mas a empolgação, no início, deu lugar à irritação. Por culpa minha.

As lotações para Gidjuvon saiam de um mercado chamado Karvon, um lugar imenso na periferia da cidade e de onde saiam quase todos os transportes rodoviários para outras cidades. Ir a pé do centro velho de Bukhara era impraticável e não quis pegar um táxi porque havia muitos ônibus circulando por perto, passando pelo centro histórico, com destino ao mercado. Peguei um deles num ponto ao lado da Labi-Haus. Na placa na frente do ônibus estava escrito "mercado Karvon". Sentei e relaxei. Nem me ocorreu checar se era realmente para lá que o coletivo se dirigia. É o tipo de coisa que é bem importante fazer na Ásia Central.

De fato, o ônibus ia para o Karvon. Mas na volta. Quando subi, ele se dirigia ao outro ponto final da linha. A placa no ônibus indicava o nome do mercado, mas esse era o nome da linha, que não mudava dependendo do destino. Como eu não sabia o caminho que o ônibus faria até o mercado, e como, além disso, eu não tinha pressa e estava com preguiça de ficar perguntando aos outros passageiros ou mesmo ao motorista, sentei-me num banco ao fundo e me deixei levar, olhando a janela, vendo o tempo passar. Meia hora, quarenta minutos, o ônibus foi se esgueirando por ruas labirínticas em uma zona rural. Ruas de terra, pequenas chácaras, casinhas humildes. Finalmente, o ônibus parou, chegando no destino final, e o motorista veio me perguntar por que eu não descia. Expliquei, ele riu e disse para eu esperar. Mais meia hora, o ônibus partiu de novo, mais quarenta minutos, finalmente eu estava no mercado. O motorista também me disse que, em linha reta, do centro de Bukhara, teria sido uma jornada de dez minutos.

No mercado, realmente grande, mais complicação. Nenhuma indicação sobre onde paravam as lotações para Gidjuvon (de novo, como no caso do mistério sobre o ponto de parada das lotações para o Char Bakr, tudo parecia ser feito de propósito para os turistas não usarem o meio mais barato para chegar aos locais de interesse). Após muito perguntar, encontrei a parada do outro lado da rua e nem sombra de turistas por perto. Ao subir na van, tive a já familiar sensação de ser visto como um alienígena pelos outros passageiros.

A jornada foi rápida, a toda velocidade. Fui desembarcado em outro mercado sem nada de mais, e o motorista, desconcertado com meu interesse pela madrassa de Ulugh Bek, apenas indicou por onde eu deveria ir caminhando, descendo uma avenida, num trajeto de uns cinco-dez minutos. Algumas lojas na avenida, fechadas para clientes, estavam sendo lavadas. As pessoas fazendo a faxina paravam para me observar passar, falando algo em uzbeque, imagino que se perguntando que diabos eu poderia estar fazendo ali.

Mais para a frente, no meu caminho, mas ainda a uns 100 metros de mim, na mesma calçada, vejo um grupo de uns três homens conversando em frente de uma loja. Um deles estava bem bêbado. Olhos vermelhos, pele suada, roupa suja. O sujeito me viu e imediatamente começou a gritar algo em russo em minha direção, mas sem sair do lugar. Bem hostil. "O que você está fazendo? O que você está fazendo aqui? Fora, fora daqui, aqui não é lugar para você."

Na minha cabeça, surgiram as memórias arrepiantes do incidente em Taraz, no Cazaquistão, em 2012, quando fui ameaçado e perseguido por um sujeito claramente embriagado e tive que implorar ajuda para alguém me esconder.

Olhando fixamente para o chão, segui em frente, ignorando o bebum, rezando em silêncio para que ele não me perseguisse e a madrassa chegasse. Calculei que aquela era apenas uma oportunidade para o sujeito alcoolizado exibir sua masculinidade aos outros colegas.

Os gritos eram altos. Passei ao lado de onde estavam. Senti o sujeito dar uns dois passos em minha direção. Parecia um cachorro latindo.

Não olhei para ele.

Ele continuou berrando. A voz foi ficando mais distante. Desapareceu quando, de repente, à minha esquerda, do outro lado da rua, surgiu um parque e, no fundo dele, não muito distante... uma cúpula azul.

A madrassa estava lá. Claramente, uma madrassa antiga, com a aparência, sim, semelhante às das madrassas de Ulugh Bek em Bukhara e Samarkand. Mas a cúpula azul não era da madrassa. O domo ficava sobre um telhado erguido imediatamente à frente do prédio, no alto de dez colunas de madeira esculpida, cobrindo um mausoléu marcado por uma tumba de mármore e inscrições em árabe estilizado. O conjunto estava sendo reformado, por isso estava cercado por tapumes de plástico branco, tonando impossível se aproximar para ver melhor a tumba. Havia muita gente por perto; um bom número delas estava parado em frente ao mausoléu, isolada pela barreira branca, rezando. Umas poucas pareciam entrar na madrassa, mas ela não era, claramente, a principal atração. Eu não tinha a menor ideia do que estava vendo do lado de fora do prédio. Felizmente, ainda no parque, havia uma placa em inglês e russo, colocada pelas autoridades para explicar as obras. Abdulkhalid Gidjuvoni (1103-1179?) era o ocupante do mausoléu.

O oásis de Bukhara, que inclui várias cidades, é conhecido por sua longa associação com as irmandades sufis, como ficou claro já na visita ao Char Bakr. A mais conhecida das irmandades surgidas por aqui é a influente Naqshbandi, cujo centro é um outro mausoléu, o de seu fundador Bahauddin — também não muito longe da Labi-Haus, mas longe o suficiente para estimular a preguiça dos turistas. Gidjuvoni foi o fundador de outra irmandade sufi, chamada Khojagan, que antecedeu e influenciou a Naqshbandi. Nascido na era de domínio dos turcos seljúcidas, que controlaram boa parte da Ásia Central a partir de sua capital em Merv por volta do século X, Gidjuvoni seguiu o caminho de outros sábios islâmicos da época. Viajou pelos territórios do império, chegou a viver na Síria, e, durante suas andanças, conquistou um grande número de seguidores para sua ordem sufi. Tamanha era sua fama que, após sua morte, seu local de enterro, na sua cidade natal, passou a ser um ponto de peregrinação. E os timuridas eram conhecidos patronos de santos sufis desde os tempos do próprio Tamerlão, que iniciara a construção do gigantesco mausoléu para Khoja Ahmed Yassawi na cidade cazaque de Turkistan, visitada por mim em 2012. No caso de Ulugh Bek, seu interesse pelas ciências o tornou um alvo fácil dos radicais religiosos da sua própria corte, que conspiravam contra ele. A construção da madrassa em Gidjuvon, em frente ao mausoléu, se deu entre 1432 e 1433. Com ela, como no caso das outras que construiu, o neto de Tamerlão esperava apaziguar a febre radical dos que achavam que ele não se interessava por religião.

Outro que procurou explorar a popularidade de Abdulkhalid Gidjuvoni, muito mais tempo depois da morte do líder sufi, foi Islam Karimov. O agora "santo" primeiro presidente do Uzbequistão visitou Gidjuvon em 2002, ano em que a cidade comemorou seus supostos 900 anos de existência. Para marcar a visita, a grande reforma de todo o complexo foi ordenada. A cobertura com colunas de madeira e a cúpula azul foram contruídos e elementos que haviam sido enterrados durante os anos soviéticos, como uma pequena piscina ao lado do mausoléu, foram recuperados.

A madrassa, simplesmente chamada de Madrassa Ulugh Bek, é pequena se comparada às erguidas pelo neto de Tamerlão em Bukhara e Samarkand, mas igualmente com o principal detalhe característico das outras: os mosaicos simples, feitos com azulejos em dois tons de azul. O pórtico é delicadamente trabalhado, mostrando o que aparenta ser ramos de plantas se entrelaçando, fazendo nós elegantes, desabrochando flores como mandalas.

Teorizei o motivo da raiva da qual fui alvo no caminho para cá. Para os mais puritanos, é uma alegria que este local seja pouco conhecido e assim pouco visitado pelos turistas estrangeiros e não muçulmanos. Afinal, diferentemente das outras madrassas de Ulugh Bek, a de Gidjuvon permanece recebendo serviços religiosos correntemente, grupos de oração, como uma mesquita. O local aliás faz parte de um roteiro religioso conhecido muito além das fronteiras uzbeques, um pequeno hajj que atrai peregrinos de longe, o chamado "Circuito dos Sete Pirs (ou santos sufis)". São sete locais na região de Bukhara onde estão os memoriais de importantes sábios sufis, fundadores de ordens. O mais importante dele é Bahauddin Naqshbandi. Em cada um desses locais, o memorial ou mausoléu é circundado por madrassas, khanakas e cemitérios, sempre com lindas arquiteturas, afirmando o poder econômico dessas ordens.

Na madrassa Ulugh Bek, logo na entrada, os fiéis são conduzidos a uma sala onde um mulá conduz orações periodicamente à medida que chegam mais e mais visitantes em busca de uma bênção de Abdulkhalid Gidjuvoni. Novamente, notei terem estranhado minha presença, mas, para minha felicidade, em nenhum momento me senti intimidado como ocorreu na rua, com o bêbado e seus gritos. Pelo contrário. Eu estava tirando fotos do mausoléu e da madrassa, a uma boa distância, procurando não incomodar nenhuma das pessoas que estava rezando em frente ao mausoléu. Naquele momento, percebi um grupo de quatro senhoras caminhando mais ou menos na minha direção. Todas com seus véus coloridos e vestidos, como reza a tradição centro-asiática. Continuei tirando minhas fotos enquanto se aproximavam. Pensei que pudessem reclamar, incomodadas com os meus cliques que, então, claramente, eram delas com o céu azul intenso e o lindo complexo ao fundo. Não reclamaram. Desviaram um pouco da minha direção, mas acenando para a foto, sorrindo para mim, como um grupo de adolescentes envaidecidas pelo flerte bobo de um desconhecido. Acenaram mais, sorriram mais. Agradeci com um longo sorriso e acenos.

Que lindas.

Tudo lindo.

Na santa Gidjuvon, como no Char Bakr, vi mais uma vez o coração pulsante do Uzbequistão, tão machucado para estimular os turistas a gastarem seu dinheiro. Tão desfigurado por lojas, shoppings, ônibus de excursão. O tesouro não está perdido, está escondido, basta procurar um pouco.

Khiva, 20h, 18/8

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Novas Fronteiras é um diário de uma viagem feita em 2018 a três países da antiga URSS na Ásia Central — Uzbequistão, Tajiquistão e Turcomenistão. Novos capítulos são publicados neste blog duas vezes por semana, às quintas-feiras e domingos, e seguem ordem cronológica. Novas Fronteiras é parte de um projeto maior que inclui outros diários de viagem pela Ásia Central publicados neste blog pelo autor, que tem viajado regularmente à região desde 2001. O objetivo do projeto é apresentar um panorama detalhado e em profundidade das sociedades dos países da antiga URSS na Ásia Central, em um processo de busca e exploração em que o autor executa uma viagem simultânea, de autodescoberta e entendimento do universo centro-asiático como espelho de sua própria existência.

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