Sunday, 12 February 2023

Novas Fronteiras (III) - Termez, Uzbequistão



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6/8/2018

À distância, à beira do rio que marca a fronteira uzbeque com o Afeganistão, um veículo militar ganhava velocidade. Ele deixava atrás de si uma coluna de fumaça que refletia a luz do sol poente. "Está vendo?", disse meu jovem guia, um moleque de uns 16 anos, parando a bicicleta, apontando para o horizonte entre as baixas colinas sem árvores. "São militares. Estão por ali. Por isso não podemos ir ao Kara-Tepe", explicou, se referindo a um ancestral sítio arqueológico budista vizinho. "Só vão lá os clientes da Marco Polo". Marco Polo é uma agência de turismo para abastados. Conseguem acesso a tudo pagando alto, bem alto, aos burocratas uzbeques.

O jovem então apontou para o ônibus da tal Marco Polo, parado na estrada do sítio arqueológico em que nos encontrávamos, Fayoz-Tepe. Antes, disse, os turistas estavam aqui, depois foram para o Kara-Tepe a pé. Sorte minha. Fayoz-Tepe estava agora sozinho, sozinho para mim e para o adolescente franzino, guardião do lugar, empolgado com a chance de ganhar uma gorjeta (a gorjeta que não tem chance de ganhar da Marco Polo, que vem com seu próprio guia). Como ele tinha as chaves da estupa — uma construção característica dos budistas, um local onde em geral são guardadas relíquias, usada para meditação — de Fayoz-Tepe, não vi como dizer não a ele me acompanhar. Depois de admirar o horizonte comigo, ele me indicou o caminho.

Fayoz-Tepe é um desses fantasmas inacreditáveis da Ásia Central. É um complexo budista testemunha da riqueza desta região no longínquo século III, quando estas margens do rio Amu Darya eram parte do império kushano, um vasto domínio que se estendia para o sul. Esta pegada é uma de várias dos kushanos que chegaram até hoje, muitas delas guardadas no museu nacional do Tajiquistão, incluindo um Buda gigantesco, visão impressionante de minha visita à capital tajique em 2012. Mas eu ainda não havia visto nada relacionado aos kushanos ao ar livre. Descoberto apenas em 1968, Fayoz-Tepe foi escavado, restaurado e até certo ponto reconstruído. Essa cirurgia plástica o fez um tanto artificial, me causou a impressão de estar vendo algo novo demais, algo que contrastava com a antiguidade real do sítio.

Caminhei atrás do meu guia. Há uma sequência de salas sem teto, sem azulejos, salões que um dia poderiam ter reunido dezenas de pessoas. As paredes foram todas reconstruídas com primor. Em alguns locais, é possível ver tijolos ancestrais derretidos pelas intempéries, lentamente deixando de existir. No salão principal, há longas fileiras com as bases de colunas do que era um mosteiro. O ar fantasmagórico, de permanente interrogação, me acompanhou a cada passo. Não há placas para entender o que era, exatamente, delimitado pelas paredes. Não há referências.

O mais chamativo é um domo, também com a cor ocre característica, novamente uma reconstrução. Subimos por uma escada até ele, que fica em um dos cantos do complexo de barro. Havia uma porta, fechada. O guia, com a chave, a abriu para mim. Dentro, em uma ambiente de sombra e fresco, está a estupa. Neste caso, tratava-se de um monte de barro no formato de um meio ovo (ou talvez, melhor dizendo, um cupinzeiro) com uns bons três, quatro metros de altura. A imagem de Buda que deveria adornar alguma de suas faces há muito se foi. Sobrou apenas um buraco na terra desfigurada. Um mistério valioso, protegido pela cúpula externa, moderna.

Fayoz-Tepe é um sítio grande, com aproximadamente 1,5 km². Apesar de vazio (o que sobrou, mosaicos e estátuas de Buda, foram transportados para museus), tem tanta importância que atraiu dinheiro do longínquo Japão para sua reconstrução. Sobre isso, há sim uma placa, a única em todo o complexo. Traz o logotipo da Unesco, identificando que o local recebeu apoio também da instituição. Segundo meu jovem guia, foi até visitado em pessoa pelo Dalai Lama — algo que me pareceu duvidoso. O Lama, segundo o jovem, teria se ajoelhado humildemente em frente ao que sobrou da estupa ancestral, louvando-a pelos séculos que a construção enfrentou e venceu. Apenas o fato de ainda estar de pé talvez seja um sinal de que foi abençoada pelos bons espíritos. "Foi assim que o Dalai Lama fez", mostrou entusiasmado o jovem, ajoelhando-se em frente à estupa, esticando os braços, inclinando o tronco até a cabeça quase tocar no chão. Não tentei dissuadi-lo. Era claro que desejava louvar a estupa. Conscientemente ou inconscientemente. Esta era apenas a perfeita ocasião.

Me passou pela cabeça que este local atravessou os séculos apenas para dar sentido à vida do jovem.

Saída da estupa. Olhei de novo, ofuscado pelo sol, em direção ao rio, o Amu Darya, o ancestral Oxus atravessado por Alexandre, o Grande (356-323 a.C.) em sua conquista do que era para ele o fim do mundo, e pelos soviéticos em seus últimos metros de paz antes do inferno da Guerra no Afeganistão (1979-1989). Minha última visão do Amu Darya havia sido em 2012 na fronteira tajique-afegã. De onde estava agora, ao lado da estupa, não conseguia ver o rio, talvez pela luz forte nos meus olhos. Mas sabia que o Amu Darya estava lá pela referência do outro sítio arqueológico, Kara-Tepe, o visitado pelos turistas ricos. E também pelos veículos militares, zanzando de cá para lá, na tensão permanente desta linha de contenção da confusão afegã. Tão distante e tão perto, o Afeganistão. Gostaria de caminhar até Kara-Tepe, ver direito. Não. Fora de alcance.

Apesar de não ter sido muito opcional pedir a ajuda do guia — que, além das chaves da estupa, controlava o acesso a um pequeno museu ao lado —, concluí que foi bom visitar Fayoz-Tepe com ele. Não sei como faria para entender as paredes de barro com as poucas informações do meu livro-guia. Agradeci de coração. Pena que brigamos no final. Ficou revoltado com o valor da minha gorjeta. Dei uma quantia que me pareceu justa, não era pouco de forma alguma, mas ele queria muito, muito mais. Argumentei, claro, que eu não era um turista da Marco Polo.

O sol apenas havia descido para baixo do horizonte.


* * *

Como o esperado. Já haviam me advertido que essa seria a primeira característica de Termez que iria me chamar a atenção. Trata-se de uma cidade quente, muito abafada. Chegando com o trem vindo de Tashkent bem cedo, encontrei meu hotel, me desfiz de minha mochila, saí para trocar dinheiro e tive que voltar para meu quarto para tomar um banho. Eu estava ensopado de suor, da cabeça aos pés, não apenas na parte da roupa em contato com a mochila, mas em toda parte. Nada surpreendente que uma das teorias sobre a origem do nome da cidade seja que ele vem de thermos, "quente" em grego.

O grego seria uma herança de Alexandre, que teria passado por aqui no caminho de suas conquistas que viriam depois, mais ao norte. O quanto existia de povoado neste terreno naquela época é incerto; segundo arqueólogos, porém, é possível estabelecer que esta região era habitada já 2,5 mil anos atrás, se tornando sem a menor dúvida um dos mais importantes portões de entrada na Transoxiana, com os gregos chamavam a terra além do rio Amu Darya (chamado por eles de Oxus). A história indica que o local já era conhecido pela dinastia persa aquemênida, de Ciro (600-530 a.C.) e Xerxes I (518-465 a.C.). Outra origem hipotética do nome de Termez seria do persa antigo, "ponto de passagem" ou "cruzamento", provavelmente uma referência à travessia do Amu Darya. O orientalista russo Vasily Barthold (1869-1930), autor de uma clássica narrativa histórica da Ásia Central publicada no início do século XX, explicou a importância estratégica da cidade:

A existência de uma grande ilha que facilitava a construção de uma ponte flutuante, e sua proximidade de Balkh (no atual Afeganistão), o centro de todo o país, fez de Tirmidh (Termez) talvez o mais importante ponto de cruzamento do Amu Darya depois de Amul (atual Turkmenabat, Turcomenistão); guerras frequentemente eram travadas pela sua possessão entre os senhores da Transoxiana e do Afeganistão.
— Vasily Barthold, Turkestan Down to the Mongol Invasion (1928)

Após a passagem de Alexandre, toda a região de Termez ganharia grande importância sobre o domínio dos kushanos, desenvolvendo-se como um importante centro de difusão do Budismo. Apenas em Surkhandaryo, a província uzbeque onde fica Termez, os kuchanos fundaram mais de 110 assentamentos e complexos budistas, entre eles Fayoz-Tepe e Kara-Tepe. Era então ainda a primeira encarnação da cidade, a que seria conquistada pelos túrquicos em suas primeiras hordas invasoras no século IV, e depois pelos árabes e por outros impérios antes da traumática visita de Gengis Khan (1162-1227). Assim descreveu Barthold a conquista do mongol, que veio do norte:

Até a primavera de 1220 Gengis Khan já podia incluir a Transoxiana entre seus territórios e havia já tomado medidas para restaurar a vida pacífica (...) No outono, Gengis Khan avançou rumo a Tirmidh (...) Os números de suas forças não são conhecidos. Uma proposta de rendição foi rejeitada, e ambos os lados lutaram um contra o outro com catapultas por alguns dias. Finalmente os mongóis silenciaram as armas de seus inimigos e a fortaleza (de Termez) foi tomada de assalto após um cerco de 11 dias; a cidade foi destruída, e todos os seus habitantes, massacrados.

A reconstrução e surgimento de sua segunda encarnação veio rapidamente, diferentemente do que ocorreu em outros lugares da Ásia acariciados pelo Khan, provavelmente pela sua posição estratégica no cruzamento do rio. Em aproximadamente 1333, se tornaria mais conhecida ao mundo exterior com a passagem de um dos mais notórios viajantes da história da humanidade, o marroquino Ibn Battuta (1304-1368?), que cruzaria o Amu Darya por aqui vindo de Samarkand e a caminho da Índia, em um período em que toda a região estava sob controle dos herdeiros de Gengis. Graças a Ibn Battuta, sabemos hoje que a cidade foi reconstruída mais para o interior, se afastando de seu local original, à beira do rio, onde fica Fayoz-Tepe. Os hábitos locais teriam causado certo estranhamento ao experiente explorador:

Então chegamos a Termez (...) É uma grande cidade com lindas edificações e bazares. É cortada por canais, tem muitos jardins, uvas e marmelos são extremamente doces por aqui. Há muita carne e leite. Os residentes da cidade lavam suas cabeças nos banhos com leite azedo (...) Em cada banho, os funcionários trazem grandes ânforas com leite azedo. Todos os que entram nos banhos colocam o leite em jarras menores para então lavar suas cabeças.
— Nematulla Ibrahimovich Ibrahimov, The Travels of Ibn Battuta to Central Asia (1999)

Tamerlão (1370-1405), no século XIV, conquistaria a cidade a seguir e criaria serviços de balsas sobre o rio, obrigando os viajantes e caravanas a pagar pela travessia, assim gerando ainda mais riqueza para seu vasto reino centrado em Samarkand.

Depois a região passaria a ser parte do Emirado de Bukhara e permaneceria quase esquecida até que, após a expansão do Império Russo no século XIX, se tornou uma das fronteiras dos domínios do czar, uma das mais importantes. Era então o principal ponto de travessia para o Afeganistão, onde os britânicos nessa época travavam sucessivas guerras fracassadas para expandir seu império centrado na Índia. Sendo a cidade um dos tabuleiros do chamado Grande Jogo entre os dois impérios, surgiu outra encarnação de Termez, a de cidade-quartel, centro militar na fronteira. O número de fardados explodiu, e a cidade ganhou um quê de última parada antes do início da terra de ninguém. Isso só se reforçou nas décadas seguintes: primeiramente, nos anos 1980, quando Termez se tornou um grande centro de concentração de militares soviéticos a caminho da morte na Guerra no Afeganistão. Foram os soviéticos que construíram a ponte em Termez ligando os dois países. Em segundo lugar, já com o Uzbequistão independente, quando recebeu militares da coalizão da Otan que a usavam como trampolim para o novo conflito no Afeganistão a partir de 2001.

Dado seu retrospecto militar e a importância que teve especialmente nos últimos anos da URSS, eu esperava que Termez fosse muito mais russificada — com os descendentes dos imigrantes russos nas ruas, cartazes em russo além do uzbeque, igrejas ortodoxas, todo o legado de anos de presença dos eslavos. Ficou no passado. No hotel, me disseram que havia uma igreja ou catedral ortodoxa por perto, mas não na avenida Al-Termizi, a grande referência do centro, onde está o burburinho. O biotipo e a vestimenta dos que cruzavam comigo pela calçada me levou de volta ao Vale de Fergana. Mulheres com vestidos, nada de calças. Vestidos bem coloridos, tal como no vale.

Na Al-Termizi fica a principal atração turística contemporânea da cidade, a maior esperança do governo local para atrair mais e mais as hordas endinheiradas que invadem Samarkand e Bukhara. O Museu de Arqueologia tem uma linda fachada — um arco com colunas e a parede coberta com azulejos azuis primorosos. Cúpulas também azuis, de inspiração na arquitetura timurida. Muito recente, inaugurado em 2001, com cheiro de novíssimo. Certamente o prédio glorioso foi financiado pela pujança turística de outras partes do país. Impossível não vê-lo na avenida vindo da estação ferroviária ou a caminho dela.

A razão do investimento não demorou muito a ficar clara. Logo na entrada, havia um mapa tridimensional de toda a província de Surkhandarya, onde fica Termez. O mapa mostrava os dezenas de sítios arqueológicos que pipocam em toda a área. Praticamente em cada canto. Sítios à beira do Amu Darya, na área onde fica o núcleo original de Termez e Fayoz-Tepe; sítios no vale do rio Sukhan Darya, que segue para o norte; sítios nas montanhas perto do rio, em cavernas, em cantos ocultos. Sítios de muitas eras diversas. Da época de Alexandre, da civilização kuchana, da época do número quase incontável de civilizações, tribos e impérios que disputaram e transformaram a Ásia Central num cabo de guerra, século após século. Uma riqueza impressionante de memórias perdidas e encontradas de séculos e séculos e séculos e séculos, entrelaçadas.

As peças do acervo, milhares, apresentam uma boa introdução da história desta terra. As mais impressionantes são budistas, dos kuchanos, complementando as ruínas peladas que podem ser vistas em Fayoz-Tepe. Fiquei confuso e segui, no andar de baixo do museu, a ordem anticronológica do acervo em exibição. Há algumas estátuas de Buda que outrora adornavam estupas da região. Uma delas, incrivelmente bem preservada, é identificada como vinda de Fayoz-Tepe. Sendo de entre os séculos III e IV, é incrivelmente semelhante, ou quiçá idêntica, a uma que vi em no Museu de História do Uzbequistão em Tashkent — quem sabe aquela tenha sido uma cópia? Ou esta fosse uma cópia? Não ficou claro. Outra, ainda mais antiga, mostra dois Budas, um em cima do outro, com rostos desfigurados, de terracota. É de entre os séculos II e III. Segui o corredor e apareceu um pé de terracota, imenso. Mais antigo ainda, de entre os séculos I e II, distintamente grego em estilo. Eu estava chegando aos impérios helênicos que sucederam o de Alexandre na região, o Selêucida e o Greco-Bactriano, ambos nos primeiros séculos depois de Cristo, antes dos kushanos.

Voltei depois à ordem cronológica e subi para o segundo andar, que estaria completamente às moscas não fossem duas ou três funcionárias profundamente entediadas, sentadas em cadeiras, contratadas para não permitir que os poucos visitantes tocassem as peças. Novamente, impressionantes tesouros budistas. Havia alguns objetos enigmáticos, miniestátuas de Buda feitas de metal, provavelmente bronze, com dobradiças, de um tamanho que cabe na palma da mão. Pareciam pequenos sarcófagos. Lupas permitiam ver os detalhes intricados das peças, os Budas esculpidos em posição meditativa e de pé. Nunca havia visto nada parecido. Pequenas imagens para inspirar os monges budistas durante suas orações.

Saí do museu com muita sede.

Parei ao lado em um restaurante, me deitando sob uma sombra em um tapchan, a cama-mesa onde os uzbeques tradicionalmente tomam chá e apreciam suas refeições ao ar livre. Duas da tarde, um sol violentíssimo. Me trouxeram chá preto em um bule fervente, salada de tomate e pepinos e manti, os raviolis típicos com generoso recheio de carne. Ao lado havia um borrifador de água para umedecer o ar e aliviar o forno ambiente. Estava mal regulado, os pingos eram grossos e me alcançavam, molhavam minha camisa e minha orelha. Agradeci.

Uma hora depois, fui para o hotel. A Al-Termizi estava lotada; carros, buzinas, uma cidade grande, como outra qualquer. Nas calçadas, nenhum turista, ninguém nem remotamente parecido comigo. Eu era um alienígena. Fiquei desconfortável como em poucas vezes no Uzbequistão. As pessoas me olhavam muito. Estava muito distante do conforto de Samarkand e Bukhara, tomadas por ônibus de excursão, ou mesmo do Vale de Fergana. Me senti muito vulnerável.

Cruzei com um grupo de homens. Mal me viram, perguntaram se eu tinha dólares para trocar — um anacronismo, já que o câmbio no mercado negro já não vale mais a pena. Falei que não, pedi desculpas com educação, sorri com cortesia, continuei meu caminho. Queria ir tirar uma soneca, me esconder do sol. Só pensava nisso. Minha barriga pesava com o manti. Não insistiram, segui meu caminho.

Não tive sorte a seguir. Encontrei uma mulher de pele mais escura, talvez uma refugiada das terras vizinhas do Afeganistão, talvez uma cigana. Tinha duas crianças de uns oito ou dez anos, uma menina, maior, e um menino. Vestiam roupas coloridas que perderam a cor, puídas, sujas. As crianças colaram em mim, me agarraram. Não entendia nada do que falavam, não era russo. Sorri, tentei me desvencilhar. Não consegui. Elas ficaram mais agressivas. Apertavam mais meus braços, ficavam em meu caminho, pulavam nos meus pés. A menina era forte, espremeu demais meu braço esquerdo, quase me machucou. Eu não tinha o que fazer. Indiquei à mãe, olhando à distância, que me ajudasse, que controlasse os pequenos, e ela deu de ombros. Me irritei, mas não queria demonstrar irritação, julguei que só pioraria a situação. Não as queria perto de mim. Não queria sacar minha carteira e dar a elas algo, mostrar meu dinheiro no meio da rua me pareceu muito arriscado. Não tinha nenhum trocado solto no bolso para dar a elas.

Senti raiva pelas crianças terem me escolhido como vítima. Mas, ao mesmo tempo, tive pena, muita pena, morri de pena, senti uma dó gigante. Meu coração ficou amassado.

No final, as crianças se penduraram, literalmente, em mim, uma em cada braço. Me arrastei com as duas por quatro quarteirões. Só me largaram quando cheguei ao portão do hotel.

Sombra e ar condicionado no meu quarto. Olhei pela janela, meio ofuscado pela luz do sol. Estava no quarto andar, enxergava a Al-Termizi diretamente à frente. Na entrada do hotel, lá embaixo, vi as duas crianças. Olhavam para as pessoas passando. Olhavam para o hotel. Olhavam uma para a outra. Olhavam para o chão.

Termez, 22h35, 6/8

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Novas Fronteiras é um diário de uma viagem feita em 2018 a três países da antiga URSS na Ásia Central — Uzbequistão, Tajiquistão e Turcomenistão. Novos capítulos são publicados neste blog duas vezes por semana, às quintas-feiras e domingos, e seguem ordem cronológica. Novas Fronteiras é parte de um projeto maior que inclui outros diários de viagem pela Ásia Central publicados neste blog pelo autor, que tem viajado regularmente à região desde 2001. O objetivo do projeto é apresentar um panorama detalhado e em profundidade das sociedades dos países da antiga URSS na Ásia Central, em um processo de busca e exploração em que o autor executa uma viagem simultânea, de autodescoberta e entendimento do universo centro-asiático como espelho de sua própria existência.

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Thursday, 9 February 2023

Novas Fronteiras (II) - Tashkent, Uzbequistão



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5/8/2018

"De onde você é?", perguntou o taxista em Tashkent, em russo, quando eu, atrasado, estava a caminho de pegar o trem para Termez. "Do Brasil", respondi, distraidamente, enquanto olhava pela janela do carro, com minha cabeça explodindo de dor, com o pensamento totalmente dedicado a antecipar o que eu teria que fazer na estação antes de embarcar.

"Sério? Fala português?", respondeu o senhor com um sorriso luminoso no rosto. Perguntando em português.

Olhei para ele. Me espantei, evidentemente. Mas, naquele momento, pensei também que talvez ele apenas tivesse decorado uma frase na minha língua, talvez para impressionar turistas, talvez porque tinha boa memória e havia lido em algum lugar. "Sim, falo", respondi também em português, com um sorriso cordial, olhando para ele, esperando sua próxima jogada.

"Finalmente! Há tanto tempo que eu não falo!" E desembestou a falar um bom, excelente português de Portugal. Ele era uzbeque. Em tudo, de fato, ele era uzbeque — o biotipo (o cabelo negro, olhos amendoados, os traços inconfundíveis no semblante misturando a genética turca e chinesa), a sonoridade ao falar, parecida com a de um russo falando português, mas com os acordes inconfundíveis de seu próprio idioma. Sim, me confirmou, era uzbeque, completamente uzbeque. Sim, agora sim, eu estava boquiaberto. Nunca antes encontrei um uzbeque que falasse português fluente. Havia achado e completamente por acaso.

Seu nome era C — um nome português que escolheu para si. Implorei que me contasse sua história, a história na certa insólita de como passou a dominar o idioma de Camões. Eu não poderia sair da capital sem saber o porquê de algo tão incomum.

"Vivi em Portugal nove anos", explicou em meio a risadas, com um quê de orgulho, ao perceber o quanto eu estava desconcertado. "Trabalhava com instalação de painéis solares. No primeiro ano eu já peguei o idioma, já falava." Nunca deixou de me impressionar como os uzbeques têm facilidades para línguas. O uzbeque em geral fala bem, ou entende bem, pelo menos três idiomas completamente diferentes (russo, uzbeque e ou caracalpaque, cazaque, quirguiz ou tajique, dependendo da parte do país onde vive). "Eu morava em Portugal com outros imigrantes, inclusive brasileiros. Os brasucas eram os melhores! Sempre tinha festa!", completou, com um suspiro, um sorriso de doçura nostálgica. Adorei o "brasuca", sem a menor dúvida isso provou que ele conhecia minha espécie.

E o que achou de Portugal? "Eles pensam que nós aqui do Uzbequistão somos atrasados. Mas eles são mais atrasados do que nós em um monte de coisas! Por exemplo, eles não..." e toca o celular. "Se for a esposa, atenda! Senão vai ter problemas, hem", gracejei. "Ah, mas é a amante!", respondeu com um sorriso safado. Fiquei um pouco preocupado com ele falando ao telefone e nós circulando a 80 km/h na avenida Shota Rustaveli, uma das principais de Tashkent, com a pressa que lhe pedi para que eu pudesse pegar o trem a tempo.

"Então", disse C, um minuto depois, após desligar o celular (falou em uzbeque, nenhum detalhe supostamente picante da conversa chegou a meu conhecimento). "Em Portugal, ninguém entendia que aqui no Uzbequistão é tudo normal. A gente tem duas ou três mulheres. Não entra na cabeça deles." Claro, a religião muçulmana aceita homens com mais de uma esposa (se puderem mantê-las). Não quis me estender no assunto; apenas achei curiosa a completa franqueza com que C se referiu à sua "poligamia". Embora sejam cordiais e hospitaleiros, os uzbeques costumam ser muito reservados com desconhecidos. Eles têm até ditados sobre sua discrição — Aytkan gap, atqan oq ("Uma palavra dita é um tiro disparado"). Outro: Kob oyla, az soyla ("Pense bastante, diga pouco").

Continuou abrindo o coração. Havia voltado ao Uzbequistão havia pouco tempo por saudade de sua terra. E ficou curiosíssimo ao saber que esta era minha quarta vez em Tashkent (e no seu país). Falei do sentimento de que algo aqui sempre faz eu me sentir bem-vindo, apesar da barreira da língua e da solidão de viajante. Ele sinalizou com a cabeça que compreendia os problemas e se solidarizava, "não é fácil".

Como foi bom falar com C em português. Em uma jornada de 15 minutos de carro, ganhei um melhor amigo instantâneo.

Nos despedimos, com lentidão relaxada apesar da minha pressa, na frente da estação ferroviária. Queria ter tido mais tempo para conhecê-lo melhor. Lhe ofereci um pedaço de papel e uma caneta, me passou seus telefones ("este, sempre ligado, para a minha mulher e às vezes para a amante!"). Prometi a C que ele iria ouvir falar de mim no futuro, em novas visitas. Quando, não sei. Peguei minha mochila. Um aperto de mão, acenos. E saí correndo com toda a velocidade rumo à entrada da estação.


* * *

Havia tomado café da manhã umas 7h30 no refeitório às moscas do hotel em Margilan. Havia bandejas gigantes cheias de ovos fritos e panquecas, mas nenhum outro hóspede à vista, apenas eu. O chá preto estava insuportavelmente quente. Retoquei o filtro solar, ajustei o chapéu e a carga nas costas. Desci as escadas e fui saudar o céu azul e o sol ainda amistoso.

Em 2003, eu havia visitado um mercado em Margilan, no centro da cidade, perto da fábrica Yodgorlik. Fiquei impressionado com a riqueza humana, com as cores, com os cheiros. Foi o melhor mercado daquela minha visita ao Vale de Fergana. Desta vez, porém, havia decidido seguir indicações diferentes que me recomendavam um outro, supostamente fantástico, um pouco afastado do centro. Lá, aparentemente, multidões encontravam todo tipo de produto à venda, inclusive animais vivos. São nesses mercados abertos, ancestrais, onde se trava contato com o que existe de mais mágico no Uzbequistão. Não é a arquitetura de séculos de história, tão linda, tão promovida pelas autoridades para impulsionar o turismo. Mas o povo.

Em dez minutos de lotação, desembarquei no turbilhão de vida do mercado, chamado Kumtepa. Um oceano sensorial, onde mergulhei de cabeça para me afogar.



Muitas visões. As mulheres, com seus vestidos coloridíssimos de seda, se espremendo entre as barracas, roçando as ancas nos sacos carregados de especiarias perfumando o ar, algumas delas lindíssimas, com suas sobrancelhas grossas e unidas com maquiagem. As mais velhas, duras, fortes, bravas, mas com olhares doces.

As vendedoras de seda em um canto exibindo os lenços que refletem a luz solar. Estrelas no cosmos das milhares de pessoas encaixadas no espaço reduzido dos corredores.

Dez minutos depois, já suado, achei um caminho para um descampado com um fedor característico, fezes e urina. Lá estavam os animais vivos. Patos e galinhas, amarrados, tremendo, mijados de pavor, enquanto os vendedores de pé trocavam dinheiro e berravam. Alguém por perto pilotava uma grelha, torrando as carnes desses mesmos animais. Atravessei nuvens de fumaça. Passei ao lado do vendedor de pombos, numa gaiola. Pombos brancos da paz, para se comer. Imóveis, sentindo a fumaça.

Tirei o celular-máquina fotográfica do bolso. Passei a clicar a esmo. Saí do inferno dos animais, voltei para a área principal do mercado. Sacos gigantescos de batata, sacos colossais de pimentões. Encontrei duas meninas. Elas sorriram, posaram para mim, tirei uma, duas, cinco fotos. Elas rapidamente se entendiaram. Voltei para a parte das sedas. Vi uma mulher — estava completamente cercada de senhoras mais velhas, todas de costas para ela, todas comprando sedas. A mulher parecia o sol, as senhoras, seu raios de luz.

Em outro canto, mais quieto, estavam as vendedoras de sedas mais longas e caras, as khan-atlas. Menos gente aqui, segui por um corredor. Lá encontrei, como em uma gruta feita com os panos, uma mulher mais velha e uma mais jovem. Estavam conversando, olho no olho, sozinhas. Conversa feminina. Conversa geracional. Conversa privada. Apareci, as duas pararam, olharam para mim, esperaram eu passar. Sou parte agora de suas vidas tão secretas, coloridas pela luz forte que atravessava as camadas de seda colorida da barraca, iluminando suas cabeças, criando na jovem uma aura angelical. Sobre o que conversavam?

Na avenida que atravessa o mercado, um congestionamento terrível de vans coreanas (modelo Damas, da extinta Daewoo, produzidas localmente e extremamente populares na Ásia Central). Buzinas sem parar. Atravessei a avenida, cá e lá, voltei. O sol foi ficando muito mais forte, beirando o intolerável, quase não conseguia abrir os olhos, mas não queria usar óculos escuros para não perder as cores desta tapeçaria viva. Comprei uma garrafa de água, virei na goela e engoli com desespero quase que um litro inteiro. Minhas costas, na parte de contato com a mochila, estavam encharcadas.

Comprei mais presentes. Ao contrário de ontem na loja da fábrica Yodgorlik, achei lenços de seda coloridos por um preço irrisório, 4000 sums (aproximadamente US$ 0,5) cada. Um chapéu uzbeque feminino, lindo, 5000 sums (US$ 0,6). Desenvolvi técnicas mais aprimoradas para negociar os preços com o passar dos anos. O segredo principal é não ter pressa, não titubear em oferecer mais do que a oferta inicial se receber um não de cara. E ir jogando o jogo. Estou cada vez mais tomando gosto pelo esporte nacional.

A manhã finalmente se foi no transe do bazar Kumtepa. Meu plano de ir a Rishon, uma vila conhecida por ser o centro de produção de cerâmica do Uzbequistão, foi por água abaixo. Sem tempo. Me esperavam agora cinco longas horas de táxi até Tashkent.

Que calor imenso. No táxi compartilhado que encontrei, mesmo sentado à sombra no banco de trás, ao desembarcar em Tashkent eu estava com uma enorme dor de cabeça por causa do sol da manhã inteira.

Tinha umas horas na capital uzbeque antes de pegar o trem. Almocei em um restaurante ocidental, italiano, na avenida Shota Rustaveli. Dois únicos atrativos no restaurante para mim: era próximo da estação ferroviária e tinha ar condicionado. Um local completamente deslocado da Ásia Central tradicional, frequentado pela elite de origem russa e estrangeiros. Uma salada césar foi trazida à mesa como se fosse caviar pelo garçom se esforçando em falar inglês. Agradeci efusivamente. O conforto de falar uma língua na qual eu tenho fluência e comer um prato conhecido era o que eu precisava naquele exato momento, apesar de certamente não ser o que busco nesta viagem. A dor de cabeça estava me matando. A nutrição, que esperava ajudar um pouco a passar a dor, não ajudou muito.

Peguei um ônibus e desembarquei na rua Sailgokh, mais conhecida pelo seu apelido, "Broadway", a via de pedestres no centro da capital uzbeque que, em uma de suas extremidades, termina na praça Tamerlão, a principal da cidade. Tive uma nova impressão da Broadway, diferente das que tive em 2001, em 2003 e em 2012. Nas duas primeiras visitas, era o caos alegre, a multidão andando de cá para lá, os vendedores em suas barracas, os cozinheiros ao ar livre preparando o arroz uzbeque plov, fumaça, barulho, algazarra, vida. Em 2012, vi uma Broadway vazia, esterilizada; as árvores podadas, eliminando a sombra, as multidões e barracas, desaparecidas. Agora, uma mistura das duas. Estava pouco movimentada. Vi jovens andando em grupos, algumas barracas, brinquedos de parque de diversão. As árvores recuperaram muitos de seus galhos, mas a sombra de 2001 e 2003 era mais impenetrável, uma bênção no verão. Um pintor vendendo seus quadros em um canto: lindas imagens a óleo, imagens de Bukhara, Samarkand, imagens idealizadas, de sonho, com camelos e rostos cobertos por véus. É a imagem que os turistas compram, atrás da qual vêm para cá. Um sinal do rumo da transformação: a Broadway que vi em 2001 foi a mais tradicionalmente uzbeque. Logo, veio e foi a Broadway violentada pelo líder Islam Karimov, que visitei em 2012: limpa, sem vida, triste. E o ciclo segue para esta Broadway, a do novo presidente Shavkat Mirziyoyev: uma Broadway um pouco mais confortável e carinhosa, reencontrada com seu povo, mas certamente muito mais turística, alinhada com o grande objetivo de torná-la mais palatável para os visitantes, para que venham, cada vez mais, consumir perseguindo a visão idealizada das pinturas.

Imaginei o lugar de noite, agitado, com os adolescentes vibrando com os brinquedos, com os visitantes ocidentais tomando sorvete e vendo os suvenires, caminhando até a estátua de Tamerlão da praça, sempre ele, Tamerlão, o avatar do país, ele ainda está lá na praça, imponente. Ainda é a estátua que substituiu a de Lênin em todo o país, como vi nas visitas passadas. Um obscuro conquistador do século XIV que poucos conhecem no Ocidente, aqui, ubíquo.

Não tenho tempo de me despedir. De novo me distraí, de novo a hora passou. Corri para encontrar um táxi. Encontrei C. e falei português enquanto latejavam minha testa, minha nuca, meus olhos.

A dor de cabeça só passou de verdade no trem, quando, finalmente, pude parar para tomar uma aspirina. Lembranças de uma vez anterior em que peguei meu único trem noturno na Ásia Central, de Almaty a Taraz, no Cazaquistão, em 2012. Como daquela vez, a composição parecia ser bem velha, certamente dos tempos soviéticos, mas, aqui, pior preservada. Luz amarelada e fraca nos corredores. Sinais evidentes de desgaste no banheiro — uma torneira oxidada, dura de abrir e fechar. Superfícies gastas. No meu compartimento, novamente como em 2012, quatro camas em dois beliches. Tomado o remédio, pus-me a atualizar meu diário, compenetrado, ignorando a dor. Meus companheiros de quarto (nenhum turista: um era um senhor de mais idade usando o tradicional chapéu uzbeque, na cama de baixo ao lado da minha, e nas camas de cima dois jovens fortes) não me dirigiram a palavra a noite inteira. Após 20 minutos de frenética escrita, pela segunda noite seguida, simplesmente desmaiei. O chacoalhar da composição saindo pelos subúrbios da capital uzbeque me entorpeceu com imensa rapidez com a ajuda da aspirina.

Acordei algumas vezes no meio da noite. Pela janela do compartimento, luzes fortes às vezes conseguiam entrar e se chocavam com força contra minhas pálpebras antes de correr rapidamente pelo lençol abaixo, depois pelo chão, então para fora do trem. Eu voltava rapidamente a dormir. Estava tudo mais fresco e agradável.

Longa viagem. Doze horas até Termez, na fronteira com o Afeganistão.

Trem Tashkent-Termez, 7h10, 6/8

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UM PASSEIO PELO MERCADO KUMTEPA, MARGILAN, UZBEQUISTÃO










Novas Fronteiras é um diário de uma viagem feita em 2018 a três países da antiga URSS na Ásia Central — Uzbequistão, Tajiquistão e Turcomenistão. Novos capítulos são publicados neste blog duas vezes por semana, às quintas-feiras e domingos, e seguem ordem cronológica. Novas Fronteiras é parte de um projeto maior que inclui outros diários de viagem pela Ásia Central publicados neste blog pelo autor, que tem viajado regularmente à região desde 2001. O objetivo do projeto é apresentar um panorama detalhado e em profundidade das sociedades dos países da antiga URSS na Ásia Central, em um processo de busca e exploração em que o autor executa uma viagem simultânea, de autodescoberta e entendimento do universo centro-asiático como espelho de sua própria existência.

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Sunday, 5 February 2023

Novas Fronteiras - Prefácio



Viajar pode ter uma infinidade de significados para diferentes pessoas. Mas dificilmente uma viagem longa, solitária e a um local distante de nossa própria zona de conforto deixará de ser uma experiência transformadora para quem quer que seja.

Quiçá “transformação” seja a essência deste novo diário que apresento. Quem acompanha meus diários – publicados no meu blog, Central Asia Observatory – sabe que, em essência, eles são longos relatos em que procuro apresentar as mudanças que vêm ocorrendo em uma região do mundo que amo profundamente, a Ásia Central ex-soviética (Uzbequistão, Tajiquistão, Quirguistão, Cazaquistão e Turcomenistão), em contraponto com minhas próprias mudanças, pessoais, emocionais e espirituais, com o passar do tempo. Entender o alcance que procuro dar a estes relatos apenas como uma tentativa de oferecer a mais profunda e abrangente descrição dos pontos turísticos que visito na minha jornada (o que, sim, procuro fazer), como um mero guia de turismo, significa não compreender o que escrevo. Esta experiência literária é profundamente pessoal e, ao compartilhá-la com os leitores, eu estou compartilhando o que há mais de íntimo em mim. Sem a menor dúvida a Ásia Central é, nestes parágrafos, um espelho de mim e eu, um reflexo dela.

“Novas Fronteiras” é a quarta viagem que realizo à região. O que começou com uma visita de trabalho em 2001 caminhou para jornadas progressivamente mais ambiciosas de exploração, em 2003 (viagem relatada em “Um Brasileiro no Uzbequistão”), 2012 (“Diário de Almaty” e “Nos Desertos, nas Montanhas”) e finalmente neste diário. Desta vez, a viagem não me levou ao Quirguistão e ao Cazaquistão, mas me conduziu pela primeira vez a um dos países mais fechados e misteriosos do mundo, o Turcomenistão. Tão fechado é o país que a única maneira de visitá-lo foi pagando por um pacote turístico que incluiria um guia, além das acomodações. Eu temia que fosse uma viagem muito restritiva (sem a liberdade que gozei ao visitar os outros países da região). Entretanto, para minha felicidade, essas restrições foram muito menores do que eu imaginava. Além da fronteira do Turcomenistão, que adentrei pelo Uzbequistão (perto de Nukus), estive em duas outras regiões de divisa que nunca havia visitado: a uzbeque-afegã na cidade de Termez, no Uzbequistão, que não cheguei a cruzar; e a uzbeque-tajique entre Samarkand (Uzbequistão) e Penjikent (Tajiquistão). As fronteiras, na medida em que representam marcos de transição entre duas realidades intimamente relacionadas, mas diferentes, são momentos-chave desta narrativa. Assim, nada mais natural o título deste diário. São novas fronteiras, são novas explorações, e essas explorações ativamente mudam o viajante.

Como em diários anteriores, escrevê-lo até a publicação neste blog foi um processo longo. A viagem ocorreu em 2018 – portanto, há cinco anos. Desde então, em meio à rotina diária de trabalho integral e com o nascimento de minha filha, primeiro enfrentei o esforço de passar a limpo os manuscritos feitos durante toda a viagem. Depois mergulhei em um complexo período de pesquisa histórica, antropológica e literária, checando informações e encontrando citações ilustrativas da importância dos locais visitados. Veio a edição de fotos e vídeos (produzi mais de mil fotos, e selecioná-las foi uma tarefa extremamente dolorosa) e, por fim, a longa revisão do texto. Quando me dei conta, havia se passado meia década, um período em que a viagem foi refeita inúmeras vezes (e, certamente, em cada uma das vezes, as novas fronteiras foram cruzadas de novo e tiveram novo impacto em mim). Foi uma tarefa lenta, mas extremamente recompensadora, que chegou a seu formato final em 35 capítulos.

Entretanto, pela demora, tive que pagar um preço, que é justamente a desatualização. O leitor deve ter em mente, antes mesmo de começar a leitura, que todos os relatos se referem a 2018. A Ásia Central, como não poderia deixar de ser, passou por grandes mudanças desde minha visita até agora. A principal, ao menos à primeira vista, se deu no Turcomenistão. Em 2018, o país vivia no retumbante tédio de uma ditadura totalitária que não parecia ter data para terminar. O presidente, Gurbanguly Berdimuhamedow, controlava o país desde 2006 e parecia saudável e sem nenhuma intenção de abandonar o poder. Surpreendentemente (talvez temendo pressões na elite política, cujas idiossincrasias jamais saberemos), o líder abriu caminho para uma sucessão adiantada para seu filho, Serdar Berdimuhamedow, que assumiu a presidência em 2022. A mudança, porém, não significou muito para os turcomenos. Não houve nenhuma alteração na política do país, que continua o mais distante possível de uma democracia. Não há oposição, os meios de comunicação são totalmente controlados e a população normalizou uma paranoia permanente, o medo de estarem sendo observados e poderem ser presos a qualquer momento. Assim, certamente o relato da visita ao país neste diário continua totalmente válido. O Turcomenistão, em suma, por causa de seu isolamento, quase sem turistas, me lembrou muito o Uzbequistão de vinte anos atrás, quando os turistas ainda estavam descobrindo o país. Foi uma interessante viagem no tempo.

No Uzbequistão, o diário descreve ainda um período de transição: o país seguia reconhecendo o fim do longo domínio do seu primeiro presidente, Islam Karimov (falecido em 2016) e o início do governo do sucessor Shavkat Mirziyoyev, até hoje presidente. Em vários pontos do país, o que vi foi uma certa euforia, um sentimento de otimismo e esperança com o novo presidente, principalmente com o fato de que ele havia revertido certas políticas de Karimov (em particular a reabertura da fronteira com o Tajiquistão). Isso eu senti até mesmo na república autônoma uzbeque do Caracalpaquistão, no extremo oeste do país. Em 2023, Mirziyoyev e a população do país estão em uma fase completamente diferente, em que o regime está sendo testado e o presidente procura se consolidar com o objetivo aparente de permanecer muito tempo no poder. Mirziyoyev prepara mudanças constitucionais para ter o direito de se reeleger além dos limites de mandato atuais. No Caracalpaquistão, o primeiro esboço de tais mudanças previa o fim da promessa de que um dia a região poderá decidir em um plebiscito se irá se separar do resto do Uzbequistão. Tal fato gerou uma violenta revolta na região em julho de 2022, deixando pelo menos 18 mortos. Foi algo raríssimas vezes visto no Uzbequistão. Após reassumir o controle sobre o Caracalpaquistão, Mirziyoyev retirou da proposta de reforma constitucional a mudança que afetaria os sonhos separatistas da região. O primeiro julgamento dos envolvidos na violência, que o governo disse ter sido transparente e justo, levou a 22 condenações, mas analistas criticaram todo o processo, acusando-o justamente de não submeter a polícia repressora ao mesmo escrutínio a que submeteu manifestantes que tomaram as ruas. Ecos dos anos Karimov.

No Tajiquistão, as mudanças foram menores. O país vive uma tensa expectativa quanto à transição. O presidente Emomali Rakhmon, de 70 anos, é hoje o líder da Ásia Central ex-soviética a mais tempo no poder (desde 1994). Em meio a relatos persistentes de problemas de saúde, parece cada vez mais claro que ele deve seguir o caminho de Gurbanguly Berdimuhamedow e nomear seu filho, Rustam, para sucede-lo, criando mais uma dinastia na Ásia Central. Enquanto isso, Emomali Rakhmon parece estar querendo resolver problemas de longa data para facilitar a transição para o filho. Além de lançar seus militares em uma missão para conter supostos insurgentes na região do Pamir, matando e prendendo dezenas em 2022, o presidente parece não estar se esforçando para evitar a escalada de um conflito fronteiriço com o Quirguistão. A fronteira ainda tem longos trechos não-demarcados e uma população que, dos dois lados da fronteira, depende de recursos compartilhados, como a água. No Quirguistão, a ascensão de um novo líder com perfil nacionalista (Sadyr Japarov, presidente desde 2021) ajudou a tornar a situação explosiva. O auge do confronto foi em abril-maio de 2022, quando dezenas de pessoas, de ambos os lados, perderam a vida. Novos episódios de violência foram registrados depois e, no momento, uma trégua frágil está sendo observada. Do ponto de vista do Tajiquistão, ceder ao Quirguistão em troca da paz poderia ser interpretado como um sinal de fraqueza de Emomali Rakhmon neste momento-chave pré-transição, então a perspectiva é de que a tensão continue, com episódios esporádicos de violência na fronteira. Entretanto, os relatos deste diário em território tajique se dão longe da fronteira comum e em uma região que ainda hoje é completamente pacífica. Nela, o mais claro (e que permanece ainda hoje) é a longa sombra de Rakhmon, que só parece não encobrir as montanhas que visitei perto da cidade de Penjikent. Lá, os moradores vivem num mundo paralelo, um pequeno paraíso que cada vez mais é descoberto pelos turistas.

Do ponto de vista pessoal, a viagem foi um enfrentamento. Tendo viajado à Ásia Central antes, o retorno me trouxe uma sensação de conforto e familiaridade; o desafio foi fugir dessa sensação. Encontrar o lado pouco conhecido. Abandonar as trilhas gastas dos turistas e já seguidas por mim no passado. Confrontar temores, fragilidades, entre elas uma imensa solidão em determinados momentos, além da falta de autoconfiança e o medo, puro e simples. Conhecer pessoas me ajudou muito nesse processo, e tenho uma dívida impagável com cada um dos muitos personagens fugazes que amei nas várias etapas da viagem. Com eles como aliados, enfrentar meus fantasmas me fez uma pessoa mais evoluída, cada vez mais integrada com o mundo, com a humanidade, com este plano espiritual.

Espero que os relatos sirvam para que mais brasileiros se animem a conhecer esta parte frequentemente ignorada, mas interessantíssima, do globo. E que, como eu, ao visitar, passem por uma experiência verdadeiramente transformadora.

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NOTA SOBRE TRADUÇÕES, CITAÇÕES E ORGANIZAÇÃO DOS CAPÍTULOS

Novas Fronteiras contém uma infinidade de termos nas línguas locais e em russo. Procurei padronizar a forma como são escritos de acordo com a grafia que, em primeiro lugar, me pareceu a mais comum para o termo em português brasileiro ou, em segundo, a forma como aparece dicionarizada. Dessa forma, por exemplo, usei termos como "gaznévidas" (em inglês, "Ghaznevids") em vez de "ghasnávidas" ou mesmo "gasnávidas"); "iurta" em vez de "yurta" ou "yurt"; ou "Gengis Khan" em vez de "Gingis Khan" ou outras variantes. Termos não-dicionarizados, em língua estrangeira, aparecem grafados em itálico.

Todas as citações de outras obras no texto foram traduzidas por mim. Mantive os títulos das obras no idioma ao qual tive acesso às mesmas, não necessariamente o idioma em que foram escritas originalmente.

Por fim, cada capítulo começa com data a que o mesmo se refere e termina com a data e o local em que a entrada no diário foi escrita — não necessariamente a mesma abordada no capítulo.

Novas Fronteiras (I): Margilan, Uzbequistão



O que é "Novas Fronteiras"?
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4/8/2018

Percebi que estava mesmo de volta à Ásia Central apenas quando estava atravessando as montanhas entre Tashkent, capital do Uzbequistão, e o Vale de Fergana, no leste do país. Sol, calor, mas um vento que às vezes vinha forte e interrompia a sudorese, dava um arrepio ao entrar pela janela do táxi, compartilhado, a caminho do vale. Éramos o motorista e eu na frente, uma mãe com um filho adolescente e uma menininha de uns dez anos nos bancos detrás.

Após umas duas horas de estrada, o motorista parou para que outros passageiros pudessem fazer compras em um mercado à beira da estrada.

O mercado: um caleidoscópio de cores, formas e cheiros. Reunidas em um longo balcão em estreito corredor, dezenas de vendedoras de pão non exibiam seus discos deliciosos. Os típicos pães uzbeques, tão importantes para o povo daqui como o ar que respiram. Com uns 20-30 centímetros de diâmetro e a borda mais alta do que o centro, perfeitos para acompanhar um churrasquinho. Cada um com seu desenho diferente, marcas no centro e na crosta que identificam o padeiro. Alguns, assados com gergelim na face de cima. Outros, com sementes de papoula. Outros até com a massa misturada com carne. No nariz, o cheiro de gostosura, subindo dos pães recém-saídos dos fornos de barro. Nos olhos, as sedas. Os vestidos das vendedoras, todos, com o colorido ancestral que tem sua melhor expressão justamente no vale para onde eu estava viajando.

Enquanto minha mente zanzava como um inseto nesse mundo sensorial, fui surpreendido pela passageira do táxi e seus filhos, meus companheiros na viagem até a cidade de Margilan. Assim que o táxi parou, eles haviam saído do veículo e desaparecido. Reapareceram carregados — a mãe havia comprado uma pilha de nons e dois sacos de frutas. Sorriu para mim. Havia lhe dito no caminho desde Tashkent que eu era um viajante e amava seu país. Agora, ela me oferecia um pão e um dos sacos que levava, cheios de maçãs, pequenininhas, bem doces e azedas. Fiquei fascinado com o carinho, a bondade, o amor da desconhecida, com quem eu apenas tinha tido contato superficial.

Pensei: bem-vindo de volta. Foram-se seis anos longe e é como se fosse ontem que eu estive no Uzbequistão na última vez. Na verdade, é como se nunca tivesse partido.


Cheguei para conhecer novas fronteiras e, ao cruzá-las, novos tesouros. Mas comecei pelos antigos. Desembarquei no aeroporto de Tashkent pela primeira vez em um horário decente, que não exigiu esforço para vencer o sono. É minha quarta visita à capital uzbeque, sendo que em apenas uma delas eu cheguei por terra. Nas duas vezes que havia vindo de avião havia chegado no meio da noite, lá pelas três da manhã. Agora, cheguei às 8h30 e encontrei imediatamente mudanças que facilitam a vida do visitante. A morte do ditador Islam Karimov, em 2016, foi um empurrão positivo em muitos sentidos. A burocracia de outrora ao desembarcar, com a exigência de preencher um formulário com cada centavo de cada moeda estrangeira na carteira, foi deixada no passado, com exceção apenas dos visitantes que trazem mais de US$ 2 mil. Um novo terminal internacional ficou pronto no aeroporto, limpo e amplo, com muitos guardas esperando para dar o carimbo de entrada no passaporte dos turistas. Sem confusão. Que contraste com as tensas chegadas em 2001 ou 2003. No entanto, talvez a mudança mais radical foi a autorizada pelo atual presidente uzbeque, Shavkat Mirziyoyev, em 2017: houve uma grande reforma cambial, com uma desvalorização significativa do moeda local, o sum, na cotação oficial. Até minha última visita, em 2012, um lucrativo mercado negro oferecia uma fortuna em sums aos que chegassem ao país com um punhado de dólares, muito mais do que oferecia o câmbio oficial. Os turistas, eu inclusive, evitavam trocar dinheiro nos locais de câmbio oficiais, iam para as sombras. Agora, a taxa oficial é a mesma que seria paga no mercado negro, e os vendedores secretos de sums perderam o sentido. Em vez de ir a um mercado de rua trocar tudo com sussurros, com medo de ser flagrado pela polícia, desta vez pude trocar o dinheiro no aeroporto.

O que sim não mudou foi a postura dos taxistas que ficam à espreita, esperando os turistas na saída do terminal de desembarque e buscam lucrar com a ignorância dos mesmos em relação às tarifas da cidade. Desta vez, me preparei muito bem para enfrentá-los. Nas duas vezes anteriores combinei com os hotéis onde me hospedei que enviassem um motorista para me buscar. Desta vez, não, já que, por causa do horário de chegada, teria plena possibilidade de negociar com um taxista sem enfrentar sono e cansaço. Minhas conversas com amigos uzbeques indicavam que o preço justo para me levar ao meu destino, do aeroporto ao centro de Tashkent, seria entre 5 mil e 10 mil sums. Um taxista me abordou na saída do terminal, perguntei quanto queria pela corrida. Ele disse três mil. Barato. Perguntei "três? Três mesmo"? Ele confirmou. Pensei: se meu russo for pior do que penso, ele pode ter dito 13. A jornada foi curta (15 minutos) e, ao chegarmos, ofereci os 3 mil ao motorista. Ele disse que, na verdade, tinha pedido 30 mil. 30 mil! Reagi como deveria reagir, como se a sugestão do taxista fosse um insulto. Mesmo que a vida dos taxistas seja muito difícil, e seja fácil entender por que tentam explorar os turistas, não poderia aceitar jamais tamanha manifestação de desonestidade. Dada minha reação, o próprio taxista não brigou. Talvez tenha ficado envergonhado e aceitou sem relutância os 5 mil que por fim lhe ofereci.

Como pedi, ele me deixou em uma praça perto da estação de metrô Kosmonavtlar (Cosmonautas) onde ficava o escritório de uma agência de turismo que contratei e que agora teria que encontrar para fazer um pagamento. A empresa organizou uma excursão privada para que eu pudesse visitar, pela primeira vez, o Turcomenistão, o único dos cinco países centro-asiáticos da ex-URSS que não conheço. Trata-se de uma visita muito esperada, muito sonhada por mim, há décadas, e que viria finalmente dentro de algumas semanas.

O trâmite com a empresa foi no "estilo KGB", envolto em mistério, com uma aura de ilegalidade. O dinheiro para pagar a excursão, uma pilha de dólares, se foi na mão do meu contato, um russo que me passara as pistas para localizar seu escritório, que só encontrei após, evidentemente, me perder no verde da praça. A agência ocupava umas salinhas escondidas em um velho bloco habitacional soviético entre as árvores. O escritório era pequeno e sombrio, realmente me senti comprando algo proibido, mas o russo — um senhor forte e alto, mas excessivamente enrugado, provavelmente muito menos velho do que aparentava — foi cortês e amigável, me passou confiança. Após receber o pagamento, confirmou que estava tudo certo, me deu um recibo e uma passagem de trem que eu também havia encomendado à agência, de Tashkent para Termez. Para lá eu me dirigiria depois de revisitar ainda hoje Margilan, cidade no Vale de Fergana onde estive uma única vez em 2003.

Minha terceira viagem de Tashkent ao vale. Tomei muito cuidado ao negociar o preço da viagem com o taxista, que encontrei no lugar habitual de onde saem os taxistas para a região, um mercado ao ar livre na periferia da capital uzbeque. Na negociação, desta vez deixei muito claro e repeti ao taxista quanto eu estava disposto a pagar, cuidadosamente pechinchando em russo, uma tarefa inglória, mas recompensadora. Depois, na jornada em si, novamente muito cuidado para não enjoar nas curvas, subidas e descidas tortuosas do caminho.

Contudo, nada que eu fizesse poderia me salvar.

No caminho, antes da parada em que ganhei as maçãs e o non da companheira de viagem, o taxista parou em um posto de gasolina. Eu estava apertado, e me apontaram onde ficava a casinha de alívio, em um terreno vizinho. Indicaram o caminho para chegar lá, com uma escada curta para descer. A escada me trouxe para uma área de videiras carregadas, através da qual seguia o caminho para o banheiro, a uns 20 metros. Passando por baixo das uvas maduras, senti uma vespa amarela dando um rasante no meu rosto. Usei a mão direita para espantá-la, numa reação instintiva, sem pensar. O bicho agarrou com força o dedo indicador da mesma mão e me castigou. Uma dor lascinante. Nunca antes eu havia sido picado por uma vespa.

Me aliviei, rezei ao passar pelas parreiras na volta para não ser atacado de novo e entrei no carro. Meu dedo estava com o dobro do seu tamanho normal. Me esforcei para fingir que estava tudo bem, não queria incomodar a mulher e seus dois filhos ou o motorista, que, certamente, iriam tentar me oferecer algum remédio. Era apenas uma picada, mas, Deus do céu, que agonia.

Paramos em seguida no mercado à beira da estrada. Retomamos a viagem, eu, mordiscando uma das maçãs que a gentil senhora me deu.

O vale nos recebeu solar, verde e vivo como sempre. Uma hora depois, em Margilan, fui deixado na porta da fábrica e loja Yodgorlik (suvenir, em uzbeque), a mesma que visitei em 2003.

Margilan era, e é, o principal centro de produção de seda do Uzbequistão, país que por sua vez representa o tradicional coração da ancestral Rota da Seda. Aqui, a seda mais tradicional é chamada khan-atlas; possui faixas ou losangos com cores contrastantes, berrantes, tingidas com uma variedade de pigmentos para criar todo o arco-íris. Obviamente, hoje em dia a concorrência chinesa só permite que empresários com um modelo de negócios diferenciado sobrevivam. Yodgorlik mantém sua produção artesanal, usando métodos tradicionais para a produção do tecido que por aqui é sempre deslumbrante (releia aqui o relato de minha visita à fábrica em 2003). Precisava voltar à fábrica, após ter ficado impressionado com o que vi daquela vez.

Ao chegar, ela estava fechada, e por pouco fico sem visitar também a loja anexa onde centenas de artigos lá produzidos aguardam os visitantes, todos com preços salgados para os padrões locais, em dólares, mas de excelente qualidade. Minha memória me traiu, ou a fábrica, e a própria Margilan, mudaram muito. A entrada da Yodgorlik, o seu pátio interno, a loja... eu já havia esquecido de tudo. Era como se nunca estivesse estado por lá. Logo percebi, por exemplo, que a loja ocupava o lugar de uma antiga mesquita, incluindo um lindo teto de madeira colorida. Passei um bom tempo olhando as sedas e conversando com o vendedor, que, falando inglês fluente, achou graça de minhas tentativas de falar com ele em russo. Demos boas risadas falando sobre as dificuldades do russo. Gastei uma fortuna, mais de US$ 100, o que no Uzbequistão representa quase um mês no salário médio das pessoas. Foi uma compra por impulso. Fui enfeitiçado pela boa impressão de 2003 e senti um desejo irrefreável de repetir as compras de então. Mas, ainda na loja, mas já com as sedas na mochila, tive certeza de que no mercado de Margilan que eu visitaria no dia seguinte o preço estaria bem mais em conta. Depois, já caminhando à beira de uma agitada avenida (que, novamente, nem lembrava que existia, se é que existia em 2003) em busca de um lugar para passar a noite, o arrependimento foi ao pouco evaporando. O sol me fez ver mais claramente. Caro? Sim. Vale a pena? Sim! Ajudar uma empresa local, que mantém viva técnicas antigas, e produz um tecido tão, tão bonito, isso vale mais a pena do que uns trocados a mais. Disso me convenci.

Andei por meia hora até chegar a um hotel. Ao entrar, percebi como eu estava cansado. Exausto. Desde o desembarque de manhã, até agora, nada de parar. Entrei no quarto, joguei a mochila para o alto, me atirei na cama. Senti minha camiseta encharcada de suor nas costas, mas não tinha forças para tirar. Desmaiei. Acordei duas horas depois só para tomar um banho e voltar para a cama, com o dedo latejando com os efeitos do beijo da maldita vespa.

Que amanhã os insetos não sejam tão inclementes.

Margilan, 23h10, 4/8

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Novas Fronteiras é um diário de uma viagem feita em 2018 a três países da antiga URSS na Ásia Central — Uzbequistão, Tajiquistão e Turcomenistão. Novos capítulos são publicados neste blog duas vezes por semana, às quintas-feiras e domingos, e seguem ordem cronológica. Novas Fronteiras é parte de um projeto maior que inclui outros diários de viagem pela Ásia Central publicados neste blog pelo autor, que tem viajado regularmente à região desde 2001. O objetivo do projeto é apresentar um panorama detalhado e em profundidade das sociedades dos países da antiga URSS na Ásia Central, em um processo de busca e exploração em que o autor executa uma viagem simultânea, de autodescoberta e entendimento do universo centro-asiático como espelho de sua própria existência.

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Saturday, 15 January 2022

Were there significant changes in the "Kazakh Revolution"?

Ten days after the violent protests in Almaty, arguably the key moment of the unprecedented wave of protests that took hold of Kazakhstan this month, the consequences of the historical events seem far from clear. As in any complex socio-political transformation, the real aftermath will probably be known in due time. Perhaps the only thing that can be said for sure now is that there were some changes that will be affecting mostly domestic Kazakh politics, but perhaps the significance of these will not be high given that, so far, there are no indications of a real drive in the political elite to adopt political reforms. In terms of foreign policy, although there is much speculation that Russia might move decisively, after the CSTO intervention, to impose a dominance and steer the country from its pragmatic multi-vector stance, it is still likely that Kazakhstan will continue to maintain its old ways.

Changes in the elite... but is the same elite

In domestic terms, the number one consequence of the "Kazakh Revolution" was a rupture in the ruling political elite. As predicted, the association of the Nazarbayev clam with president Kassym-Jomart Tokayev became unbearable, and the president was faced with a clear choice: either move away from former president Nazarbayev and his close associates or risk sinking with them. After all, the protests, which were ignited by demonstrations against the hike in gas prices in the always restive West of the country, soon turned into a political movement aimed at regime change, focused above all on the figureheads of the Nazarbayev era. The former president continued to be perceived as the source of all real decisions in the country, and members of his extended family continued to occupy key posts in lucrative state companies. The calls for democracy were, arguably, above all calls to get rid of this patrimonialist, nepotist network, and manifestations of the huge dissatisfaction caused for the lack of political participation and the huge economic inequality linked to this structure. The way out for Tokayev, therefore, was necessarily to provide an answer to this.

Then the protests turned violent, particularly in Almaty. It is still unclear who were, indeed, the responsible for turning mostly pacific demonstrations into a nasty display, with the invasion of the Akymat (Mayor's office) in Almaty, as well as looting and vandalism, followed by police heavy-hand response with shots, thousands of arrests and at least 225 deaths. There are speculations in Social Media that these "bandits" behind the vandalism were actually men working on behalf of the government, so that the ensuing violence could provide an excuse for intervention and crashing of the real opposition which staged the original demonstrations. Another theory, the one put forward by the government itself, is that the violence was orchestrated by "domestic and international terrorists" with the support of the Nazarbayev power circle, namely the head of the National Security Committee, Karim Massimov, who simply would have allowed it to happen so that Tokayev would be in trouble. If true, this explanation would be an indication of a previous rift in the ruling elite that had been widening from some time, perhaps due to the pro-democracy protests in recent years (after the presidential elections in 2019 and the Legislative elections in 2021). Also, this would explain why Tokayev was keen on calling on a CSTO intervention so fast: because he mistrusted the security structure surrounding him and needed someone who they could rely on to help him stay in power.

During the troubles and in the ensuing days, Tokayev gave clear indications of this elite rupture, while, at the same time, promissing populist measures tailor-made to release the pressure against him. Massimov was ousted and charged with treason; in a speech, the president said that a private company in the hands of one of Nazarbayev's daughters would no longer hold a monopoly in waste recycling; he also said it was time for the rich businessmen linked to the previous government to contribute to a new state fund for the Kazakh people. Members of Nazarbayev's extended family were ousted from key posts in the oil and gas industry, and one of his daughters appeared to be suddenly overseas in the United Arab Emirates.

However, so far Nazarbayev himself continues to hold the title Elbasy, of Leader of the Nation, and there is no word that he will be prosecuted in any form. There are no indications that there will be a comprehensive inquire or denunciation of nepotism, corruption or embezzlement of the old regime; and, perhaps most significant, although adopting a newly populist stance and acknowledging real reasons for dissatisfaction among the Kazakhs, Tokayev did not hint at all that may adopt political reforms or follow the path of democratization. It is possible, therefore, that the changes were purely cosmetic: some members of the old elite were sacrificed as scapegoats, the former president himself is still protected and the political structure remains the same.

The question mark about Russia

In terms of Foreign Policy, perhaps the changes could be more tangible. It seems that the call for CSTO intervention was very well received in Moscow (which steered clear of sending troops to Nagorno-Karabakh in 2020 or to Osh in 2010, despite calls from Armenia and Kyrgyzstan, also CSTO members), perhaps because from the beginning the mission seemed limited to protect the government structure and provide a safety net to Tokayev. Now that the troops are leaving Kazakhstan, some analysts believe that Russia will be more assertive in the country. In other words, Russia might direct Nur-Sultan in strategic decisions that hitherto the Kazakh government might take using its traditional approach, striving for a balance between the different international stakeholders (the multi-vector foreign policy). For years, it has been like this - Kazakhstan trying to keep good relations with the West, with China and Russia, and, at the same time, playing their interests on occasion one against the other if needed be so to extract gains from it. But Russia, at least for the time being, continues to have the same leverage in Kazakhstan; Chinese interests were not and will not be affected by the recent protests, nor the joint ventures with Western oil companies to explore the lucrative reserves in the Caspian region. Russia's bill for the recent feast in Kazakhstan could be more subtle: perhaps the adoption of minor policies aimed at bringing closer the two countries or policies aimed at protecting the interests of Russians in Kazakhstan. But, more importantly, the result likely more expected in Moscow is the continuation of a status quo in which Kazakhstan is a firm ally in its foreign policy projects like the Eurasian Union and the CSTO itself, or Russia's stance in Ukraine, instead of the risk of a new Kazakh regime that could move further away. It is not clear if Putin believes this is enough, but it is worth remembering that Kazakhstan is no Tajikistan or Kyrgyzstan: it has a much stronger economy and doesn't rely as much on remittances from labour migrants in the Russian Federation. So it is less likely to budge.

To be or not to be (a Revolution)

The next few months are expected to tell us a lot about the still foggy future of Kazakhstan. There are some key developments to follow closely: What will be the strategy of the political opposition to maintain the momentum, despite the violence during the protests? Will a leader, or leaders, of the opposition appear or be allowed to appear? Will Tokayev continue, in a staggered way, to "clean" the members of Nazarbayev group from the circle of power? Will Nazarbayev himself be investigated or punished? What will happen with Nur Otan, the all-powerful ruling party (will there be at least some party reform aiming at providing a more level ground for the opposition in future elections?)? Will Tokayev's response be successful in reducing the popular dissatisfaction with the regime? Will Russia be more assertive in its relation with Kazakhstan, forcing the country to pay a higher price for its help? And will Tokayev give in to this Russian pressure?

It seem, after all, that the "Kazakh Revolution of 2022" was not even a revolution at all. Early indications show that there was a change in the elite, but Tokayev was part of the former elite, which went through a rupture, with one part remaining at the top. New cabinet members appointed by the president in the aftermath of the unrest are mostly the same as previously. However, even if it was a Revolution, it was not, this is for sure, a "colour revolution" as put by Putin. The president was not ousted and there are absolutely no indications that foreign agents were behind the unrest, as stated by Tokayev. The processes that lead to the dramatic developments in the Central Asian colossus were purely domestic. There are also no indications that its underlying causes were addressed. This could only be achieved by providing a means for genuine political expression of those who feel let down by the rulers. The less reforms are adopted in the coming months, the more likely is that we continue to see tension in Kazakhstan, likely to be answered (now more than even) with increased violence by the Kazakh government.

Thursday, 6 January 2022

What will happen in the "Kazakh Revolution of 2022"?














There are many ways to analyse the truly unprecedented protests that just took hold of Kazakhstan. But one thing is for certain: the protests are the greatest threat to the political framework in place in the Central Asian giant ever since its independence, in 1991, when now former president Nursultan Nazarbayev, which rose to power still during Soviet times, established the rules of the political game in the country.

First, it is important to explain why the protests are unprecedented:

1) Not since 1986, during the so-called Zheltoksan protests, before the fall of the USSR, had we seen so many people, and in so many different regions of the country, taking to the streets. In 2011, violent clashes between police and protesters in the restive west of Kazakhstan left at least 14 deaths. However, at that time the protests were more centred in the oil and gas producing hub of Zhanaozen. There was no massive response in other regions, most notably the former capital Almaty. Now, we are seeing reports of protests in, for example, Aktobe, in the north-west, in Kyzylorda, in the south, and of course in Almaty as well. A particularly striking image shared on the internet (above) is the toppling of a statue of Nazarbayev in Taldykorgan, the capital of the Almaty region, which was one of the places where the 1986 protests took place;

2) The number of deaths so far is quite shocking: The casualties already seem to be surpassing the total in the Zhanaozen protests; most likely, the number should be closer or even higher than the one in the 1986 unrest, which left up to 200 deaths. The videos now being shared in social media paint a bleak picture;

3) For the first time since the independence when the country faces a national emergency, we have not heard any reaction (so far, I am writing this on January 6th, 1300 GMT) of former president Nazarbayev, who is at the core of everything;

4) Kazakhstan called for the intervention of the CSTO (Collective Security Treaty Organization), the Russian-led body that provides mutual military assistance to its members in case of threats. The CSTO is well remembered for failing to act in 2010 when a member, Kyrgyzstan, asked for intervention. In the occasion, the Kyrgyz president was ousted and violent ethnic clashed left around a thousand deaths in the south of the country.

The reasons of the protests

As mentioned, the current violence has its roots in the political system put in place by Nazarbayev, which is essentially patrimonialist. The key economic sectors are divided among Nazarbayev allies, including members of his own family. The former president took hold of the shadowy parallel structures of power that were already in place during the Soviet years and made sure he had allies everywhere. The system is "superpresidentialist"; the Parliament is purely for rubber stamp procedures, there is no real opposition, the governors of the different regions of the country are named by the person in the top. When Nazarbayev left the presidency in 2019, there were speculations that the new president, Kassyn-Jomart Tokayev, would adopt democratic reforms. Indeed, this is something he himself has promised, but always with the caveat that they should be gradual, which means slow, which in practice means non-existent. At the same time, measures adopted by Nazarbayev to solidify the control over the civil society were not reversed and some new were adopted as well. In 2015, Kazakhstan adopted a law very similar to the one adopted in Russia in 2012 targeting independent NGOs, which were subject to much bureaucracy to operate. Also, the usual strategies against opposition groups continued to be used: for example, using excuses, the police often pre-emptively arrest or harass members of the opposition. A new law on protests was adopted in 2020 making even more difficult than before to hold rallies or demonstrations. Unofficial opposition groups or parties are not allowed to organize the protests. Moreover, there was never really free press in the country and, finally, it is undeniable that Nazarbayev had a significant degree of support particularly in larger cities such as Almaty.

For a long time, these elements were enough to hold the development of real opposition in the country, while a make-believe opposition was kept by the authorities to give an apparent legitimacy to elections held regularly. The social pact was clear and accepted widely: in exchange for stability and economic opportunities, the population was to relinquish a real say in the politics of the country. This left the opposition without any options. The only way out was to simply to stay alive and hope that a reason strong enough to act as a wake-up call, leading people to reject strongly the system and support change, would eventually. In the distant west of the country, the reason was found in Zhanaozen in 2011 as the local population continued to endure dire economic conditions while producing the riches of the country. But not elsewhere. Now, the hike in the prices of gas, used extensively as car fuel all over the country, seemed to be a real catalyst.

But the economy doesn't explain everything. The Kazakh society is clearly changing and, 30 years after the demise of communism, there are indeed signs of a rising civil society, despite all the repression. Following 2011, protests were held regularly in Kazakhstan for a number of reasons, among them some significant ones in 2016 against a proposed land reform. The importance of social media as a means to mobilize these groups is undeniable. Not surprisingly, during the current unrest Tokayev rushed to take down internet access in the country. For these social media activists, it is clear that, although he left the top job in 2019, in a carefully conducted transition of power to Tokayev, the 81-year-old Elbasy (Leader of the Nation) continues to yield control, making sure that the old system continues in place.

Therefore, although Tokayev blamed the protests on "international terrorist gangs", it is therefore clear that there are strong domestic reasons for the unrest.

What happens next?

Besides dropping the internet, sending riot police and calling for the CSTO to intervene, a key element of the response of Tokayev so far has been to try to distance himself as much as possible from Nazarbayev. The former president still held the post of head of the National Security Council, his last official position in government, but his was ousted. Tokayev's cabinet resigned and a new prime minister was named. And the controversial new fuel policy was reversed. In theory, these measures should help decrease the pressure. But the Pandora's Box is open, so it is difficult to predict what will happen.

One element that makes things complicated for the survival of the regime is that it will be difficult to convince the protesters that Nazarbayev is really no longer holding the reins. This could be achieved perhaps only with free and fair elections or dies. It would be not enough if the former president leaved the country as some pundits now predict on Twitter.

But the most significant complication is the apparent lack of leadership among the protesters. As a matter of fact, there is something shadowy about the people taking part in the most violent acts, such as the invasion of the Akymat (mayor's office) in Almaty and the destruction of public property. There are reports that, after a peaceful start, a number of protests were taken over by violent men who seeming came out of nowhere and highjacked the movement. In last year's revolution in Kyrgyzstan, there was a similar situation, but in that case the men were traced to criminal gangs that yield significant control in the country and, most likely, where behind the rise of current president Sadyr Japarov. It is not so clear in Kazakhstan, though it is possible that criminal groups might also be involved.

If the protests then lead to regime change, with the toppling of Tokayev/Nazarbayev, then there are many more questions that remain without clear answers and, depending on these answers, the regime might not really change after all. For example: the ruling party, Nur Otan, is the only real political force in the country, with strong presence and organizational power all over the country. If elections are held without political reform to allow real competition, the "revolution" would have been in vain. Moreover, the elites that take over power would need to be really willing to change the system instead of simply taking over the old elites. Some analysts believe that most capable people were co-opted by the old regime long ago or are based overseas. Would they be willing to allow for real change, with the potential risk of more instability? Theirs calculations, to reach a conclusion on the pros and cons, will be key.

Finally, there is the big question mark of that will come out of the CSTO intervention. Tokayev's request for military assistance can be seen as the Kazakh leader accepting to relinquish the country's sovereignty in order to survive. Although an ally of Russia, Kazakhstan, unlike what is common believe in the West, is not a puppet of Moscow; rather, its foreign policy mimics that of other former Soviet countries, by which it tries to manipulate the interests of big players (Russia, China, USA) in the region to maximize its own gains, not rarely playing the big players against each other. A Russian intervention would most certainly increase Moscow's influence over Kazakhstan, making far less likely that real political change could come. But this depends on the scale of the intervention, how much time it will last and its final result.